LITERATURA

Maria Reva e o livro que a guerra descarrilou

No romance 'Extinção', a autora ucraniana recorre à metaficção para refletir sobre os limites da escrita quando a realidade impõe o horror da guerra

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É possível para um livro sair do trilho? Se houver uma guerra no caminho, sim. Essa é a conclusão apresentada por “Extinção” (DBA Editora), da escritora ucraniana Maria Reva, uma das atrações da última edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A autora, nascida no país europeu mas radicada no Canadá desde os 7 anos de idade, trabalhava desde 2018 em um livro sobre uma das questões mais abjetas do seu país natal: as excursões de homens ocidentais atrás de esposas, em encontros organizados por agências de casamento. 

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Ao longo das primeiras 155 páginas e com boas pitadas de humor negro, o livro acompanha o drama de Yeva, uma cientista que percorre a Ucrânia em uma van adaptada em laboratório atrás de caracóis que correm risco de extinção. Para se bancar, decide entrar em uma das agências de casamento, onde conhece as irmãs Nastia e Sol, filhas de uma ativista radical desaparecida, integrante de um grupo obviamente inspirado no Femen. Juntas, elas bolam um plano e sequestram 13 homens que estão atrás de esposas, em um gesto político extremo com o objetivo de chamar atenção para o absurdo do turismo sexual no país.

O plano está montado, o enredo pronto para deslanchar. E então, no dia 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invade a Ucrânia. O início do conflito faz a história terminar abruptamente – ou, como definiu Maria Reva na mesa que protagonizou no último dia 23 na Flip, o livro “descarrilou”. “Comecei a escrever esse livro em 2018. Eu estava escrevendo uma narrativa bastante convencional, uma espécie de comédia sobre sequestro: as excursões românticas, os caracóis, as ativistas que queriam acabar com o sistema sequestrando os solteirões ocidentais. E então, no momento em que a Rússia lançou sua invasão em larga escala, meus parentes ligavam da Ucrânia dizendo que ouviam explosões, e a vida deles ficou completamente fora dos trilhos. Minha vida em Vancouver também mudou completamente, porque naquele momento escrever ficção parecia irrelevante”,  detalhou, na mesa que dividiu na Flip com o também ucraniano Andrei Kurkov. Surgiu, então, a pergunta central de “Extinção”: “Como continuar escrevendo um livro de ficção sabendo que o local sobre o qual eu escrevia estava sendo destruído em tempo real?”. 

A solução que a autora encontrou não foi resolver o impasse fora da página, mas metabolizá-lo dentro dela. Com o início da guerra, o romance se interrompe. Entra na história uma personagem chamada Maria Reva – escritora em crise, morando com os pais em Vancouver. Ela assume a narrativa, com um relato em primeira pessoa sobre as primeiras imagens da guerra, atormentada pelo livro que deve entregar e pela guerra que devasta o país sobre o qual ele fala.  Depois revela uma troca de emails com um editor, resume rapidamente o final feliz dos personagens, acompanhados de agradecimentos, biografia da autora e até os detalhes da tipologia do livro.

Mas o livro não termina de fato. O horror do confronto se impõe sobre a história, que é retomada, agora como metaficção. E passa a haver duas guerras correndo em paralelo: enquanto a autora-personagem encara, de Vancouver, as imagens da devastação e a pergunta sobre o que fazer com o livro que tem nas mãos, Yeva, Nastia e Sol precisam lidar, dentro da ficção, com bombas caindo, drones, patrulhas e mortes causadas pela crueldade do acaso, como em toda guerra. Autora e personagens atravessam o mesmo horror, cada uma na sua realidade. 

Boa parte da crítica internacional leu a extinção dos caracóis colecionados por Yeva como uma metáfora estrutural da guerra: espécies que somem em silêncio enquanto o mundo olha para outro lado. Reva, no entanto, se recusa a confirmá-la. “Não parti da intenção de construir uma metáfora da guerra por meio da extinção dos caracóis”, diz, em entrevista exclusiva ao Estado de Minas. Quando começou a escrever, em 2018, a guerra híbrida em Donbas já estava em curso, mas uma invasão em larga escala era, segundo ela, algo distante de sua cabeça. O interesse era outro: “Eu simplesmente queria escrever sobre uma fauna pouco carismática, do tipo que não aparece bonito em panfletos vistosos de arrecadação de fundos, como pandas e orcas aparecem. E eu queria estudar as pessoas que acham que essas pequenas criaturas impopulares ainda valem a pena defender.”

A recusa não é apenas defensiva. Ela exemplifica o modo como o próprio romance evita fechar sentidos. Reva escreve de Vancouver, com um pé na rotina canadense e outro nas ligações que chegam de Kherson, uma das principais cidades da linha de frente da guerra, onde seu avô decidiu permanecer sob ocupação. Incapaz de resgatá-lo na vida real, a autora começou a ensaiar mentalmente o resgate, com diálogos e detalhes cada vez mais precisos, até perceber que estava fazendo ficção da própria realidade. Foi assim que a cena entrou no romance, com as personagens tomando a van-laboratório rumo à cidade ocupada. Mas o gesto mais duro do livro é justamente não usar a ficção como consolo: na página, como na vida, o avô se recusa a sair de casa.

