Na esteira do Ano JK, articulado pelo Circuito Liberdade, a mostra "JK e o sonho moderno" pode ser conferida neste fim de semana no Cine Humberto Mauro, com a exibição, neste sábado (30/5), do filme "Os anos JK – Uma trajetória política" (1980), de Silvio Tendler, e no domingo (31/5), de "JK, o futuro chamado ao presente" (2026), de Fábio Chateaubriand Guedes.

O primeiro aborda o contexto em que JK empreende seu desenvolvimentismo, ao passo que o segundo foca os limites políticos e econômicos para suas ações.

A exposição "Dr. Juscelino, o médico que pensou o Brasil", em cartaz no hall da sala de cinema do Palácio das Artes, complementa a mostra. O gerente do Cine Humberto Mauro, Vitor Miranda, observa que as duas obras que compõem a programação apresentam abordagens distintas de JK, mas complementares.

Ele ressalta que "Os anos JK - Uma trajetória política" foi realizado em plena ditadura, por um documentarista consagrado, o que resulta em um olhar mais fortemente político e ensaístico.

"Silvio imprime essa característica em suas produções, é conhecido como o cineasta dos sonhos perdidos, porque comumente dedicava seus documentários a figuras políticas", diz, destacando o quão oportuno é que o filme esteja sendo exibido concomitantemente com a mostra – também em cartaz no Cine Humberto Mauro, até o próximo dia 7/6 – "De lá pra cá", de Agnès Varda, outra cineasta "profundamente ensaística".

Sobre o documentário de Fábio Chateaubriand Guedes, ele chama a atenção para o fato de que traz o frescor da atualidade.

Jovem e ágil

"É um filme feito este ano, então ele atualiza o discursos, tem uma pegada mais contemporânea, tenta dialogar com o público mais jovem, com uma montagem mais ágil, com o uso de memes, com muita música brasileira, quer dizer, se dirige mesmo às novas gerações, tem uma característica mais memorialista", diz.

Ele pontua que o documentário de Guedes, um pesquisador reconhecido, diretor cultural da Casa de Juscelino, em Diamantina, dialoga mais proximamente com a exposição.

Com relação a "Os anos JK - Uma trajetória política", Miranda destaca a habilidade do diretor para desenvolver a linguagem documental. "Silvio Tendler é um dos grandes documentaristas brasileiros e é pouco valorizado. Esse filme dele tinha que ser passado nas escolas", diz.

Sobre "JK, o futuro chamado ao presente", ele considera que cumpre a função de mostrar o quanto a figura do ex-presidente ainda é relevante e definidora para a história política brasileira.

Com depoimentos inéditos, documentos raros e ampla pesquisa, o filme de Guedes percorre momentos marcantes da vida pública de JK – da Prefeitura de Belo Horizonte à Presidência da República, passando pela criação de Brasília e o Plano de Metas.

Entre os entrevistados estão Maristela Kubitschek, filha de Juscelino; Serafim Jardim, que foi seu amigo e secretário, presidente da Casa de Juscelino; Ronaldo Costa Couto, biógrafo do ex-presidente; e Celso Lafer, cujo tio foi ministro das Relações Exteriores de JK.

Durante uma atualização no acervo do Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, em 2025, a estagiária Jussara Soares fez uma descoberta histórica relativa a Juscelino Kubitschek. Arquivo público/DF
Soares encontrou entre as páginas de um livro antigo uma carta autêntica do ex-presidente do Brasil datada de 1961, ano em que Juscelino deixou o cargo. Reprodução de vídeo TV Poços
O achado ocorreu em 28 de agosto de 2025, quando a jovem historiadora, aluna de museologia no Centro Universitário Leonardo da Vinci, realizava tarefas de catalogação e conservação preventiva no acervo da instituição. Reprodução/Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas
Ao abrir um livro com capa de couro verde, intitulado “Livro de Ouro”, ela encontrou um documento dobrado que chamou sua atenção imediatamente. Reprodução/Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas
A carta, sem envelope, trazia um selo em alto relevo e a assinatura de Kubitschek. Nela, o ex-presidente se dirigiu a colaboradores de seu governo em tom de despedida, expressando reconhecimento pelo apoio recebido e fazendo um balanço positivo de sua gestão. Reprodução/Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas
"Ao aproximar-se o término do meu mandato, venho manifestar-lhe, de modo especial, o meu reconhecimento pelo seu patriótico apoio à luta que travei para conduzir a pleno êxito a causa do desenvolvimento nacional", declara Juscelino na abertura da carta. Reprodução/Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas
Na primeira página do livro, que na verdade se trata de um caderno de assinaturas, Jussara encontrou uma dedicatória específica: “À Dona Teresa Bonifácio, pelos serviços prestados durante o meu governo.” A mensagem vem acompanhada de autógrafos da esposa e das filhas de JK. Reprodução/Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas
A destinatária, a funcionária pública Teresa Bonifácio, trabalhou como governanta no Palácio da Alvorada durante a construção de Brasília e era natural de Poços de Caldas, segundo as investigações iniciais conduzidas pelo museu. A descoberta é mais um elemento histórico que envolve um dos maiores nomes da política brasileira. Reprodução de vídeo TV Poços
Nascido em 12 de setembro de 1902 na cidade de Diamantina, em Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira foi um dos presidentes mais marcantes da história do Brasil. Domínio Público/Wikimédia Commons
Mineiro com formação em medicina, ele ocupou seu primeiro cargo público como deputado federal em 1935, mas teve a trajetória interrompida com o fechamento do Congresso Nacional pelo golpe do Estado Novo, conduzido por Getúlio Vargas, em 1937. Reprodução de vídeo G1
Nos anos 1940, ele retornou à política como prefeito de Belo Horizonte, onde se destacou por obras de modernização, incluindo a construção do conjunto arquitetônico da Pampulha, concebido por Oscar Niemeyer. Domínio Público/Wikimédia Commons
Mais tarde, elegeu-se governador de Minas Gerais, cargo que ocupou entre 1951 e 1955, após ter exercido um novo mandato como deputado federal. - Reprodução do Flickr Arquivo Nacional do Brasil
Em 1955, JK chegou à Presidência da República. Seu governo ficou conhecido pelo lema “50 anos em 5”, com a promessa de acelerar o desenvolvimento do país em ritmo inédito. Domínio Público/Wikimédia Commons
Ele seguiu um ousado Plano de Metas, que priorizou setores estratégicos como energia, transporte, indústria de base e educação. - Reprodução do Flickr Arquivo Nacional do Brasil
A marca mais simbólica de sua gestão foi a construção de Brasília, inaugurada em 1960. A nova capital, projetada pelos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, tornou-se símbolo do espírito modernizador de seu governo e da ideia de integrar o território nacional. Reprodução do Flickr Arquivo Nacional do Brasil
Apesar de enfrentar forte oposição política e crises econômicas, JK completou seu mandato e deixou o poder em 1961, sendo sucedido por Jânio Quadros. - Arquivo Nacional/Wikimédia Commons
Após o golpe militar de 1964, Juscelino, que tinha planos de voltar a concorrer à presidência militar, teve seus direitos políticos cassados, perdendo o mandato de senador por Goiás. Reprodução do Flickr Arquivo Nacional do Brasil
Após um período no exílio, ele retornou ao Brasil em 1967, mas permaneceu afastado da vida pública até sua morte trágica em um acidente de carro, em 1976, na Via Dutra - que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. - Reprodução do Flickr Arquivo Nacional do Brasil
Juscelino Kubitschek foi casado de 1931 até sua morte com Sarah Kubitschek. Eles tiveram duas filhas, Márcia Kubitschek, que foi vice-governadora do Distrito Federal entre 1991 e 1995, e Maria Estrela, adotada pelo casal em 1947. - Reprodução Revista O Cruzeiro/Wikimédia Commons

"JK, o futuro chamado ao presente" teve uma primeira exibição em fevereiro deste ano, no Teatro Feluma, que também abrigou uma exposição correlata. Na ocasião, o diretor destacou que o documentário, de fato, foge um pouco dos formatos habituais de produções do gênero.

"Ele tem linguagem desconstruída, mais moderna. Quando falamos em documentário, existe um certo padrão. No nosso caso, utilizamos memes e um discurso mais informal. Sobretudo, é muito musical, com coisas do Clube da Esquina", disse.

O filme resultou de uma ampla pesquisa, que incluiu o levantamento de mais de 50 mil fotografias, que servirão, ainda, a um livro previsto para o fim deste ano. Um dos destaques do documentário é o depoimento de Josias de Souza, motorista do ônibus da Viação Cometa acusado de envolvimento no acidente rodoviário que matou JK.

De acordo com o diretor, tentaram imputar a ele a causa do acidente, mas as perícias mostraram que o ônibus sequer encostou no carro de JK.

"JK E O SONHO MODERNO"

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Mostra dos filmes "Os anos JK - Uma trajetória política", de Silvio Tendler, neste sábado (30/5), às 16h, e "JK, o futuro chamado ao presente", de Fábio Chateaubriand Guedes, no domingo (31/5), às 17h, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Entrada franca, com 50% dos ingressos disponíveis, a partir de 12h do dia de cada sessão, na plataforma Sympla, e outros 50% distribuídos presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes, 1 hora antes de cada sessão.

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