LÍNGUA PÁTRIA

Instituto do Mundo Lusófono defende a expansão da língua portuguesa

Oscar Castro Ferreira, diretor de entidade voltada para a lusofonia, defende a transformação do português em linguagem dos negócios

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 O poeta parnasiano Olavo Bilac escreveu sobre a língua portuguesa: “Última flor do lácio, inculta e bela (…) Amo-te assim, desconhecida e obscura”.

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É sobre este idioma fascinante, ao mesmo tempo lírico e concreto, preciso e ambíguo, que o Instituto do Mundo Lusófono se debruça para fortalecer os laços culturais, acadêmicos, econômicos e institucionais entre países e comunidades lusófonas.

Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola, Timor-Leste, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau e Guiné-Equatorial adotam o português.

Há também comunidades na Índia (Goa e Damão), China (Macau), Malásia (Malaca) e Senegal (Ziguinchor) que falam o idioma.

“É a quinta língua mais falada do mundo”, afirma o diretor do Instituto do Mundo Lusófono em Portugal, Oscar Castro Ferreira. Ele é o convidado do podcast “Estado de Minas entrevista”, disponível no canal do Portal Uai no YouTube e no Spotify.

“Uma das nossas batalhas é justamente pegar a riqueza da nossa língua e transformá-la numa língua de negócios. Porque, se você quiser fazer um acordo entre empresas de diferentes nacionalidades, vai ter de escrever em inglês ou francês”, diz. Nesta entrevista, Ferreira explica a importância da lusofonia e o
trabalho do instituto.

Quando se fala de mundo lusófono, o que isso quer dizer?

O mundo lusófono é um mundo que fala português. São os nove países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) mais as suas diásporas.

Qual é o propósito do Instituto do Mundo Lusófono?

O Instituto do Mundo Lusófono nasceu em Paris, em 2015, por iniciativa da professora da Universidade de Sorbonne, Isabelle de Oliveira. Foi criado com o patrocínio da Unesco, da presidência da República Francesa e com o apoio de muitos portugueses e brasileiros.

Quantas pessoas falam a língua portuguesa?

Só no Brasil, são 250 milhões. Em Portugal, 10 milhões. Por aí, já tem uma conta. É a quinta língua mais falada do mundo. Uma das nossas batalhas é justamente pegar a riqueza da nossa língua e transformá-la numa língua de negócios. Porque, se você quiser fazer um acordo entre empresas de diferentes nacionalidades, vai ter de escrever em inglês ou francês. Um empresário brasileiro e um empresário angolano podem negociar em português, mas, para ter reconhecimento, o documento tem de ser escrito em inglês ou francês. Estamos lutando para que o português seja incluído como linguagem de negócios.

Quais são as atividades do instituto?

Muitas vezes, nós somos confundidos com o papel da CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A CPLP é um órgão político feito por políticos, com agenda política. Nós trabalhamos majoritariamente com a iniciativa privada, com o cidadão, com as empresas e com a economia, mas estamos de braço dado com a CPLP. Nosso enfoque é promover e dinamizar a língua e a cultura portuguesa. Explicar a riqueza da nossa língua, os perigos que ela corre. Tentamos proporcionar que os players econômicos juntem a lusofonia com a francofonia. Se juntar os países da CPLP com a França e a África francófona, teremos um potencial de negócio incalculável. Portanto, uma das funções do instituto é juntar essas sinergias entre empresários das várias geografias onde nós operamos.

O que o instituto tem feito para transformar o português em língua de negócios?

Todos os anos realizamos um fórum internacional econômico. Posso falar que estamos tentando fazer o próximo aqui em Minas Gerais. Não vou revelar onde será, mas estamos negociando. A ideia é trazer empresários de todo o mundo da lusofonia e da francofonia, e políticos também. Afinal, é uma questão que tem de vir à política. O que nós fazemos é tentar influenciar a política, pressionar os órgãos da soberania para que o português seja incluído como língua de negócios. A CPLP já teve esse projeto. Penso que agora estão mais focados nas questões de regularização da imigração. Houve, inclusive, um sonho do passaporte para todos os países da CPLP, que promovia a livre circulação. Mas voltando à língua portuguesa para os negócios, a gente faz de tudo para conseguir isso. O fórum econômico serve para explicar para empresários e políticos a importância da língua portuguesa figurar na lista das línguas de negócios, porque a balança comercial disso será enorme. É muito mais fácil escrever um acordo internacional entre países diferentes de língua portuguesa em português, sem ser em inglês ou em francês.

Isso terá de passar pela ONU ou algum outro órgão dessa natureza?

Sim, tem a ONU e a Unesco como instituições. Mas os países têm de reconhecer que a língua portuguesa pode ser escrita num acordo internacional também.

Em Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Angola e Moçambique, há graves problemas políticos que implicaram em revoltas e golpes de Estado recentemente. Isso afeta o trabalho do instituto?

Não. Não temos nenhuma relação com a política. Nós nos damos com a política, não pertencendo a ela. O trabalho do instituto não é afetado, porque esse é um problema dos políticos. Se ficar tudo bem, mantemos nossas boas relações, ensinamos a língua portuguesa, dinamizamos.

Mas o Instituto do Mundo Lusófono depende de empresas privadas, não é? E a insegurança política interfere no setor privado...

É (essas questões políticas), atrasam um pouco o nosso trabalho, sim…

Questões relacionadas à imigração passam pelo instituto?

