Primeira leitura: 'Fitópolis', de Stefano Mancuso
Livro se inspira na organização das plantas para propor uma transformação radical na forma como concebemos as áreas urbanas
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Prólogo
(...)
A vida urbana proporciona a nossa espécie maior funcionalidade em muitas esferas: do consumo de energia aos transportes, das escolas à assistência à saúde, das oportunidades de trabalho ao acesso à cultura, tudo num ambiente urbano funciona de forma mais eficiente. Ao mesmo tempo, nosso afastamento de nosso lar natural é a principal causa de muitos dos problemas da modernidade. Para resolver esse conflito aparentemente inconciliável entre cidade e natureza, as cidades do futuro, sejam aquelas construídas a partir do zero, sejam aquelas renovadas, precisariam reintroduzir a natureza no novo hábitat, transformando as urbes em fitópolis, cidades vivas nas quais a relação entre plantas e animais se reaproxime da relação que encontramos na natureza: 86,7% de plantas contra 0,3% de animais (incluindo humanos). Seria necessário, portanto, destinar grande parte da superfície de uma cidade às plantas – exatamente o oposto do que acontece hoje.
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Não consigo pensar em nada mais importante para o futuro da humanidade do que reajustar as relações com os demais seres vivos – em primeiro lugar, com as plantas. A relação entre humanos e plantas é uma questão complicada: diz respeito a algo cuja verdadeira essência escapa à maioria de nós, embora seja simples a ponto de poder ser descrita com apenas uma palavra: dependência. A vida animal depende da vida vegetal. Sem as plantas, qualquer vida animal seria impossível. Segundo a admirável definição de Kliment Timiriazev – botânico russo do início do século 20 –, elas são o elo entre o Sol e a Terra. Graças à fotossíntese, as plantas obtêm o resultado aparentemente milagroso de trans formar a energia luminosa do Sol em energia química (açúcares) que permite aos animais viver e se multiplicar. A fotossíntese é o verdadeiro motor da vida: água, luz e dióxido de carbono para produzir açúcares e oxigênio. Não há nada mais importante; dependemos das plantas para tudo. É sabido que elas representam a base da cadeia alimentar e que o oxigênio que respiramos provém delas. Porém, muitas vezes nos escapa que a chamada energia fóssil (como o petróleo e o carvão) envolve fósseis vegetais, e que a maioria dos princípios ativos medicinais, das fibras têxteis e dos materiais de construção (a madeira) são de origem vegetal.
Não bastasse, lembremos que as plantas são nossa casa. Literalmente.
Nossos ancestrais eram seres arborícolas – ou seja, viviam em árvores –, como ainda o são muitos de nossos parentes primatas mais próximos. Essa longa familiaridade com as copas das árvores, seus ramos e folhas, teve efeitos mais profundos do que poderíamos imaginar. Num certo sentido, nosso corpo, desde sua estrutura geral até as características que consideramos mais tipicamente humanas, é um reflexo fiel dessa gênese arbórea. A visão binocular, com olhos voltados para a frente; a diferenciação entre membros anteriores, constituídos de braços e mãos adaptados para segurar, e posteriores, constituídos de pernas e pés aptos a se locomover; a postura ereta; dedos dotados de unhas em vez de garras; marcas nas pontas dos dedos que conhecemos como impressões digitais etc., são todas modificações evolutivas para permitir aos primatas viver nas árvores, e que tiveram consequências fundamentais para nossa história.
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Quem já respondeu ao impulso atávico de subir numa árvore sabe que a copa é um ambiente onde é muito difícil se movimentar: um emaranhado de galhos complicados de ultrapassar, com galhos e ramos cada vez mais finos nas extremidades, onde fica a parte produtiva da árvore. Nessas condições, a visão binocular ajuda a calcular melhor as distâncias e a se movimentar com mais segurança; um corpo ereto e os braços preênseis permitem subir no tronco e entre os galhos; e, por fim, ter mão com dedos dotados de almofadinhas macias cobertas por impressões, protegidos por unhas, permite alcançar até os ramos mais finos onde se podem colher frutos e folhas. Graças a essas mesmas mãos, aptas para viver nas árvores, os humanos desenvolveram a capacidade de construir ferramentas.
