LITERATURA

Natalia Timerman aborda relação entre filha e mãe que tem Alzheimer em obra

‘Antes que apague’, novo romance da escritora paulistana, é ‘uma investigação que questiona a relação entre literatura e vida’, conforme ela diz

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“O quanto isso é válido? Que direito uma pessoa tem de fazer isso?” Foram as perguntas que a escritora e psiquiatra Natalia Timerman fez a si mesma durante a escrita de “Antes que apague”, romance recém-lançado pela Companhia das Letras.

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Inspirado na vida da autora, o livro traz a experiência dela com a mãe, diagnosticada com Alzheimer, e vai além, revelando casos indiscretos da vida da mãe, que a família não sabia – ou preferia esconder.

Ainda que, de certo modo, polêmico, “Antes que apague” não deixa de lado reflexões sobre os limites éticos de transformar a intimidade familiar em literatura.

“É um grande dilema ético usar ‘a ruína’ da minha mãe para fazer isso”, reconhece a autora. “Foi muito angustiante escrever. Eu me questionava o tempo todo se deveria estar escrevendo esse livro. Acordava de madrugada me sentindo superculpada”, afirma.

Em vez de esconder esse conflito, Natalia decidiu incorporá-lo à narrativa, tornando essas questões parte da estrutura do romance. A escritora evita reduzir a obra ao caráter autobiográfico ou chamá-la de “autoficção”.

Para ela, a doença da mãe funciona como ponto de partida para uma investigação mais ampla sobre memória, identidade e o papel da literatura, de modo que “um pingo de ficção no relato autobiográfico transforma a obra em ficção”, segundo diz.

“É uma investigação que questiona a relação entre literatura e vida. É um livro feito de muitos livros, que conta muitas histórias e vai entrelaçando uma narrativa na outra”, explica.


Em busca do passado

No centro da história está uma filha. Assim como Natália, a narradora também é psiquiatra e precisa lidar com a mãe com diagnóstico de Alzheimer. Ela tenta reconstruir a trajetória da mãe à medida que ela perde as próprias lembranças. A memória ocupa, então, lugar paradoxal, é justamente diante de alguém que já não consegue recordar que a narradora passa a buscar vestígios do passado.

Nesse sentido, a falta de memória coloca em jogo a própria identidade da pessoa. Por não poder contar mais com a memória da mãe à disposição para reconstituir a história dessa mulher, a narradora tenta montar o quebra-cabeças por meio dos vestígios e lembranças de terceiros. Mas é um quebra-cabeças quase impossível, cuja peça principal estará sempre faltando.

“Nos seus gestos, procuro a mãe que foi”, escreve a autora. “A que me levava para a aula de dança, a que ria, a que testemunhava minha caligrafia se firmar. A que notava nossas roupas se tornarem pequenas para o nosso tamanho, a que nos aplaudiu quando o boletim veio repleto de notas boas, a que me repreendeu quando contrariei uma ordem médica para participar de um jogo de futebol. Suas mãos hoje tão magras, duras, estranhas, que antes nos fotografavam, que fotografavam o mundo: seus movimentos, agora automáticos, não são mais gestos”.


Fragmentos

A fragmentação não é apenas simbólica. Também aparece na estrutura do romance. Parte da narrativa é construída pelo relato pessoal da narradora, diários apresentados fora da ordem cronológica e mensagens de WhatsApp trocadas entre ela e a médica da mãe. Essa escolha, de acordo com Natalia, dialoga tanto com a desorganização temporal provocada pela demência quanto com a arquitetura do livro.

“Existe uma organização temática. Fui montando o romance de acordo com o entrelaçamento que as narrativas pediam. Não era uma questão de seguir o tempo, mas de fazer as histórias conversarem entre si”, observa.

Psiquiatra de formação, Natalia também precisou equilibrar o conhecimento técnico com as exigências da ficção. A narradora é médica, mas sua condição profissional pouco pode fazer diante da doença da mãe.

“Ela questiona esse próprio saber, porque a mãe está sofrendo de algo e ela não pode fazer nada. Ela não está ali como médica; está como alguém que vê a mãe deixar de ser ela mesma.”

A narradora-personagem, aliás, abandona quase por completo esse “lado médica” quando o assunto é a mãe. As emoções são muito mais fortes do que explicações científicas para certas atitudes e comportamentos da mãe. É como se fizesse valer a máxima “em casa de ferreiro, espeto é de pau”.

Essa é outra característica que Natalia compartilha com a narradora de seu romance. Na hora da escrita, a literatura prevalece sobre qualquer outra identidade da psiquiatra e escritora paulistana. “Quando estou escrevendo, a escritora sempre fala mais alto”, afirma.

“ANTES QUE APAGUE”
. De Natália Timerman
. Companhia das Letras
. 192 páginas
. R$ 74,90, no site da editora. Preço pode
variar nas livrarias e no e-commerce.

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