LUTO NAS LETRAS

Zuenir Ventura: o contínuo genial que se tornou repórter brilhante

Conheça a história de um dos mais importantes jornalistas brasileiros; escritor membro da ABL, mineiro morreu nesta terça (22/9), aos 95 anos, em casa, no Rio

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“O homem não nasceu pra morte. Nasceu pra vida e pra imortalidade.” Morto nesta terça-feira (22/9), aos 95 anos, em casa, no Rio de Janeiro, em decorrência de pneumonia, o jornalista e escritor mineiro Zuenir Ventura encerrou seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em março de 2015, citando seu antecessor, Ariano Suassuna (1927-2014).

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Norte de diferentes gerações de jornalistas, ele próprio se imortaliza diante de vasta obra humanista em torno do Brasil. Com seu faro afiado de repórter, nos ajudou a compreender o país.

Suas reportagens geraram livros essenciais: as mudanças do país e do mundo na década de 1960 em meio à ditadura estão em “1968: O ano que não terminou”, considerado sua obra-prima. A desigualdade social e a violência no Rio são a base de “Cidade partida”, enquanto a exploração da Amazônia resultou em “Chico Mendes: Crime e castigo”.

O velório de Zuenir, aberto ao público, será nesta quarta (23/9), na sede da ABL. Já o enterro será no cemitério São João Batista.

“Criticar a velhice é uma estupidez, porque a alternativa é não chegar lá”, afirmou em 2021, ao completar 90 anos. Atuou na imprensa até muito recentemente – sua derradeira coluna em “O Globo”, onde escreveu por mais de duas décadas, foi publicada em fevereiro de 2022.

Em sua última entrevista ao Estado de Minas, em julho de 2025, quando do lançamento do livro “Cidade partida, 30 anos depois”, organizado por seus filhos, Elisa e Mauro Ventura, lamentou: “Como jornalista e escritor, fico feliz que o livro não tenha ficado datado. Mas, como cidadão, lamento que muitas das questões continuem atuais, como a desigualdade social, a violência policial, a tirania do poder paralelo, a ausência do poder público nas favelas.”

Zuenir nasceu em Além Paraíba, na Zona da Mata, em 1º de junho de 1931. Em Minas, sua cidade foi mesmo Ponte Nova, onde chegou com alguns dias, foi criado e viveu até os 11 anos. De lá, foi com a família para Nova Friburgo, no interior do Rio. Foi ali que, segundo ele próprio, “caiu na vida”.

VOCAÇÃO

A mãe, dona Herina, casada com seu Antônio José (seu Zezé, pintor de paredes), queria que o primeiro filho homem fosse padre. “Descobri que a vocação para a religião era dela, não minha.” O casal, pobre e semi-alfabetizado, divergia quanto à criação dos filhos. Dona Herina achava que o futuro estava na educação; seu Zezé, que estudar era coisa de rico, o trabalho tinha que vir antes de tudo.





Pois ele juntou as duas vontades. O primeiro ofício de Zuenir, ainda na adolescência, foi como aprendiz de pintor, junto ao pai. Mais tarde, já em Barra do Piraí, foi contínuo. Preferia ler a escrever, então enxergava o mundo pelas leituras da revista “O Cruzeiro”. A altura avantajada – “Um rapaz de quase dois metros”, lembrou-se a acadêmica Cleonice Berardinelli, sua ex-professora, no discurso de recepção a Zuenir na ABL –, o levou a jogar basquete.

Conseguiu uma bolsa numa escola particular, deu aulas e mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1953, decidido a tirar um diploma de magistério. Imaginava-se professor. Estudou letras neolatinas na atual UFRJ, onde foi aluno de Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Celso Cunha. Zuenir descobriu ali um novo mundo.





O dinheiro, sempre curto, o levou a trabalhar como arquivista, na parte da noite, na “Tribuna da Imprensa”. Seu primeiro texto publicado foi num susto. Em janeiro de 1960, Carlos Lacerda procurava alguém para escrever o obituário de Albert Camus, paixão de Zuenir desde sempre. Ele se ofereceu. 

“Correu a lenda de que o contínuo do arquivo do jornal era um gênio”, ele contou, em 2011, ao projeto “Depoimentos para a posteridade”, do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. A partir deste texto, o arquivista subiu para a Redação, com um salário três vezes maior.

Pouco tempo depois, conseguiu uma bolsa do governo francês para uma temporada de um ano de formação em jornalismo em Paris. Com isto, tornou-se correspondente da “Tribuna”. Na volta ao Brasil, passou por diferentes redações: “Correio da Manhã”, “O Cruzeiro”, “Fatos e Fotos”, “Visão”, “Isto É” e “Jornal do Brasil”.

PRISÃO

Em 1968, foi preso, meia hora antes da mulher, Mary Akiersztein, sua companheira de vida. Ficou três meses sob o jugo dos militares, sem sofrer torturas. Teve como companheiros Ziraldo e Hélio Pellegrino. Foi solto por causa deste último, que era muito próximo de Nelson Rodrigues. 

“Ele apoiava o regime militar e era amigo dos generais, tanto que conseguiu tirar o Hélio. Na hora H (Pellegrino) avisou que só sairia se o Zuenir saísse também. Saí com o aval de Nelson Rodrigues.”





Otimista e bem-humorado acima de tudo, Zuenir não perdia a fleuma. Em 1999, a imprensa anunciou sua morte. Um repórter havia ligado para um telefone antigo do jornalista. A dona do novo número, cansada de receber ligações para ele, disse que o jornalista havia sido atropelado e que o corpo estava no Hospital da Lagoa.

Zuenir, em carne e osso, estava participando da reinauguração do Instituto Moreira Salles, no Rio, evento que contava com a participação de Fernando Henrique Cardoso, então presidente da República. Estava incomunicável. O filho Mauro saiu à procura do pai. A mulher, Mary, desabou. A notícia ficou três horas no ar.

“Quando cheguei em casa, às três horas da manhã, a notícia continuava lá e terminava assim: “Sua última coluna deve sair amanhã no ‘O Globo’”. Aí me bateu aquela coisa, se estava escrito ali, eu podia ter esperado mais um tempo para ver o que falariam de mim. Para reclamar, claro! Achei a notícia muito pequena.” Grande Zuenir!

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