O instituto ajuda pessoas do mundo lusófono que queiram viver em algum dos países que falam português. Através dos contatos em cada país, ajudamos a pessoa a ir viver em cada local e se adaptar.

O senhor disse que a língua portuguesa corre perigos. Quais são eles?

Tem quatro vetores. O primeiro, que acho o mais grave, é a instrução. Você aprendeu a falar português onde? Na escola. A mamãe e o papai ajudam, mas você aprendeu gramática, sintaxe e escrita na escola. Há professores que não ensinam gramática da melhor forma. Temos professores que ensinam erros de fala e erros de escrita. Professores da língua portuguesa têm de ter formação muito específica, e aí deve ser um português mais universal, não pode ser tão geográfico.

Quais seriam os erros que o professor ensina?

Erros de gramática, de escrita e também a falta de sintaxe.

Quais são os outros três vetores?

O segundo é o acordo ortográfico. Ele foi pensado mais para agradar aos brasileiros do que ao resto da lusofonia. Os portugueses não gostam. Os brasileiros adoram e os africanos não estão nem aí. Acho um perigo para a língua portuguesa, porque não une, mas quebra as diferenças. O terceiro ponto é a chamada linguagem inclusiva. Não tenho preconceito, mas a realidade é que há pronomes que nunca existiram e não vão existir na língua portuguesa. Ela não é inclusiva, é divisiva, porque, para agradar a 1 milhão de pessoas, você vai irritar 10 milhões. Esta linguagem inclusiva se torna exclusiva porque engloba 1 milhão e exclui 10 milhões. Respeitar sempre. Incluir na gramática, não. O último perigo são as redes sociais. As pessoas falam do jeito que escrevem. “Tô” em vez do estou. A oralidade passa à escrita e a pessoa vai se viciando nisso.

A língua é um organismo vivo, que vai mudando de acordo com o tempo e a cultura do lugar. Como unificar a língua portuguesa?

Não tem de unificar nada. Nossa riqueza é a nossa diferença. Os brasileiros introduziram na gramática portuguesa expressões que nós não tínhamos. Então, não quero que unifiquem nada. Continuem inventando palavras que possam ser adicionadas (ao vocabulário). A gente vai somando, crescendo, porque a língua portuguesa é evolutiva.

Existem palavras no português do Brasil que têm outro significado em Portugal, não é?

Açougue, por exemplo. Se você falar em Lisboa que vai ao açougue, ninguém sabe o que é. Lá é talho. O cara que trabalha no açougue é talhante. Ainda tem expressões aqui no Brasil que são as originais do português antigo, e vocês continuam usando. Por outro lado, uma coisa muito engraçada são palavras que vocês falam aqui, mas em Portugal têm significado completamente diferente. Moça, para nós, é rapariga. Durex, em Portugal, é camisinha. O que para vocês é durex, para nós é fita cola. Esta é a riqueza da língua portuguesa.

O que, além da língua, o brasileiro tem em comum com o cidadão angolano, português, guineense-bissauense e equato-guineense?

Temos a matriz cultural comum. Podia dizer que, no início, a expansão marítima portuguesa não só levou a cultura e a língua portuguesa a mundos novos – eu digo mundos novos, porque nem existiam como países no mapa. Levou também a fé. Nesse sentido, o cristianismo foi na bagagem da expansão marítima de Portugal. Temos a matriz cultural e linguística que nos une.

Quando se fala em língua portuguesa e expansão marítima, falamos de herança colonial. No contexto do mundo lusófono, quais os cuidados de Portugal para não impor a própria visão aos outros países?

Hoje em dia, Portugal já não impõe nada. Vocês impõem mais do que nós neste momento, porque são 250 milhões, nós somos 10 milhões. Portanto, quanto à imposição, vocês estão numa posição superior (risos). Agora, há uma percentagem de brasileiros que, por vezes, tem má informação sobre o que foi o período dos descobrimentos. Aqui no Brasil, pessoas dizem: “Ah, os portugueses acham que são donos do Brasil, levaram ouro e não sei quê”. Olha, a República Federativa do Brasil nasceu há muito pouco tempo. O Império brasileiro existiu depois do Grito do Ipiranga. Antes disso, era reino de Portugal, era Província Ultramarina Brasileira do Reino de Portugal. O Brasil nunca existiu. Eram tribos indígenas vivendo nos seus locais com a sua língua, cultura e até uma religião mais animista. Hoje, o Brasil continua respeitando esses indígenas da mesma forma que nós, quando chegamos naquele período das descobertas, respeitamos as culturas existentes. Tinha uma expressão muito polêmica em Portugal, já que você me provocou: “Deus criou o branco e o preto. Os portugueses criaram os mestiços”. Ao contrário de muitos povos que fizeram colonização forçada, nós tivemos um caso de paixão com todos os povos que encontramos. O Brasil foi uma das maiores paixões dos portugueses. Hoje, a gente se refere ao Brasil como país irmão. Então, não tem de ter problema nenhum com a história do Brasil. É uma história rica e que nós todos partilhamos pelos nossos antepassados. É um somatório sempre, é win-win, sempre.

O Brasil conhece pouco da produção cultural dos países africanos que falam português, o que é feito no Timor-Leste ou São Tomé e Príncipe. Como o instituto trabalha isso?

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O instituto não tem capacidade de fazer tudo. Oxalá fosse possível! Mas nós tentamos promover o intercâmbio cultural, com os vossos escritores, escritores da África e de Portugal. Também com a música e as tradições. Tentamos fazer isso dentro das nossas melhores capacidades.

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