Artes cênicas

Em "Gostava mais dos pais" humoristas riem de tudo, inclusive de si mesmos

Lucio Mauro Filho e Bruno Mazzeo fazem curta temporada em BH, a partir desta sexta (16/10), do espetáculo cômico em que homenageiam Lucio Mauro e Chico Anysio

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O espetáculo “Gostava mais dos pais”, que retorna a Belo Horizonte neste fim de semana, é uma homenagem a Chico Anysio e Lucio Mauro concebida por seus filhos Bruno Mazzeo e Lucio Mauro Filho. Essa reverência, contudo, é fortemente atravessada por outras questões, como a celebração da amizade entre os dois artistas em cena, as dores e as delícias de serem herdeiros de ícones da comédia brasileira, a passagem do tempo e a necessidade de adaptação à era digital em consonância com a preservação da identidade.

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O embrião de“Gostava mais dos pais” remonta ao espetáculo “Cinco vezes comédia”, no qual ambos atuavam, porém sem contracenar, já que se tratava de uma costura de monólogos.



Debora Lamm foi convidada para assinar a direção de “Gostava mais dos pais”, enquanto Aloísio de Abreu e Rosana Ferrão respondem pelo texto, escrito a partir de questionamentos levantados pela dupla desde antes da pandemia, quando surgiu a ideia de dividirem o palco.



Lucio Mauro Filho diz que o espetáculo começou pelo título, que é uma celebração e, ao mesmo tempo, uma brincadeira com essa condição de carregar um DNA que tem um peso, de seguir uma profissão na qual o pai é um nome consagrado.



“Durante o processo de escrita é que percebemos que estávamos falando da passagem do tempo, aí começamos a criar pensando no que estamos vivendo hoje, o que foi um grande acerto, porque é o que comunica com o público, especialmente com quem é da era analógica”, diz.



Ele pontua que o título da montagem acaba sendo uma pista falsa. “Chico Anysio e Lucio Mauro são dois vencedores, dois pioneiros, que viveram o tempo deles da melhor forma possível, e nós estamos vivendo o nosso tempo”, comenta.



Esse viés explica as redes sociais como uma temática que se impõe no roteiro do espetáculo, segundo o artista. Ele diz que seria impossível fazer esse paralelo entre gerações de pais e filhos sem tocar no assunto. A chegada da pandemia reforçou essa percepção.



DANCINHA DO TIK TOK


“Quando fomos escrever, a rede social entrou com tudo. Não por acaso é a partir de uma dancinha do Tik Tok que a história se desenrola”, conta. Ele diz que uma das finalidades do humor é fazer as pessoas olharem para o que acontece na sociedade sob outra perspectiva.



“Nossa peça faz uma reflexão sobre a linha tênue que define os limites da comédia e da nossa responsabilidade de estar em sintonia com o nosso tempo, porque o humor também envelhece”, observa. Ele considera que brincar com características físicas de qualquer pessoa, por exemplo, não cabe mais.



Lucio Mauro Filho reflete que, se o humor envelhece, por outro lado também se renova. Essa renovação, ele acredita, está justamente nas redes sociais, porque, como diz, o Brasil é a terra do meme, que exporta comediantes da internet.



Sua posição diante desse fenômeno, no entanto, não é acrítica. “Na verdade, sou opositor da rede social enquanto cultura de massa, acho que ela faz muito mal, porque não tem regulação, porque incorporou a ofensa e o ódio, mas, ao mesmo tempo, não posso fechar os olhos, já que é cultura de massa”, pontua.



“Minha opinião com relação à rede social não me impede de usá-la e descobrir nela figuras interessantes. Ela é hoje mais poderosa do que a TV, então eu, como um cara do mercado, tenho que estar atento a isso”, acrescenta.



Sobre a dinâmica de “Gostava mais dos pais”, com a alternância entre os atores e os personagens que incorporam, ele diz que também surgiu do desejo de falar do agora. Lucio Mauro Filho explica que nem todas as questões levantadas em cena são fruto de vivências pessoais. “Percebemos que os assuntos nos sugeriam personagens que não eram nem Lucio nem Bruno. Quando fomos criando, percebemos que era um respiro maravilhoso, porque, se fosse só nós dois de cara limpa do início ao fim, seria uma sessão de terapia teatral”, diz.



Ele observa que, para a escrita do texto, tiveram que estudar os assuntos que têm mexido com a sociedade, como as redes, a comunicação em tempo integral e as ambições, que hoje são outras – se antigamente o pai queria que o filho fosse engenheiro ou advogado, hoje quer que seja influencer.



“Os personagens surgiram a partir do momento em que resolvemos retratar a realidade, a que eu e Bruno vivemos, mas não somente. O espetáculo é uma dramatização da vida cotidiana”, diz.



CRISE DA MATURIDADE


Lucio Mauro Filho admite que a crise da meia-idade, um dos temas tratados em “Gostava mais dos pais”, bateu à sua porta. Ele diz que chegar à data redonda dos 50 anos gera muitas reflexões e também um cansaço. Para o ator, que está com 52, essa crise foi uma “tempestade perfeita”. Ele observa que começou a trabalhar cedo, com 16 anos, e nunca parou, sempre atuando em várias frentes. “Aí você junta um casamento de 28 anos e três filhos, dois na faculdade e uma temporã, que está com 8 anos, que te põe de novo às voltas com a responsabilidade da criação. Aí veio a pandemia e depois, faltando quatro meses para eu completar 50, mamãe morreu de um jeito muito súbito. Juntou muita coisa. Ao mesmo tempo é a vida perguntando: ‘E aí, para onde você vai?’ “Como vai diminuir o ritmo?’ Felicidade não é um ponto onde você vai chegar; é sempre uma busca, então é preciso elencar o que de fato você precisa e o que é descartável, o que já fechou o ciclo. Estou enfrentando essa crise, e a peça ajuda, tem esse efeito positivo.”

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“GOSTAVA MAIS DOS PAIS”
Espetáculo cômico com Lucio Mauro Filho e Bruno Mazzeo, nesta sexta (16/10) e sábado, às 21h, e no domingo, às 19h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Ingressos para a plateia 1 a R$ 180 (inteira) e R$ 90 (meia), plateia 2 a R$ 160 (inteira) e R$ 80 (meia) e plateia 3 a R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia), à venda pelo Sympla e na bilheteria.


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