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A chegada de um novo filme de Pedro Almodóvar é sempre um acontecimento – mesmo entre aqueles considerados menores, como é o caso de “Natal amargo”. O longa estreia hoje (28/5) nos cinemas brasileiros depois de ter competido, sem prêmios, no Festival de Cannes, encerrado no último sábado.
Aos 76 anos, Almodóvar volta a refletir sobre sua própria obra (e o custo emocional dela), algo que havia realizado de forma espetacular em “Dor e glória” (2019). Desta vez, seu alter ego é Raúl Rossetti (o argentino Leonardo Sbaraglia), cineasta que não filma há muitos anos e não quer viver do passado. Rechaça o reconhecimento que querem lhe dar – isso inclui até mesmo o cachê de 200 mil euros para participação em um festival no Oriente Médio.
Crise
Raúl está em crise, acredita que sua inspiração esteja chegando ao final. Tanto por isso, se vê no direito de vampirizar os traumas alheios e torná-los seus, levando-os para o cinema. É basicamente este o mote do filme, desenvolvido de forma intrincada pelo diretor. Fãs de Almodóvar vão se deliciar com detalhes que fazem referência a sua extensa filmografia. “Natal amargo” é a 24ª produção do espanhol.
A história não começa com Raúl, mas com Elsa (Bárbara Lennie). Em dezembro de 2004, depois de uma forte enxaqueca, ela dá entrada em um hospital de Madri com o jovem namorado, Bonifacio (Patrick Criado). No quarto, é acompanhada por uma médica (Carmen Machi, recorrente em filmes de Almodóvar). Na conversa do trio, ficamos sabendo mais sobre eles.
Elsa é uma diretora que migrou para a publicidade depois de dois longas-metragens, muitos anos atrás. Pouco vistos, os filmes ganharam a aura de cult, com a passagem do tempo. Tem vontade de voltar ao cinema, mas lhe falta inspiração. Perdeu a mãe há um ano e o trabalho não lhe deu espaço de viver o luto. O namorado é bombeiro. Nos finais de semana, sob a alcunha de Beau, ele faz bicos como stripper.
Foi na performance em uma despedida de solteira que a médica o viu pela primeira vez. Foi também numa apresentação do gênero, quando fazia casting para comercial de cueca, que Elsa conheceu Beau. Sob o som de Grace Jones, com “I’ve seen that face before”, vemos o que Beau, tímido e discreto na vida civil, é capaz de fazer diante da plateia feminina.
Já no tempo presente, acompanhamos Raúl debatendo trabalho e compromissos com a assistente de longa data. Depois de 20 anos de serviços prestados ao diretor, Mónica (Aitana Sánchez-Gijón, que participou de “Mães paralelas”, de 2021) vai deixar o emprego. A companheira está vivendo situação de vida e morte, Mónica quer ficar ao lado dela.
Antes de deixar o emprego, ela passa toda a agenda para seu substituto. Este é Santi (Quim Gutiérrez), o companheiro bem mais jovem de Raúl. Mesmo com a saída de seu braço-direito, o diretor está animado. Está começando a escrever roteiro que poderá resultar em uma obra-prima.
As duas tramas, com 22 anos de diferença, correm em paralelo. Logo o espectador vê que a história de Elsa é aquela que está sendo escrita por Raúl. “Natal amargo” acompanha a complexa relação entre a criação artística e a própria existência. Raúl e Elsa não vão demorar a descobrir o custo de se aproximar demais da vida dos outros.
Almodóvar constrói o drama sobre a crise da criação sem deixar de fazer referências ao próprio passado. Rossy de Palma, atriz-fetiche do cineasta, aparece numa participação como anfitriã de uma festa à qual Elsa irá com Beau.
Outra musa do diretor, a cantora mexicana Chavela Vargas (1919-2012), se faz presente com suas rancheras. O título “Natal amargo”, inclusive, foi tirado de uma delas. Duas sequências de emoções intensas evocam a intérprete de “La llorona”.
A primeira metade da história é toda ambientada em Madri. O cenário muda na parte final, quando Elsa viaja para Lanzarote para se recuperar da dor da perda da mãe. É ali, na companhia de amigas, que ela dá início ao roteiro de seu próximo filme.
Areia negra
Trabalhando pela primeira vez com Almodóvar, o diretor de fotografia Pau Esteve Birba aproveita todas as possibilidades da ilha vulcânica. Há uma sequência em especial, o plano aéreo com a areia negra banhada pelo mar emoldurando duas mulheres (Elsa e sua amiga Patrizia) e uma criança, em roupas coloridas, que já justifica toda a história desenvolvida na ilha.
São muitos personagens, alguns quase supérfluos. Belamente construída, a trama de “Natal amargo” coloca o espectador como voyeur das neuroses alheias – em última instância, os dramas do próprio Almodóvar. Ainda que abrindo para o público as próprias experiências da criação, o cineasta mantém a plateia à distância. O filme, em momento algum, chega a emocionar como “Dor e glória”.
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“NATAL AMARGO”
Espanha, 2026, 111min. De Pedro Almodóvar, com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia e Aitana Sánchez-Gijón. Estreia nesta quinta-feira (28/5) em salas de cinema dos shoppings Diamond, Estação, Pátio Savassi e Ponteio, além do Cine Belas Artes e Centro Centro Cultural Unimed-BH Minas.