Michel Alcoforado traz a BH o monólogo "Coisa de rico: outras histórias"
Antropólogo diz que 'as pessoas acham que vão sair" da versão teatral do livro "sabendo sobre códigos da riqueza e saem com uma reflexão sobre a classe média'
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Autor do livro “Coisa de rico”, um dos maiores sucessos editoriais do ano passado, com mais de 175 mil exemplares vendidos, o antropólogo Michel Alcoforado quer popularizar o conhecimento adquirido ao longo de 15 anos de investigação sobre o universo dos abastados.
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Essa foi a motivação para a criação da aula-espetáculo “Coisa de rico: outras histórias”, que, depois de passar por Rio de Janeiro e São Paulo, inicia uma turnê nacional por Belo Horizonte, com apresentação no próximo domingo (18/10), no Teatro Sesiminas.
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Conhecido como “Antropólogo do luxo”, Alcoforado se vale do palco para transformar pesquisas, histórias, conceitos e observações acumulados ao longo de sua trajetória em uma experiência que combina humor, reflexão e elementos da linguagem teatral para discutir riqueza, desigualdade, comportamento, cultura e pertencimento.
A aula-espetáculo, que tem inspiração no formato consagrado por Ariano Suassuna, tem direção de Batman Zavareze, que já esteve à frente de turnês de artistas como Marisa Monte e Roberto Carlos.
Em “Coisa de rico: outras histórias”, Alcoforado aborda conceitos fundamentais da antropologia em uma linguagem que contorna o vocabulário fechado da academia: cultura, contexto, alteridade, busca por sentido e observação participante aparecem a partir de situações e histórias cotidianas.
Ele conta que, ainda sem saber exatamente no que resultaria, começou a montar um roteiro a quatro mãos com Afonso Cappellaro, conhecido por trabalhos em produções como “Greg News”, “Esquenta!” e “Vídeo show”.
PERFORMANCE CÊNICA
“Estávamos nesse processo de escrita quando, no meio do caminho, me vi diante de um vídeo de uma aula-espetáculo do Suassuna. Falei para o Afonso que tinha que ser aquilo, porque se relaciona diretamente com esse meu projeto de botar a antropologia na rua”, comenta.
“Dei muita aula, mas não tinha traquejo ainda com essa instância do espetáculo”, diz. Ele explica que chegou a Zavareze por indicação e que foi o diretor, também inspirado por Suassuna, o responsável por transformar o conteúdo em uma performance cênica.
“Batman [Zavareze] inventou uma experiência pedagógica no teatro, entendendo que meu jeito de dar aula teria que ser adaptado para o palco. Ele fez uma provocação fundamental: disse que precisávamos de um preparador de elenco. Falei que eu não era ator. Ele retrucou dizendo que sempre chama, com todos os artistas com que trabalha, e que seria bom para mim”, conta.
Quem assumiu a função foi Érika Montanheiro, que cuidou de fazer com que Alcoforado incorporasse uma nova relação com o corpo, com o palco e com a plateia. Ele ressalta que, ao final de 40 dias de ensaios, de segunda a segunda, quem apareceu em cena foi um personagem de si mesmo.
“Tem um autor importante, Erving Goffman, que diz que a vida é um palco e que todos nós precisamos nos valer de personagens para enfrentar essa batalha que é viver. Descobri um novo personagem do Michel que eu não tinha acessado ainda, o que me possibilitou deixar essa aula-espetáculo mais próxima de uma peça de teatro do que de uma palestra. É uma aposta no entre”, afirma.
PONTO DE PARTIDA
O antropólogo destaca que o livro “Coisa de rico” é apenas o ponto de partida. A aula-espetáculo, ele diz, é uma tentativa de mapear a antropologia a partir de seus estudos sobre o universo do luxo, destrinchando conceitos com outras histórias do mundo dos ricos que não estão no livro e também com sua experiência junto às camadas populares.
“As pessoas chegam na peça achando que vão sair sabendo sobre os códigos da riqueza e, na verdade, saem com uma baita reflexão sobre a classe média”, afirma. Ele chama a atenção para o fato de que, no espetáculo, o humor é uma ferramenta para questionar desigualdades, privilégios e distinções sociais.
“Boa parte da riqueza no Brasil se constrói sobre uma performance. E o único jeito de começar a destruir uma performance é rindo dela”, resume. Palestrante especialista em comportamento e consumo, que atua como consultor de grandes empresas e como colunista da CBN e de O Globo, Alcoforado diz que o interesse antropológico pela riqueza é fruto do acaso e de sua história de vida.
“Na antropologia, ao contrário de outras ciências, é o tema que nos escolhe. Você se vê diante de um fenômeno que não acha normal, apesar de as pessoas acharem, e vai tentar entender aquilo”, diz.
“Cresci num ambiente de classe média alta, mas a família do meu pai tinha uma origem mais popular. Isso despertou meu interesse sobre outros modos de vida diferentes do meu e me levou a pensar em outros modos de vida com mais benesses e conforto que o meu”, afirma.
RELAÇÃO COM BH
Michel Alcoforado classifica as temporadas de “Coisa de rico: outras histórias” em São Paulo e no Rio de Janeiro como “uma experiência muito impressionante”, com ingressos esgotados para todas as apresentações.
Ele destaca que esse êxito foi a mola propulsora da turnê nacional, e que a escolha de Belo Horizonte para ser a primeira cidade fora do eixo Rio-São Paulo a receber a aula-espetáculo teve um ingrediente afetivo.
“Fiz questão de que fosse BH porque quando estive aí para lançar o livro, no ano passado, no Pátio Savassi, quase foi preciso chamar o Corpo de Bombeiros, de tanta gente que tinha pendurada lá. Os mineiros foram muito generosos comigo. Tive que comprar uma mala para trazer pães de queijo, garrafa de cachaça e biscoitos amanteigados. Achei que eu tinha que voltar para agradecer essa gente”, diz.
“COISA DE RICO: OUTRAS HISTÓRIAS”
Aula-espetáculo com Michel Alcoforado, neste domingo (18/10), às 17h, com ingressos já esgotados, e às 20h, no Teatro Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia). Ingressos a R$ 160 (inteira) e R$ 80 (meia), à venda pelo Sympla.
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