Frei Betto volta ao tema da ditadura pela perspectiva dos delatores
Em 'O voo da locomotiva', escritor adapta para o Brasil episódio real de chilena vítima da tortura que se transformou em colaboradora do regime militar
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há um nome para designar aqueles militantes que viram a casaca e passam a colaborar com a ditadura: cachorros. Cabo Anselmo, o mais notório agente duplo a serviço da ditadura militar brasileira, entregou dezenas de militantes para o delegado Sérgio Paranhos Fleury, inclusive sua namorada, a guerrilheira Soledad.
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A protagonista de "O Voo da Locomotiva", sexto livro que Frei Betto lança sobre esse período, também delatou. Mas o escritor e teólogo de 81 anos não a condena.
O autor prefere escrutinar as contradições humanas sob regimes de exceção, usando a ficção para tratar de um tema que ele define como "suicídio moral": a trajetória daqueles que, sob tortura, repassaram a seus algozes informações que vitimaram companheiros de luta.
A trama tem por base a história real da chilena Luz Arce, que Betto conheceu nos anos 1970. Foi a própria Luz, uma ex-guarda-costas do governo de Salvador Allende, que lhe contou como virou agente colaboradora da ditadura de Augusto Pinochet, a mesma que a torturou brutalmente. Ela escreveu um livro sobre isso, "O Inferno".
O frade dominicano, ele próprio preso e torturado pelos militares brasileiros no passado, diz que ficou "mordido pela ideia de um dia transformar isso num romance adaptado ao Brasil". Foi o que fez. Rosa Maria é quem personifica a descida aos infernos de uma militante de esquerda.
Figura indissociável da Teologia da Libertação, o católico não vê escolha senão ter "um olhar de misericórdia" para aqueles que, como a real Luz ou a ficcional Rosa, sucumbiram à brutalidade ditatorial.
"Quando a pessoa, sem nenhuma tortura, passa deliberadamente a colaborar, aí sim, eu considero um cachorro, uma traição. Mas quando ela age por um sofrimento atroz, isso é digno de misericórdia. Presos políticos sempre tiveram essa compreensão com aqueles que não suportaram o limite da dor."
Há muitas cenas gráficas em sua obra. De um estupro praticado por um sargento que ordenava que a mulher gozasse, enquanto ele, prestes a ejacular, afundava a cabeça dela na banheira. Ou da cadeira do dragão, instrumento de tortura metálico projetado para imobilizar a vítima e conduzir eletricidade por todo o seu corpo, uma dor tamanha que fazia exalar "o odor fétido de sangue, merda e urina".
O ponto central da obra é a colaboração de Rosa, ato que ela descreve como uma "hemorragia sem que haja sangue".
Betto também considera em sua narrativa como a ditadura usou "pessoas que não tinham nada a ver" para forçar presos a delatar.
"Isso foi muito utilizado por todos os sistemas repressivos que a gente conhece, uma pressão que junta a dor com o emocional, e o emocional pega fundo, né? Então a pessoa resiste, resiste, mas na hora que vê a esposa, um filho ou a mãe sendo torturado ou ameaçado, realmente, é preciso ter uma resistência heroica para poder suportar essa ameaça."
Rosa reconhece que "se não há memória, não há história". Frei Betto espelha na atualidade a frase de sua protagonista. Inquieta-se com o que vê como dessensibilização da sociedade em relação às atrocidades do regime militar.
Segundo o autor, o Brasil falhou em trabalhar suficientemente o resgate da memória, o que permitiu que o período fosse "clandestinizado" ou abrandado em salas de aula, por exemplo. "Professores se referiam à questão da ditadura como se denunciá-la fosse já uma posição de esquerda."
Essa lacuna educacional e histórica é o que explica, na visão de Betto, a ascensão de movimentos que defendem abertamente o regime militar e relativizam a tortura. A popularidade da extrema-direita o assusta. "Isso pode levar a movimentos repressivos tão intensos e bárbaros como aqueles que a gente viveu nos anos 1970", diz.
Ele põe nessa conta o conflito travado entre o governo israelense e o Hamas. "Fico muito impressionado com o que vejo hoje em Israel. Depois de tudo que os judeus sofreram na Segunda Guerra, o que fizeram em Gaza, para mim, é um sinal de que infelizmente muitas vezes a história se repete."
Frei Betto não poupa críticas à própria esquerda em seu novo livro. Ele descreve militantes da época como "crianças brincando de faroeste, empolgadas com suas espadas de pau, seus revólveres de plástico", sem clareza de como reagir ao aparelho estatal.
Também não deixa de apontar a barreira elitista que muitas vezes separava a esquerda das bases populares, ironizando a atuação de "fedelhos esquerdistas" que, por dominarem conceitos como "materialismo histórico", sentiam-se autorizados a dar aulas para operários experientes e exaustos.
É uma casca de banana na qual forças progressistas ainda escorregam. O frade defende que a única saída é o retorno ao trabalho de base e à educação popular. "Eu faço muito essa crítica de que fora do povo não há salvação. Costumo usar essa frase porque, na tradição da Igreja, dizia-se que fora da igreja não há salvação."
Apesar dos pesares conservadores, Frei Betto, amigo do presidente Lula (PT) e esquerdista convicto, diz que mantém viva sua fé na utopia. Não por acaso faz sua Rosa Maria traduzir o socialismo como o "nome político do amor".
"Não sei que nome se dá a isso. Pode ser socialismo, comunitarismo, partilharismo, o 'ismo' não me interessa. Fato é que não vejo salvação para a humanidade dentro do capitalismo, um sistema em que o capital está acima dos direitos humanos. Então eu mantenho firme essa convicção."
"O VOO DA LOCOMOTIVA"
Livro de Frei Betto
Editora Rocco (160 págs.)
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