CINEMA

Filme 'E seus filhos depois deles' é um retrato da França profunda

Longa acompanha a rivalidade de dois jovens em meio à violência, xenofobia e exclusão social na pátria da liberdade, igualdade e fraternidade

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Na pequena Heillange, o jovem Anthony (interpretado por Paul Kircher) conhece Stephanie, ou Steph (Angelina Voreth), por quem se apaixona imediatamente. Ela o convida para uma festa. Ele aceita. Para impressioná-la, rouba a moto do pai.

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Durante a confraternização, Anthony se envolve numa briga com Hacine (Sayyid El Alami), garoto de origem árabe impedido de entrar na festa. Em busca de vingança, Hacine vai embora com a moto roubada. O furto se transforma no estopim da rivalidade que se estenderá por anos em “E seus filhos depois deles”, longa de Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma, em cartaz nesta quarta-feira (10/6) no Cine Belas Artes.

Baseado no romance best-seller homônimo do francês Nicolas Mathieu, o filme usa o conflito entre Anthony e Hacine como ponto de partida para refletir sobre questões que marcaram parte da juventude francesa nos anos 1990 e encontram eco no presente. Racismo, xenofobia, violência, pobreza, alcoolismo e amadurecimento são inseridos na narrativa, sem didatismo.

A exclusão de Hacine da festa é um retrato da França da década de 1990, marcada pelo aumento de ataques xenofóbicos direcionados a imigrantes árabes e muçulmanos, sobretudo. Sem entender exatamente o motivo de ser barrado, o garoto insiste, mas vai embora. Antes, leva uma rasteira de Anthony. “Você vai se arrepender disso para o resto da vida”, ameaça.

A frase soa como bravata típica de adolescentes de 14 anos. Mas é ali que nasce a rivalidade duradoura, marcada por agressões físicas, ameaças de morte e até tentativa de assassinato. Anthony e Hacine, no entanto, têm mais em comum do que pensam. Ambos vêm de famílias pobres, convivem com pais abusivos e não enxergam perspectivas de futuro em Heillange.

Melancolia

Anthony ocupa posição um pouco mais confortável. É a relação com Steph, garota de classe média, que lhe permite circular por espaços dos quais Hacine é excluído. Sem ela, talvez estivesse mais próximo do rival.

Ao longo dos seis anos retratados, Anthony finalmente consegue um beijo, entre outras coisas mais, de Steph. Mas o romance juvenil não é o elemento central de “E seus filhos depois deles”. A questão principal do filme é a persistente melancolia.

Heillange é um lugar estranho. Os adultos bebem para anestesiar frustrações, os jovens transitam entre festas em meio a pequenos delitos e explosões de violência, enquanto a siderúrgica desativada segue na mente dos moradores como lembrança do passado promissor.

Adolescentes não herdaram apenas a cidade decadente, mas também a incapacidade dos pais de imaginar um futuro melhor. Anthony e Hacine são o exemplo de como desigualdades sociais e preconceitos moldam a trajetória de jovens do mesmo estrato social. Chega a ser trágico como o ressentimento dos personagens os impede de reconhecer a própria semelhança.

Em certa medida, “E seus filhos depois deles” dialoga com a tradição do cinema francês da “juventude sem rumo”. Se em “Os incompreendidos” (1959), de François Truffaut, o desencanto surgia a partir do olhar de um adolescente em conflito com os adultos, aqui esse olhar ganha contorno coletivo.

Também é possível traçar paralelos com o cinema social francês, que jogou luz na vida das periferias. Caso de “O ódio” (1995), de Mathieu Kassovitz. A diferença é que Ludovic e Zoran Boukherma focam em pequenos episódios de violência, preconceito e frustração, em vez da violência explícita.

Nem vítima, nem vilão

Ainda que trate de temas espinhosos, “E seus filhos depois deles” evita reduzir personagens a estereótipos. Hacine não é apenas vítima de exclusão, assim como Anthony está longe de ser mero vilão. Os diretores preferem zonas cinzentas, nas quais escolhas equivocadas convivem com vulnerabilidades e desejos legítimos.

O elenco se destaca. Paul Kircher sustenta bem as contradições de Anthony, dividido entre agressividade e fragilidade, enquanto Sayyid El Alami dá densidade a Hacine, personagem tomado pela raiva silenciosa ao mesmo tempo em que busca reconhecimento.

Com 146 minutos, “E seus filhos depois deles” por vezes parece se alongar além do necessário. O balanço final, no entanto, é positivo. Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma traçam o retrato de uma França partida, cujas feridas dos anos 1990 continuam longe de cicatrizar.

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“E SEUS FILHOS DEPOIS DELES”

França, 2024, 146 min. De Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma. Com Paul Kircher, Sayyid El Alami e Angelina Voreth. Classificação: 18 anos. Em cartaz na sala 3 do Cine Belas Artes, às 20h40, apenas nesta quarta-feira (10/6).

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