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Grande parte do que nos torna humanos provém das árvores. Não só porque ao longo de milhões de anos nossos antepassados viveram entre suas copas, moldando seus corpos em resposta a esse ambiente verde, mas também porque graças à madeira conseguiram construir seus primeiros abrigos e ferramentas. O homem coevoluiu com as plantas e sempre viveu em ambientes onde elas representam praticamente todo o ecossistema. Em termos evolutivos, o rompimento desse vínculo é bastante recente. Até poucas décadas atrás não passávamos o tempo em frente a uma tela de computador e só há três ou quatro gerações temos salas iluminadas por luz elétrica. Antes disso, fomos agricultores ao longo de cerca de quinhentas gerações, e, ao longo de umas 20 mil gerações, caçadores-coletores intimamente conectados ao mundo da natureza e, portanto, às plantas que o constituem quase por completo. Pois bem, 20 mil gerações humanas não passam em vão.
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Essas 20 mil gerações vividas entre as plantas têm muito mais influência em nossa humanidade do que as quinhentas que transcorreram desde o início da agricultura e da civilização. Vamos pensar no verde: é dessa cor que nossa espécie é capaz de discernir o maior número de tonalidades. É bastante significativo que nossos olhos possam distinguir o verde das plantas com maior detalhe do que qualquer outra cor, como se as próprias raízes de nossa história nos mostrassem para onde dirigir o olhar, uma vez que nossa capacidade de sobreviver depende das plantas, tanto hoje como há 300 mil anos. Na realidade, embora a nossa seja uma história de relação com as plantas, de tanto nos considerarmos uma espécie não só à margem da natureza como acima dela, nós as apagamos do horizonte, tornando-nos cegos diante desse mundo do qual dependemos.
Em poucas palavras, nossa relação com as plantas não se limita à simples dependência alimentar ou energética, seja lá como se queira defini-la. Ela é muito mais profunda e implica uma intensa ação das plantas sobre todos os aspectos da nossa vida. Quando se trata de construir as cidades ou mudar o modo como as entendemos, levar em consideração as 20 mil gerações que nos precederam e para as quais a floresta foi o lar também pode se revelar crucial. Num período de mudanças tão drásticas, no qual a resistência e a capacidade de adaptação se tornam valores indispensáveis, imaginar nossas cidades como vastos organismos que vivem em comunidade com os demais seres vivos, imaginar nossas fitópolis construídas como se fossem plantas, poderia trazer enormes benefícios para nossa espécie e para o planeta.
SOBRE O AUTOR
Nascido em Catanzaro em 1965, o italiano Stefano Mancuso (foto) é formado pela Università degli Studi di Firenze (UniFI). Em 2005, fundou o LINV – International Laboratory of Plant Neurobiology, pioneiro no estudo da neurobiologia vegetal. Em 2018, recebeu o Prêmio Galileo de escrita literária de divulgação científica pelo livro “Revolução das plantas” (2019). Desde 2001, leciona no Departamento de Ciência e Tecnologia Agrária, Alimentar, Ambiental e Florestal da UniFI, sendo uma referência no estudo da relação entre plantas e tecnologia com livros com “A incrível viagem das plantas”, “A planta do mundo” e “Nação das plantas”, todos publicados no Brasil pela editora Ubu. O neurobiologista vegetal visita o Brasil para lançar “Fitópolis”, no qual se inspira na organização das plantas para propor uma transformação radical na forma como concebemos as áreas urbanas e apresenta o conceito de “cidades vivas” como estratégia concreta para enfrentar a crise climática e aproximar novamente os humanos das espécies vegetais. Depois de compromissos no início da próxima semana no Sesc e na Feira do Livro, em São Paulo, o escritor italiano estará em Inhotim no sábado (6/6), às 10h30, para participar do Seminário Internacional Transmutar, dentro da programação da 22ª Semana do Meio Ambiente. Os ingressos podem ser retirados na plataforma Sympla.
“FITÓPOLIS”
De Stefano Mancuso
Tradução de Regina Silva
Ilustração de Mariana Zanetti
Ubu Editora
208 páginas
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