MÚSICA

'A estrada', disco póstumo de Lô Borges, chega hoje às plataformas

Com letras de Márcio Borges, álbum foi criado em 2023 para encerrar a parceria dos irmãos. 'Era para ser metáfora. E não uma coisa premonitória', diz Márcio

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Uma viagem que finda. Esta é a ideia, atravessada pela fatalidade, por trás de “A estrada”, álbum póstumo de Lô Borges (1952-2025) que chega nesta quarta-feira (10/6) às plataformas, com 10 composições inéditas, nove delas com letras de seu irmão Márcio Borges. O disco já estava pronto, com vozes e violões de Lô gravados ao longo do ano passado, antes de sua partida precoce, em novembro. A produção é de Henrique Matheus e Thiago Corrêa, integrantes da banda que o acompanhava.

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Antes de “A estrada”, Lô havia lançado dois discos com quase todas as letras assinadas por Márcio: “Muito além do fim” (2021) e “Harmonia” (2009). Seu primeiro álbum solo, conhecido como “Disco do Tênis” (1972), também foi engendrado em estreita colaboração com o irmão, ainda que ele responda pelas letras de apenas quatro das 15 faixas.

Márcio conta que “A estrada” começou a tomar forma em 2023, com a ideia de ser uma espécie de despedida dos dois como parceiros. A partir de 2019, Lô entrou em ritmo muito acelerado de criação, e o irmão não conseguia acompanhá-lo.

“Brinquei que Lô tinha autorização para procurar outros parceiros, o que já vinha acontecendo. Ele estava lançando um disco atrás do outro, sempre com um letrista diferente: Makely Ka, César Maurício, Zeca Baleiro, Manuela Costa, Nelson Angelo, Patrícia Maês. Em 2023, veio a ideia de fazermos um disco que seria nossa saideira”, explica.

 Márcio Borges e Lô Borges abraçados em frente à placa que homenageia o Clube da Esquina, no Bairro Santa Tereza, em BH
Márcio e Lô Borges no cruzamento das ruas Paraisópolis e Divinópolis, em Santa Tereza, berço do Clube da Esquina Renato Weil/EM/D.A Press/24/3/2004

Márcio pontua que nunca pretendeu parar totalmente de compor com o irmão. Só quis oferecer ao público o fechamento de seis décadas da parceria seminal do Clube da Esquina.

“Dei a ideia de fazermos um disco sobre a estrada, o que seria uma comparação com nossa própria vida, os 60 anos de parceria, como se fosse um caminho que trilhamos e estava chegando ao fim. Agora, era para ser metáfora. E não uma coisa premonitória, como acabou sendo”, diz, referindo-se à morte do irmão.

Todas as letras do novo disco guardam a ideia de movimento, viagem e deslocamento. “Pousada”, “18 rodas”, “Encruzilhada”, “Campo Alegre km 500 mil”, “Última parada” e “Chegada” (a única cuja letra o próprio Lô assina e conta com participação de Tavinho Moura) são algumas delas.

Márcio diz que o irmão enviava a melodia e ele ia escrevendo, sempre em função do tema. “A faixa '18 rodas' é sobre o caminhoneiro no chão de barro, situação que nós dois já vivemos.”

Para embalar a temática, Lô apostou no clima roqueiro, conta Márcio. Homenagem a artistas como Crosby, Stills, Nash & Young, “que tinham essa coisa easy rider”. As letras surgiram à luz dessas influências. As canções foram compostas em 2023, mas ficaram guardadas na gaveta em função da torrente criativa do irmão, que tinha outros trabalhos prontos e desejava lançá-los.

Três álbuns desta fila saíram antes: “Não me espere na estação” (2023), trazendo parcerias com César Maurício; “Tobogã” (2024), com letras da poeta brasiliense Manuela Costa; e “Céu de giz – Lô Borges convida Zeca Baleiro” (2025).

'Deus dispõe'

“Falei para ele lançar esses na frente e deixar o nosso para quando eu fizesse 80 anos (no último 31 de janeiro). Planejamento que não deu certo, porque no meu aniversário ele já não estava mais aqui. Como se diz, o homem põe e Deus dispõe”, comenta Márcio.

O lançamento de “A estrada” traz um sentimento dúbio para o compositor e escritor. “Por um lado, fico satisfeito de ter botado o disco na roda, mas não me dá a alegria de sempre, de fechar um trabalho com o Lô, o que era uma festa. Nos visitávamos para comemorar. Desta vez, isso não aconteceu. Estou satisfeito, mas feliz, de jeito nenhum. Para dizer a verdade, nunca mais consegui ser feliz. Foi a maior perda que já tive. Nem a dos meus pais senti tanto, porque Lô era meu irmão e parceiro de uma vida inteira”, ressalta.

 Baterista Robinson Matos, baixista Thiago Corrêa, compositor Lô Borges, guitarrista Henrique Matheus e tecladista Felipe Dangelo estão lado a lado e sorriem para a câmera
Lô Borges (ao centro) com sua última banda: Robinson Matos (bateria), Thiago Corrêa (baixo), Henrique Matheus (guitarra) e Felipe Dangelo (teclado e vocal) Flávio Charchar/divulgação

Integrante da banda e produtor de Lô desde 2019, Thiago Corrêa, sócio de Henrique Matheus no estúdio Frangonobafo, conta que o processo era sempre o mesmo.

“Ele descobriu este jeito de fazer disco, com um parceiro só, à distância. Lô gravava todas as músicas de uma vez e depois, quando as letras chegavam, colocava a voz. Nós ficávamos incumbidos dos arranjos e da produção, ele só ia ouvir depois de pronto. Com 'A estrada' foi a mesma coisa. Ele chegou a ouvir e aprovou tudo”, afirma Corrêa.

Marcos Suzano

Um dado marcante de “A estrada” é a participação do percussionista Marcos Suzano. Thiago Corrêa explica que, diferentemente dos sete álbuns de Lô em que ele trabalhou, o novo disco seria calcado apenas na voz, no violão e na percussão.

“Lô fez questão desta presença. Mandou as vozes e violões para o Suzano, que devolveu com as percussões. O disco seria só isso, mas, depois que ouviu, Lô sentiu a falta da banda e a gente criou os arranjos ao redor do que já estava registrado.”

Marcos Suzano toca pandeiro em frente ao microfone durante show
Lô Borges fez questão de gravar com Marcos Suzano, aclamado percussionista brasileiro Wataru Umeda/divulgação

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“A ESTRADA”

• Álbum póstumo de Lô Borges
• Deck
• 10 faixas
• Disponível nas plataformas a partir desta quarta-feira (10/6)

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