'Caos calmo', de Sandro Veronesi, ganha nova edição no Brasil
Best seller no Brasil com "O colibri", o italiano mostra retrato doloroso e ao mesmo tempo bem-humorado da masculinidade em crise e da fragilidade humana
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Stefania Chiarelli - Especial para o Estado de Minas
Pietro Paladini é um homem aparentemente realizado, com um ótimo emprego, uma mulher que o ama e uma filha de dez anos. Certo dia, salva a vida de uma desconhecida e o imprevisível acontece. Tudo muda e Pietro se refugia em seu carro, estacionado em frente à escola da filha, durante os três meses em que transcorre o romance “Caos calmo”. Lançado na Itália em 2006 e logo premiado com o Strega, o livro foi adaptado para o cinema em 2008 por Antonello Grimaldi, tendo Nanni Moretti como protagonista. No Brasil, já havia sido publicado pela Rocco em 2007, mas estava fora de catálogo. Retraduzida agora por Karina Jannini para a Autêntica, a narrativa chega aos leitores brasileiros devidamente familiarizados com o escritor italiano nos romances “O colibri”(publicado em 2024 e com mais de 50 mil exemplares vendidos no país) e “Setembro negro”(2025), publicados pela mesma editora. Veronesi está no Brasil para lançar a nova edição e participa neste sábado de conversa com os leitores na Feira do Livro, em São Paulo.
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É com uma cena de total descontrole que “Caos calmo” inicia. Em dez páginas, Veronesi prova seu timing perfeito ao narrar uma cena de desespero no mar Tirreno. Pietro e o irmão Carlo se vêem diante do afogamento de duas mulheres na praia que frequentam desde a infância. Habituados ao mar agitado dali, pulam na água e salvam as desconhecidas. Elas atrapalham o próprio resgaste, em uma vertiginosa descrição em que os quatro realizam na água uma espécie de balé alucinado. Em vez de aplaudidos, os irmãos saem do mar ignorados pelas pessoas que assistem a tudo da terra firme. Do heroísmo à decepção de serem desconsiderados, o passo é curto, mas é pouco perto do que está por vir. Ao chegar em casa, Pietro vivencia a tragédia da morte da mulher, acontecida no exato momento em que salvava a desconhecida.
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Essa abertura genial anuncia questões tratadas ao longo de quase quinhentas páginas. Acaso, luto e desejo dão continuidade a esse prólogo, que, de tão redondo, funcionaria como um conto. Pietro tem 43 anos e vive em Milão, onde trabalha como diretor de uma poderosa empresa de TV paga, e vem há meses lidando com a insegurança de uma fusão no ramo das telecomunicações. No mundo corporativo, são previstos cortes e perdas de pessoal na nova realidade.
Depois da morte da mulher, o personagem decide que o melhor a fazer é se postar diante da escola da filha, aguardando o final das aulas. Talvez sua permanência ali traga segurança à menina, supõe. O trato é que ela apareça na janela na hora do intervalo e acene. Detalhe: os dois não parecem sofrer. Ao renegar diversas coisas (não trabalhar, não sofrer, não agir), o executivo se mistura à vida da menina. Diante da escola, no calor atípico do outono milanês, a rotina é povoada de todo tipo de gente – a bela desconhecida que passeia com o cachorro na pracinha, a cunhada Marta, o irmão, o chefe, a secretária, trabalhadores e desconhecidos - todos de alguma forma se fazem presentes no escritório improvisado entre seu Audi de último tipo e o banco da praça. Em tais espaços ele inventa o cotidiano (o confessionário?) particular, habitando uma zona liminar entre o público e o privado, em que um rico carrossel humano desfila lamentações, negociatas e indiscrições amorosas.
Na prosa de Veronesi, fundir-se e misturar-se com alguém é tema explorado com talento. Anos depois, o autor voltaria à questão em “O colibri”, vencendo seu segundo Prêmio Strega. Na saga familiar que ganhou o coração de muitos leitores, Marco Carrera experimenta a angústia da (con)fusão em relação à filha, que desde os três anos de idade afirma ter um fio ligando suas costas à parede mais próxima. De acordo com um psicanalista, a menina fabrica a fantasia em face da ausência do pai na dinâmica familiar. Como o beija-flor que intitula a história, Marco faz enorme esforço para ficar firme – setenta batidas de asas por segundo para permanecer onde está. A fixidez une os protagonistas: em “Caos calmo”, Pietro Paladini se ancora no banco da praça e no assento do carro; em “O colibri”, Marco põe sua energia para permanecer parado, enquanto a filha tece um elo imaginário para se sentir ligada a ele. No entanto, o caráter de paladino do sobrenome do primeiro não garante muita coisa, já que ele próprio admite ser uma pessoa superficial, dotada de baixezas morais; “É impressionante a quantidade de coisas das quais posso ser acusado”, admite. Oxímoro ambulante, caótico e calmo, ele reúne em si as características de pai dedicado, funcionário ganancioso e marido mulherengo.