O humor negro que atravessa as primeiras 155 páginas também não sobrevive intacto ao descarrilamento e vira, ele próprio, assunto. Reva transcreve no romance a correspondência real com um editor que recusou um ensaio seu sobre o humor de guerra ucraniano, alegando ser “cedo demais” e que o tom não estaria adequado à sensibilidade dos leitores; o mesmo veículo pedia, em troca, o relato de uma expatriada observando o horror, com “ênfase gentil no horror”. A correspondência, educada e cada vez mais afiada a cada resposta, termina sem acordo: o editor propõe retomar o assunto “daqui a um mês, quando as coisas se acalmarem um pouco”.

“Extinção” não resolve, porém, a pergunta que o move: como narrar o horror estando longe dele? O romance avança, se interrompe, recomeça, mas não apresenta nenhuma resposta de como agir diante do impensável. Emerge, por fim, um livro sobre a impossibilidade de terminar uma história do jeito como ela fora planejada, e que deixa essa impossibilidade visível na página. 

Entrevista - Maria Reva 

“Extinção” se interrompe, recomeça, questiona a própria possibilidade de continuar sendo contado. Em que momento da escrita você percebeu que o romance precisava se romper para dizer a verdade sobre o que estava tentando narrar?

Praticamente tudo o que se vê na página, em termos estruturais, é como o livro realmente se formou. Eu estava escrevendo uma linha narrativa, e então a guerra começou, e eu não sabia como continuar; a vida descarrilou, e o livro também. Em outras palavras, o descarrilamento metaficcional no meio da trama era, mais ou menos, o ponto exato em que eu estava no processo de escrita quando a invasão aconteceu.

Para dar mais detalhes: comecei a escrever um livro ambientado na Ucrânia contemporânea em 2018. Como a maioria das pessoas, eu não previa uma invasão russa em larga escala. Na trama, eu já tinha chegado ao ponto em que as "noivas" estão planejando sequestrar os solteiros ocidentais. Quando a invasão em larga escala de fato aconteceu, não consegui continuar escrevendo o livro. As perguntas com as quais eu lutava: quem tem o direito de contar uma história de guerra; não seria errado escrever dentro do clichê da "noiva por correspondência" (uma imagem estereotipada das mulheres eslavas, particularmente nos anos 1990 e 2000)? Eu também não sabia se conseguiria manter o tom satírico e de humor sombrio com o qual vinha trabalhando. Essas eram as perguntas que pareciam mais vivas para mim, então eu quis deixar o leitor entrar nessa investigação junto comigo, por meio da metaficção.

Você aparece como personagem de si mesma dentro do livro. Isso é um gesto de honestidade, ou uma forma de se proteger, ao colocar entre aspas a própria voz que narra o horror?

Vejo isso como um gesto de honestidade. Eu quis deixar o leitor entrar comigo nos dilemas éticos — escrever sobre a guerra, transformar dor em arte.

O que a metaficção permite dizer sobre a guerra que o realismo convencional não permite?

A metaficção me permitiu interrogar o artifício de escrever ficção em um momento como esse. Ainda acredito em escrever ficção, não me entenda mal, mas, nas primeiras semanas e meses da invasão em larga escala, achei impossível continuar escrevendo meu romance normalmente, como se nada estivesse acontecendo, enquanto o cenário do livro estava sendo destruído em tempo real e meus parentes estavam fugindo de suas casas.

Há um risco em transformar a própria angústia de escrever sobre a guerra em matéria narrativa: o livro pode acabar falando mais sobre a dificuldade de escrever do que sobre a guerra em si. Como você negociou esse risco?

O romance lida com tantas questões ao mesmo tempo — extinção, amor romântico versus não romântico, a guerra — que, na prática, não me preocupei que a pergunta de como escrever sobre a guerra fosse ofuscar as outras. Concentrei-me no desafio que tinha diante de mim.

As trocas de e-mail com editores que pedem um tom "mais adequado à gravidade da situação" expõem uma espécie de curadoria do sofrimento aceitável. O que isso revela sobre como o Ocidente consome e digere a dor alheia?

O Ocidente consome, ou, como você diz, "digere" a dor alheia de acordo com sua própria sensibilidade. Provavelmente toda cultura, toda região faz isso. O humor sombrio ainda não pegou aqui com a mesma profundidade que na Europa Oriental — mas está chegando lá. Eu gostaria de ter anotado algumas das piadas que ouvi de canadenses diante da postura imperialista de Trump. Não que os canadenses não tenham levado a ameaça a sério — só precisávamos rir dela também.

A mesma imprensa que rejeitou seu ensaio sobre humor ucraniano passa a cortejá-la assim que bombas caem sobre Kiev. Isso mudou sua relação com a própria noção de "voz autorizada" a falar sobre uma tragédia?

Existe uma tentação de elevar certos indivíduos à condição de voz "autorizada" de um país, mas nenhum escritor, político etc., isoladamente, pode ocupar esse lugar. Nem mesmo o presidente. Somos uma coleção de vozes.

