LUTO NO TEATRO

Ator e diretor de teatro Raimundo Farinelli morre, aos 88 anos

Artista estava internado com pneumonia no Hospital Metropolitano Doutor Célio de Castro. Veterano dos palcos, integrou elenco de peça que inaugurou o Marília

Publicidade
Carregando...

O ator, diretor e professor de teatro Raimundo Farinelli tinha para si uma verdade: “Para fazer teatro. Tem que ter disciplina e amor. Amor para com arte dramática e para com os palcos”. Foi essa a lição que o dramaturgo natural de São Roque de Minas, morto na manhã desta segunda-feira (15/6), aos 88 anos, deixou para os alunos e colegas de profissão.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Farinelli estava internado no Hospital Metropolitano Doutor Célio de Castro, na Região do Barreiro, desde o início da semana passada em decorrência de pneumonia. Ao longo dos últimos dias, o quadro de saúde piorou e ele precisou ser intubado.

“Viveu 88 anos para o teatro”, diz o primo de Farinelli, o também ator Luiz Henrique Moura. “A família sabia que ele sempre escolheria o teatro em todas as ocasiões. Viveu do teatro, para o teatro”, lembra.

Raimundo Farinelli nasceu em 31 de outubro de 1937. Mudou-se para Belo Horizonte ainda criança. No início da década de 1960, ingressou no Teatro Universitário (TU) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde foi aluno de Haydée Bittencourt (1920–2014), uma das principais responsáveis pela consolidação das artes cênicas do Brasil.

“Com ela ele aprendeu a ser rigoroso na profissão”, comenta o diretor Pedro Paulo Cava. “Era muito rígida, mas uma diretora muito capaz e muito técnica também – mais técnica do que criativa até. E trazia os alunos na ponta do lápis, não estava para brincadeiras”, acrescenta.

Formado em uma das primeiras turmas do TU, Farinelli integrou uma geração decisiva para a consolidação do teatro moderno mineiro, ao lado de nomes como Eid Ribeiro, Pedro Paulo Cava, Ronaldo Boschi e Dilson Mayrom.

Teatro Marília

A trajetória artística de Farinelli começou cedo. Em 1964, integrou o elenco de “Vestido de noiva”, espetáculo que marcou a inauguração do Teatro Marília. Ainda no TU, destacou-se em montagens como “O noviço”, na qual recebeu prêmio pela atuação como padre-mestre.

Em 1966, conheceu Pedro Paulo Cava durante a montagem da peça “O soldado e o sacristão”, de Martins Pena, no antigo Teatro da Imprensa Oficial. A parceria entre os dois, no entanto, só foi selada em 1973, quando Pedro Paulo dirigiu Farinelli no espetáculo de mímica “Os gestos começam onde terminam as palavras”. A partir daí, começaram a trabalhar juntos em espetáculos infantis.

Elenco de 'O soldado e o sacristão' (1966), de Martins Penna, em frente ao Teatro Municipal do Ouro Preto
Elenco de 'O soldado e o sacristão' (1966), de Martins Penna, em frente ao Teatro Municipal do Ouro Preto. Na foto: Joaquim Costa, Raimundo Farinelli, Joel Esteves, margarida souza, Pedro Paulo Cava, Ilecy Lobato, Normanda Mendonça, Ronaldo Boschi e Ricardo Fenatti Pedro Paulo Cava/Arquivo Pessoal

Entre as décadas de 1960 e 1970, Farinelli foi morar nos Estados Unidos. Lá, desenvolveu mímica em curso ministrado pelo francês Marcel Marceau (1923-2007), o mímico mais popular do período pós-guerra. Voltando ao Brasil, incluiu a modalidade em aulas e cursos de teatro que ministrava por conta própria.

Professor exigente, formou atores que mais tarde se tornariam conhecidos na cena local. Entre eles, Fernando Bustamante. "Farinelli foi um mestre na formação de diversas gerações de artistas. Muitos de seus alunos se tornaram artistas consagrados. Embora não estivesse sempre nos holofotes, sua maior contribuição foi a dedicação em ensinar a liturgia do teatro — seus ritos, sua disciplina, sua ética e seu encantamento. Dotado de uma enorme intuição e de uma rara capacidade de descobrir novos talentos, Farinelli sabia despertar e manter vivo o interesse de jovens iniciantes pela arte", comenta Bustamante.

“Quando você começava a conhecer a classe artística em Belo Horizonte, todo mundo passou por ele”, diz Luiz Henrique Moura, primo do artista.

“Ele era um mestre de ensinar”, complementa Pedro Paulo. “Me ensinou muita coisa”, lembra.

Campanha de Popularização 

Farinelli também participou de movimentos da classe artística, acompanhou a consolidação da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança e transitou por diferentes grupos, companhias e espaços culturais. Fundou o Teatro Maurício Murgel, na Escola Estadual Maurício Murgel, no Bairro Nova Suíça, em Belo Horizonte. Depois de perder o espaço, transformou os fundos da própria casa em teatro de bolso.

Fora dos holofotes, trabalhou como cenógrafo. Na montagem que Dilson Mayron fez de “O Fantasma da Ópera”, nos anos 2000, foi ideia de Farinelli encher o palco do Palácio das Artes de candelabros e inserir um barco que se movia em cima de um trilho escondido pela fumaça de gelo seco.

“Ele também foi convidado para montar o cenário de todas as edições do Prêmio Sinparc de Artes Cênicas”, conta Dilson, referindo-se à premiação que ocorreu entre 2015 e 2018, também no Palácio das Artes.

Raimundo Farinelli em cena no espetaculo 'Os gestos terminam onde começam as palavras' (2011)
Raimundo Farinelli em cena no espetaculo 'Os gestos terminam onde começam as palavras' (2011) Guto Muniz/Divulgação

Último pedido

Solteiro e sem filhos, Farinelli morou durante décadas com a irmã, Mathilde, uma de suas principais parceiras no cotidiano e nos projetos artísticos.

Mesmo nos últimos dias, o teatro permanecia no centro das atenções. Antes de ser internado, Farinelli acompanhava os ensaios de uma nova montagem da Cia. Palco, uma adaptação de “The woman in black”, clássico britânico de terror psicológico. Parte do cenário da peça havia sido construída por ele.

Pouco antes de ser entubado, Farinelli fez um último pedido, de acordo com o primo Luiz Henrique: “Ele falou: ‘Não deixa de ensaiar, porque a peça vai ficar muito boa’”.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O velório será realizado nesta terça-feira (16/6), das 8h30 às 11h30, na Sala 5 do Parque da Colina.

Tópicos relacionados:

ator bh morre teatro

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay