Xenia Fedorova lançou no ano passado o livro 'Banida', em que se diz vítima de censura estatal - (crédito: Xavier GALIANA / AFP)
crédito: Xavier GALIANA / AFP
"A Rússia é capaz de ajudar a economia francesa", afirma, em francês fluente, a russa Xenia Fedorova em uma das emissoras de televisão mais influentes da França, onde as autoridades temem a "desinformação do Kremlin" a meses da eleição presidencial.
Fedorova, de 45 anos, é a ex-diretora da filial francesa da emissora estatal russa RT, proibida na França após a invasão da Ucrânia pelo presidente russo, Vladimir Putin, em 2022. Embora a RT France tenha fechado em 2023, ela não desapareceu da cena pública.
A comentarista alcançou um público mais amplo opinando em veículos do bilionário conservador Vincent Bolloré – a emissora CNews, a rádio Europe 1 e o semanário "Le Journal du Dimanche" –, nos quais difunde mensagens do Kremlin sobre a Ucrânia e os países ocidentais.
Em um comentário recente na CNews, por exemplo, considerou "obrigatório" que o sucessor do presidente de centro-direita Emmanuel Macron, no próximo ano, mantenha boas relações com Moscou.
À medida que a França se aproxima de uma das eleições mais importantes de sua história recente, com a extrema-direita liderando as pesquisas para o primeiro turno, suas mensagens preocupam cada vez mais as autoridades e especialistas em desinformação.
A França se orgulha de sua liberdade de expressão, e a trajetória de Fedorova reflete uma contradição no centro do panorama midiático do país, onde as liberdades legais entram em choque com o temor da propaganda estrangeira.
"Fedorova é uma propagandista consumada que serve de porta-voz para a desinformação do Kremlin", mas "todos são livres para escolher sua própria linha editorial", declarou nesta sexta-feira (29/5) o chanceler francês Jean-Noël Barrot, reconhecendo que pouco pode fazer.
Propaganda ou opinião?
Para o comentarista Patrick Cohen, o caso levanta questões difíceis. "Com base em quê se pode distinguir o que constitui propaganda do que é uma opinião legítima?", questionou. Nesta sexta-feira (29/5), Maxime Saada, diretor-executivo do Canal+ – do grupo Bolloré –, defendeu Fedorova, após ser questionado por um acionista: "Não acredito que se possa falar de uma agente russa".
Procurada pela AFP, a comentarista não quis se pronunciar, alegando não ter garantias de que suas respostas escritas seriam reproduzidas integralmente. A CNews também se recusou a comentar.
Em seu livro "Banida", publicado no ano passado pela editora Fayard – ligada a Bolloré –, Fedorova se apresenta como vítima da censura estatal. Já o jornal "Le Monde" a classificou como "a propagandista mais influente do Kremlin na França".
Nesta semana, o diário destacou seus vínculos com Bolloré, observando que um centro de estudos fundado pelo magnata organizou recentemente um almoço para discutir a eleição presidencial de 2027. Fedorova participou do encontro, ao lado da ministra da Agricultura, a conservadora Annie Genevard, e de um assessor do líder da extrema-direita Jordan Bardella.
Um integrante da equipe de Genevard afirmou à AFP que a ministra não teria comparecido se soubesse da presença da comentarista.
"Agente de influência"
Embora não existam provas de vínculos diretos com o Kremlin, Fedorova deveria ser considerada "uma agente de influência", afirmou Julien Nocetti, do Instituto Francês de Relações Internacionais. Segundo o pesquisador, que estuda a propaganda russa, Bolloré pode enxergar a russa como uma ferramenta útil em sua tentativa de moldar o panorama midiático francês.
Em 7 de maio de 2026, Vladimir Putin completou oficialmente 26 anos no poder na Rússia de forma contínua. Ele assumiu o cargo após a renúncia surpresa de Boris Yeltsin no último dia de 1999, mas iniciou seu primeiro mandato eleito pelo voto popular em maio de 2000. Ao longo de mais de duas décadas e meia, Putin transformou-se em uma das figuras políticas mais influentes e controversas do século 21, acumulando poder interno, ampliando a presença internacional russa e conduzindo o país por guerras
Reprodução do Instagram @russian_kremlin
Putin nasceu em 7 de outubro de 1952, na então cidade soviética de Leningrado, hoje São Petersburgo. Ele cresceu na União Soviética marcada pela reconstrução do pós-guerra e por rígido controle estatal. Filho de uma operária e de um veterano da Segunda Guerra Mundial, teve uma infância modesta. Desde cedo demonstrou interesse por esportes de combate, especialmente judô, prática que ele próprio costuma citar como decisiva para moldar sua disciplina e visão estratégica.
