Biografia de Silviano Santiago está entre os finalistas do Jabuti Acadêmico
Ensaio biográfico sobre o escritor mineiro, publicado pela editora Autêntica, concorre na categoria Letras, Linguística e Estudos Literários
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"Presente do acaso: um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago", do jornalista João Pombo Barile, está entre os cinco finalistas da categoria Letras, Linguística e Estudos Literários do Prêmio Jabuti Acadêmico. O livro, publicado pela Autêntica, disputa com "A fina lâmina da palavra", de Leda Maria Martins (Cobogó); "Crítica insubmissa", de Beatriz Resende (Mapa Lab); "Palavra e imagem na arte contemporânea: usos do vídeo e do arquivo", de Carla Miguelote (NAU); e "Viagem do recado: música e literatura", de José Miguel Wisnik (Companhia das Letras).
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A indicação chega poucos meses depois do lançamento da obra, em novembro, que contou com sessões de autógrafos na Livraria da Travessa, no Rio, e na Academia Mineira de Letras (AML), em Belo Horizonte – casa que reúne o próprio Silviano, ocupante da cadeira 13 desde 2021.
Redator e repórter do Suplemento Literário de Minas Gerais e colaborador deste Pensar, Barile levou dois anos de conversas presenciais no Rio e em BH, somadas a trocas por e-mail e mensagens, para construir o retrato de um dos maiores intelectuais brasileiros vivos: ensaísta, ficcionista, professor emérito da UFF, vencedor de seis Prêmios Jabuti ao longo da carreira, do Prêmio Camões em 2022 e do Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 2023.
O livro nasceu de uma escolha pouco convencional. Silviano só concordou em falar quando sentiu que Barile havia se firmado como narrador da própria história, uma condição que o autor levou a sério ao evitar o modelo de biografia com narrador onisciente, que consideraria uma traição ao espírito do biografado. "É impossível entender Silviano sem levar em conta sua fina ironia", resume Barile, que credita boa parte dessa chave de leitura à velha amizade do biografado com o produtor musical Ezequiel Neves. O resultado é descrito por Wander Melo Miranda, professor emérito da UFMG, na apresentação do livro, como "a conversa como interação ao vivo, da qual o leitor passa a participar entusiasmado".
A pesquisa rendeu descobertas que Barile chama de "presentes do acaso": a boneca de projeto gráfico que Hélio Oiticica fez, nos anos 1970, para um livro de poemas de Silviano completado aos 35 anos – dado como perdido por décadas e batizado de "XXXV" – e um conjunto de cartas do produtor musical Ezequiel Neves, amigo de juventude de Silviano em Belo Horizonte, trocadas entre o início dos anos 1960 e os anos 1970. Somam-se a elas a correspondência com nomes como Haroldo de Campos, Abdias do Nascimento e Florestan Fernandes, guardada por décadas em seis caixas nunca organizadas por Silviano, que teve nelas sua "vida de nômade" registrada em documentos, contratos e bilhetes.
“Mesmo sendo seu amigo há algum tempo, quando comecei a ler os seus papéis, confesso que fiquei surpreso com a quantidade de gente que ele conheceu e conviveu, que eu nem imaginava. Sabia, por exemplo, de sua grande amizade com o Hélio Oiticica e o Benedito Nunes. Mas nem desconfiava que tinha sido tão amigo do Abdias do Nascimento ou do Florestan Fernandes”, afirmou Barile ao Pensar, em novembro do ano passado.
Nascido em Formiga, com passagem pela Belo Horizonte dos anos 1950 — quando integrou o Centro de Estudos Cinematográficos e fundou, com amigos, a revista "Complemento" —, Silviano deixou Minas ainda jovem, mas manteve o estado como matriz de sua obra. Em depoimento ao Pensar por ocasião do lançamento, o próprio autor definiu sua escrita como mineira por formação, mesmo sem esforço deliberado de retratar o estado, remetendo à infância em Formiga e aos anos de juventude na capital mineira. Livros como "Heranças" e "Mil rosas roubadas" carregam essa marca de forma mais explícita, mas ela reaparece, segundo Barile, mesmo em textos como "Uma história de família" (1992), sobre a Aids).
Ao Pensar, Barile já havia justificado a escolha pelo formato de ensaio biográfico, e não de biografia tradicional, lembrando que Silviano é leitor contumaz de Machado de Assis — o que tornaria inevitável uma obsessão compartilhada com a forma e com a figura do narrador. Para o biógrafo, a chave para entender o retratado passa por sua ironia fina, herdada em parte da amizade antiga com Ezequiel Neves, e pela reunião pouco comum, na literatura brasileira, entre ensaísmo e ficção — combinação que Barile compara à de autores como Umberto Eco, Italo Calvino e Ricardo Piglia.
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Aos 89 anos, morando sozinho em Copacabana, Silviano segue escrevendo todas as manhãs e, segundo relatou em entrevista ao Pensar, dedica boa parte do tempo atual a um projeto em cadernos sobre a leitura da obra de Machado de Assis à luz do Brasil escravagista — dando sequência a "O grande relógio", primeiro volume da série, premiado pela Biblioteca Nacional. A indicação de "Presente do acaso" ao Jabuti chega, assim, como reconhecimento não apenas do livro de Barile, mas de um momento de intensa atividade do próprio biografado, que resume assim sua rotina atual: "Escrever me dá enorme prazer. E vou escrever até quando for possível".