Para Bi Ribeiro, baixista dos Paralamas do Sucesso, festivais de música têm a capacidade não só de reunir artistas amigos que se encontram raramente, como formar novos públicos. “Também tornam mais fácil colocar num palco grande bandas que normalmente não conseguiriam fazer um megashow”, afirma. “De repente, o cara chega ali meio como zebra e começa a aparecer nacionalmente”, acrescenta.


Bi fala com propriedade. Em 1985, os Paralamas foram essa “zebra” no Rock in Rio. “Fomos a última banda a entrar [no line-up do festival]. Éramos conhecidos só no eixo Rio-São Paulo. O show projetou os Paralamas. E o curioso é que não fizemos nada demais, apenas o que a gente já fazia.”


Por causa dessa experiência, ele diz gostar de tocar em festivais até hoje. É isso que fará neste sábado (25/7), em Belo Horizonte. Os Paralamas do Sucesso são a atração principal desta edição do Prime Rock Brasil, realizada na Esplanada do Mineirão. Também se apresentam Jota Quest, Blitz, Samuel Rosa, Dado Villa-Lobos com André Frateschi, e Nando Reis. No camarote secreto, shows de Leo Jaime e Supla.


Divisor de águas

O Brasil tem uma história importante de festivais de música, desde a década de 1960, com o Festival da Record e o Festival Internacional da Canção, por exemplo. Mas é o Rock in Rio de 1985 o evento frequentemente apontado como divisor de águas no show business nacional, elevando o padrão de som e luz.


Até ali, não havia muita preocupação nessas direções. Os próprios Paralamas tiveram que improvisar um cenário no primeiro Rock in Rio. “Estávamos preocupados só em tocar. Chegando lá, falamos: ‘Porra, o palco é gigante e está vazio! Vamos botar alguma coisa do camarim’. O que achamos foram vasos de planta. Colocamos um de cada lado da bateria”, lembra Bi. “O Caetano [Veloso] pensou que tínhamos planejado. Foi lá dizer pra gente que achou aquilo genial”, conta, aos risos.


Hoje, não há mais improviso. As apresentações são todas cronometradas e muito bem planejadas. Justamente por isso, as bandas não tocam a íntegra do repertório de suas respectivas turnês. As duas horas que os Paralamas costumam dedicar às apresentações de “Clássicos” tiveram de ser enxugadas pela metade para a apresentação no Prime Rock Brasil, de forma que a maior parte do setlist se limita aos hits do grupo.


“Tem que ir pelo comum, não tem jeito”, resigna-se Bi. “Mas a gente não acha ruim. Claro que já tivemos aquela fase de não querer tocar alguma música de tanto que a repetíamos. Chegamos a dizer que não tocaríamos ‘Óculos’. Mas não funcionou. As pessoas querem ouvir os clássicos. O cara quer ver a gente tocando ‘Alagados’, ‘Meu erro’ e ‘Óculos’.”


Blitz

Quem também precisou diminuir o repertório sem abrir mão dos hits foi a Blitz. Desde que voltou com o grupo, em 1994, após hiato de oito anos, Evandro Mesquita não apresentou um show sequer sem tocar “Você não soube me amar” e “A dois passos do paraíso”. Assim, contam-se 43 anos em que a “Mariposa apaixonada de Guadalupe” chora pelo caminhoneiro Arlindo Orlando, de Miracema do Norte.


No entanto, Evandro mescla músicas de artistas que o influenciaram ao lado dos títulos consagrados. São versões de “Sentado à beira do Caminho”, de Roberto e Erasmo Carlos; “Pingos de amor”, de Paulo Diniz; e “Sujeito de sorte”, de Belchior. Tudo com arranjo típico da banda carioca.


“A Blitz saiu do underground e conseguiu furar a bolha que havia naquela época”, lembra Evandro. “Enfiou o pé na porta de gravadoras, rádios e televisão, com uma poesia mais contemporânea e um som mais poluído de informações daqui e de lá de fora”, observa.


“Depois do sucesso de ‘Você não soube me amar’ outras bandas de garagem puderam ter acesso a gravadoras, mostrar seus trabalhos e sair da garagem”, pontua.


Assim como grande parte das atrações do Prime Rock, a banda carioca viveu sob o regime militar. “Mesmo sendo [a época do] fim da ditadura, foi um período horroroso. A censura ainda era comum e, para contorná-la, a gente falava nas entrelinhas. Tinha todo um ‘código’ para nos comunicar com as pessoas que pensavam como a gente”, ressalta Evandro.


Para quem vive há décadas na estrada, tocando quase sempre as mesmas músicas, um dos maiores riscos é virar cover de si mesmo. Foi isso, aliás, que Samuel Rosa disse ter contribuído para o fim do Skank, em 2023.


“A gente não sente como se estivesse se repetindo”, afirma Bi. “Estamos sempre com a mesma vontade de entrar e meter gol, como se fosse um jogo de futebol mesmo. Até porque a gente não sabe o que vai acontecer em cada show. Cada plateia é única”.

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PRIME ROCK BRASIL 2026
Shows de Paralamas do Sucesso, Jota Quest, Blitz, Samuel Rosa, Dado Villa-Lobos com André Frateschi, e Nando Reis. No camarote secreto, shows de Leo Jaime e Supla, neste sábado (25/7), na Esplanada do Mineirão (Av. Antônio Abrahão Caram, 1.001, São Luís). Ingressos à venda por R$ 460 (pista / inteira), R$ 770 (camarote / inteira) e R$ 1.580 (lounge prime / inteira), no site BlueTicket. Os valores estão sujeitos a taxa da plataforma. Meia-entrada na forma da lei e meia-social mediante doação de 1 kg de alimento não perecível.

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