Kremlin.ru/Wikimédia Commons
Formado em Direito pela Universidade Estatal de Leningrado em 1975, Putin ingressou na KGB, a poderosa agência de inteligência soviética que se tornou símbolo do aparato de segurança da URSS durante a Guerra Fria. Ele atuou principalmente na área de inteligência externa e passou parte dos anos 1980 em Dresden, na então Alemanha Oriental, experiência frequentemente apontada por analistas como fundamental para sua visão geopolítica e sua desconfiança em relação ao Ocidente.
Kremlin.ru/Wikimédia Commons
Após o colapso da União Soviética, ele retornou à Rússia no início da década de 1990 em um período de forte turbulência política e econômica. A ascensão política de Putin ocorreu de forma rápida. Em Moscou, passou a ocupar cargos estratégicos no governo federal. Em 1998, tornou-se diretor do FSB, órgão sucessor da KGB. Pouco depois, foi nomeado primeiro-ministro pelo presidente Boris Yeltsin, em um momento em que a Rússia atravessava uma grave crise econômica e institucional.
Reprodução/Youtube
Quando Yeltsin anunciou sua renúncia em 31 de dezembro de 1999, Putin assumiu como presidente interino. Meses depois, venceu as eleições presidenciais e foi oficialmente empossado em 7 de maio de 2000. A partir dali, iniciou-se um dos períodos mais longos de concentração de poder na história moderna da Rússia.
Reprodução do Instagram @russian_kremlin
Nos primeiros anos de governo, Putin consolidou sua imagem como líder forte em meio ao caos econômico após o fim da União Soviética. O crescimento impulsionado pelas exportações de petróleo e gás ajudou a elevar o padrão de vida de parte da população russa nos anos 2000, fortalecendo sua popularidade.
- Kremlin.ru/Wikimédia Commons
Paralelamente, porém, críticos apontam que o Kremlin passou a ampliar o controle sobre a imprensa, o Judiciário, os governos regionais e os grandes empresários conhecidos como “oligarcas”. Impedido constitucionalmente de disputar um terceiro mandato consecutivo em 2008, Putin apoiou a candidatura de Dmitry Medvedev à Presidência e assumiu o cargo de primeiro-ministro. Apesar da mudança formal, analistas consideram que ele continuou sendo o principal centro de poder do país. Em 2012, voltou à Pre
Kremlin.ru/Wikimédia Commons
A partir daí, o governo tornou-se ainda mais centralizado. Movimentos de oposição passaram a denunciar repressão política crescente, prisões de adversários e restrições à liberdade de expressão.
Reprodução do Instagram @russian_kremlin
No cenário internacional, Putin buscou reposicionar a Rússia como potência global. Em 2014, a anexação da Crimeia, território da Ucrânia, desencadeou uma grave crise diplomática com o Ocidente e resultou em sanções econômicas contra Moscou. O momento mais decisivo, e controverso, de sua trajetória ocorreu em fevereiro de 2022, quando a Rússia iniciou a invasão em larga escala da Ucrânia. O conflito já provocou milhares de mortes, destruição em cidades ucranianas, ondas de refugiados e uma das ma
- Kremlin.ru/Wikimédia Commons
Outro marco importante de sua trajetória ocorreu em 2020, quando um pacote de mudanças constitucionais aprovado na Rússia redefiniu os limites de mandato presidencial. Na prática, as alterações permitiram que Putin possa disputar novas eleições e potencialmente permanecer no poder até 2036, quando terá 83 anos.
Reprodução do Instagram @russian_kremlin
Sua permanência prolongada no comando russo inevitavelmente gera comparações históricas. Desde Josef Stalin, nenhum líder russo ou soviético permaneceu tanto tempo no centro do poder do país. Admirado por aliados como símbolo de resistência ao poder ocidental e criticado por adversários por práticas autoritárias e ações militares, ele continua influenciando diretamente os rumos da Rússia e o equilíbrio geopolítico mundial.
Reprodução do Instagram @russian_kremlin
Vladimir Putin foi casado por cerca de 30 anos com Lyudmila Aleksandrovna, de quem se divorciou oficialmente em 2013. O presidente russo tem duas filhas reconhecidas publicamente, Maria Vorontsova e Katerina Tikhonova, embora mantenha a vida familiar sob forte sigilo.
- Kremlin.ru/Wikimédia Commons
"Sem necessariamente se alinhar completamente a tudo o que ela diz, ela lhe é muito útil para sacudir um ecossistema midiático, político e possivelmente empresarial", explicou. A ex-jornalista da televisão estatal russa Marina Ovsiannikova, que protestou contra a invasão da Ucrânia durante uma transmissão ao vivo e atualmente vive na França, afirmou que dar espaço a Fedorova é perigoso e não descartou que ela mantenha vínculos com a RT.
"Aquilo do que fugi na Rússia chegou agora à França", declarou à AFP. "Observo com horror como todos esses sentimentos de extrema-direita estão se intensificando aqui." Diversos coletivos planejam organizar um protesto na próxima semana para exigir a retirada da autorização de residência de Fedorova, prorrogada pelas autoridades francesas por dez anos em 2024.