O contrato editorial que exige um romance, e não outra coletânea de contos, funciona quase como uma metáfora do mercado determinando a forma que a dor deve assumir. Como resistir a essa determinação sem perder o livro?

Eu tinha dois romances fracassados na gaveta: “Extinção” (quando desisti dele na metade, quando a invasão em larga escala começou) e um outro romance que escrevi para fugir de escrever “Extinção”. Eu sabia que não queria escrever outra coletânea de contos — queria tentar algo novo —, mas escrever um romance convencional também não estava funcionando. Eu não tinha nada a perder, então experimentei com formas híbridas. O que o mercado queria estava longe da minha cabeça naquele momento. Eu já duvidava que o mercado quisesse um livro sobre caracóis ameaçados de extinção. Acontece que eu estava errada, o que só prova que é realmente inútil tentar prever o mercado.

Yeva estuda caracóis em extinção enquanto tudo ao redor dela também está desaparecendo — pessoas, cidades, um modo de vida. Por que a extinção de uma espécie pequena, quase invisível, era a metáfora certa para a extinção em massa da guerra?

Não parti da intenção de construir uma metáfora da guerra por meio da extinção dos caracóis. Quando comecei a escrever o livro, em 2018, a guerra híbrida em Donbas já estava em curso, claro, mas a ideia de uma invasão em larga escala estava longe da minha cabeça. O fio da extinção dos caracóis não era metafórico — eu simplesmente, e de verdade, queria escrever sobre uma fauna pouco carismática, do tipo que não aparece bonito em panfletos vistosos de arrecadação de fundos, como pandas e orcas aparecem. E eu queria estudar as pessoas que acham que essas pequenas criaturas impopulares ainda valem a pena defender. 

Você se pergunta, no livro: como narrar o horror estando longe dele? Chegou a alguma resposta?

Essa é a pergunta que está no centro do livro, e eu convido o leitor a fazer essa pergunta junto comigo e encontrar sua própria resposta.

Extinção

De Maria Reva

Tradução de Gisele Eberspächer

DBA Editora 

426 páginas 

R$ 104,90

Trecho

Caracóis! Houve uma época em que ela falaria para qualquer um disposto a ouvir que essas criaturas são maravilhosas. 

Que as muitas espécies de gastrópodes evoluíram para viver em qualquer lugar do planeta, de desertos a fossas oceânicas. 

Que têm brânquias para viver na água, ou pulmões para viver no solo — algumas, como os Ampullariidae, têm os dois, para resistir a monções e secas. 

Que algumas espécies conseguem sobreviver a temperaturas extremas, inadequadas para vida humana, com suas conchas de alta reflexão e as propriedades isolantes de seus espirais. 

Que podem criar uma vedação mucosa entre a abertura da concha e a pedra para minimizar a evaporação de água e, assim, ficar dormentes por anos antes de serem acordadas pela chuva. 

Que um caracol pode ter tanto órgãos masculinos quanto femininos e se reproduzir sem outros caracóis. 

Que o búzio-trombeta pode alcançar quase meio metro de comprimento, enquanto o Punctidae consegue passar pelo buraco de uma agulha. 

Que representavam, para os mesoamericanos, alegria e renascimento, o formato de suas conchas o ciclo da vida. 

Que alguns conseguem rastejar de cabeça para baixo pela superfície da água, agarrando-se às ondulações do seu próprio muco, ou fazer jangadas com bolhas. 

Que alguns se assemelham a cavaleiros medievais — conchas reforçadas com ferro, a carne macia blindada com placas de metal espessas — ao se aproximarem de fontes hidrotermais tóxicas. 

Mas o que isso importava agora? 

E daí se a cada hora outro caracol nativo do Havaí perecia nas mandíbulas do caracol-lobo-rosado invasor? 

E daí se o minúsculo Myxas glutinosa, outrora um dos caracóis mais comuns na Europa, tivesse sido praticamente exterminado? 

E daí se a cada cinquenta e três horas um dos grupos animais mais diversos do planeta perdesse mais uma de suas espécies? 

Os caracóis não eram peludinhos nem fofinhos. Não interagiam com os seres humanos. 

Os caracóis não eram pandas — aqueles bebês desajeitados e gigantescos que absorviam orçamentos nacionais de conservação — nem qualquer outro animal da megafauna carismática, como orcas ou gorilas. Os caracóis não eram coalas que todos querem abraçar de tão fofos, mas que na realidade são violentos e cheios de clamídia. Também não eram lontras, que pareciam bichinhos de pelúcia feitos para serem mascotes de aquários, apesar de atraírem cachorros nas praias para afogá-los e estuprá-los. 

Um estalo sob a bota. Uma coisinha para tirar de uma folha de alface. Não muito melhores do que lesmas. O nome do gênero gastrópode é lamentavelmente pouco inspirador: pé-estômago. Burros e lentos. Os que viviam na floresta e que Yeva tentava salvar nem sequer eram coloridos. 

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Os caracóis eram apenas isso — caracóis.

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