À semelhança de Domenico Starnone, grande autor italiano contemporâneo conhecido por explorar figurações de uma masculinidade em crise, Veronesi é craque quando mete a colher em histórias de família, esse caldeirão afetivo em que alguns se salvam, outros se deixam resgatar, e outros submergem sem chance de alcançar a boia ou o fio mais próximo.
Apesar de por vezes alongar os diálogos do texto, gerando um acúmulo desnecessário, o escritor é hábil ao descrever o mal-estar psíquico, sobretudo quando quem sofre ignora tal condição: “Não corro o risco de enlouquecer... tampouco estou sofrendo”, afirma Pietro. Como leitores, entramos nesse emaranhado da cabeça do personagem - que acredita ouvir mensagens da falecida nos versos das canções da banda Radiohead e narra em primeira pessoa toda essa experiência. Alienado de seus desejos, ele fica surpreso com o fato de querer Eleonora Simoncini, a mulher resgatada no mar. Ao reencontrá-la, protagoniza uma cena erótica reveladora do quanto desejo e morte andam de mãos dadas – “porque continuo excitado em vez de sofrer?”, indaga.
Caminhada rumo ao amadurecimento, o romance constrói um retrato doloroso e ao mesmo tempo bem-humorado da fragilidade humana. Pinóquio contemporâneo abrigado em um “ventre de baleia”, o protagonista falseia a dor, escondido nas entranhas da própria cegueira. Durante três meses, Pietro vive a paralisia, enquanto tudo ao redor se movimenta: uniões, confusões, confissões. À semelhança do boneco de madeira cujo desafio é se tornar humano de verdade, termina por aprender com a filha Claudia - a quem chama de “estrelinha”, possível alusão ao clássico infantil do também florentino Carlo Collodi - uma grande lição. Mesmo vivendo o luto, vem dela um apelo ao restabelecimento de alguma ordem em suas vidas.
Há uma cena determinante a esse respeito. Em cima da trave de ginástica olímpica, Cláudia está diante do pai sentado na arquibancada de um ginásio. Ela, concentrada para realizar um salto mortal; ele, na torcida para que a filha o encare antes de fazer o complexo movimento. Antes de executar o exercício com perfeição, a garota olha, e depois gira no ar. “Não olhe para seu pai antes de saltar. Olhe para ele depois”, aconselha a professora.
O salto em direção ao desconhecido sem a mirada paterna equivale, futuramente, a se sentir pronta para ser apoiada pelo pai, mas não o seu refúgio. De dentro de seu mundo, a criança absorveu a lição antes do próprio genitor. Depois de muito se enredar por entre os elos e fios invisíveis que nos atam uns aos outros, Pietro por fim deve se deslocar em direção à vida que o espera lá fora.
STEFANIA CHIARELLI é pesquisadora e professora titular de literatura brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF). “Epigramas críticos” é uma de suas publicações mais recentes.
“CAOS CALMO”
De Sandro Veronesi
Tradução de Karina Jannini
Autêntica
432 páginas
R$ 87,90. E book: R$ 61,90
DEPOIMENTO: SANDRO VERONESI
“É o romance mais sortudo que escrevi”
Leia depoimento do escritor italiano ao Pensar sobre a nova edição de “Caos calmo”
“Caos Calmo” foi o romance mais sortudo que eu já escrevi. Sortudo por causa do título. Sortudo por causa daquele momento — estamos falando de 2005. Sortuda foi a ideia de parar um homem no centro de uma cidade e criar um grande mal-entendido sobre a sabedoria dele. Foi sortudo porque nada do que escrevi foi subestimado. Tudo, naquele momento, foi considerado importante e atual.
Vê-lo sendo publicado de novo, depois de quase um quarto de século, é um desafio. E estou realmente curioso para descobrir se o romance envelheceu ou não, depois de tantas coisas que aconteceram entre aquela época e os dias de hoje. Acho que é uma grande ocasião. É raro ter essa oportunidade.
Também é importante porque, sabe, você pode ter sorte uma vez. É difícil ter sorte duas vezes com tanta distância de tempo. Eu sempre penso que, quando tenho grandes resultados com um livro, eles são merecidos. Mas também sempre penso que pode ter sido apenas sorte. E essa segunda oportunidade, depois de mais de 20 anos, pode esclarecer se foi sorte ou não.”
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TRECHO
“Pronto, foi embora. E se o que há de podre dentro de mim – porque há, sempre houve, e eu sempre soube disso – também estivesse destinado a ir embora, então foi junto com ele, agora, há um instante. Não aproveitei minha oportunidade, não cavalgarei com os homens poderosos, mas hoje construí para mim uma recordação fenomenal. Algo tão grande que não poderei falar a respeito com ninguém. Vou me lembrar para sempre desse momento – os amontoados de neve na calçada, o cheiro de molhado no ar, as nuvens de respiração. Depois, um dia, se eu chegar a ser um homem bom, vou esquecê-lo.”