LITERATURA

Em 'O aniversário', Andrea Bajani expõe o inferno doméstico de uma família

Confirmado na Flip, italiano narra de forma austera as consequências de opressão familiar marcada pelo autoritarismo do pai e a submissão da mãe

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Como transformar o silêncio em palavras? A resposta está em “O aniversário”, de Andrea Bajani. Vencedor do Prêmio Strega 2025, a mais importante premiação literária da Itália, o romance narra a história de uma opressão familiar de forma contida, muitas vezes distanciada, sem nenhuma concessão a sentimentalismo. “Todo tipo de reconstrução que posso fazer é matéria para romance”, avisa o narrador, ao se referir a um ambiente de tensão entre quatro paredes que perdurou por quarenta e um anos, “dia após dia” e o fez se afastar dos pais: “Por anos, escolhi a distância. A geografia sempre foi a margem de toda disfunção familiar.” 

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Nascido em Roma em 1975, Bajani já escreveu dez romances e também peças de teatro e poesia. Lançado no Brasil pela Companhia das Letras com tradução de Iara Machado Pinheiro, “O aniversário” reconstitui a vivência do narrador entre os anos 1980 e 1990, na capital italiana e em uma pequena cidade do Norte do país, marcada pelo autoritarismo do pai e pela resignação de uma mãe jamais nomeada e de comportamento “mais inclinado à aceitação do que à demanda, à submissão do que à firmeza, a justificar-se do a pedir algo a alguém”. 

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“Bejani explora como ninguém os lugares onde nos descobrimos, onde amamos, onde sofremos e onde, por fim, nos tornamos quem somos”, afirma o italiano Sandro Veronesi. O autor do best seller “O colibri” tem razão. “O aniversário” não deixa de ser o romance da formação de um jovem inconformado com o que acontece na sua casa, imersa em uma zona de sombras, envolta em um “silêncio denso”determinado por um pai que “tinha necessidade de assustar para se sentir amado” e fez da sensação de ameaça uma presença cotidiana. 

As cenas de violência psicológica sofridas pela mãe e as reações do filho são descritas de forma austera e seca, como se o sul-africano J.M. Coetzee narrasse uma história da família do francês Édouard Louis. Na contenção, “O aniversário” ganha força e extrai de um drama recorrente a matéria-prima da literatura. “É com a escrita, golpeando, palavra por palavra, o monolito de uma memória familiar ocupada inteiramente por ele, consiga extrair a minha mãe da rocha. Acessar, por meio da invenção, aquilo que a lembrança não contém é precisamente a força brutal do romance.” 

A decisão do filho de fugir do “inferno doméstico” e se afastar definitivamente dos pais (“reivindicação de uma absoluta solidão”) é amadurecida depois de uma agressão intolerável. “Entrepor quilômetros, demandar que o espaço – e portanto o tempo, porque o convívio fica evidentemente diluído – me defendesse. E, para o resto, entregar-me ao inevitável, ou seja, à vida que me foi dada pelo acaso”, narra. O distanciamento é sacramentado após a data festiva mencionada no título. No romance de Bajani, no entanto, o aniversário não é uma celebração, mas o estopim de uma tentativa de alcançar a libertação por meio da ruptura e formalizada por meio da escrita. “Não importa agora se realmente aconteceu ou não, é o começo do romance”, avisa, no segundo capítulo. 

“O ANIVERSÁRIO”

De Andrea Bajani

Tradução de Iara Machado Pinheiro

Companhia das Letras

144 páginas

R$ 69,90

TRECHO 

“Esse livro é para sua mãe” sempre significou, nas palavras pronunciadas por ele, que um romance não valia nada. Nessa afirmação existia também uma espécie de afeto. Tratava-se de um afeto específico, perverso, sincero e violento, que garante, ou que sustenta, a afirmação de um domínio. Inserir o romance em questão na biblioteca da casa, que ele construía dia após dia como um diligente autodidata, era outra concessão que fazia a ela. Mas decretar que um livro era para minha mãe queria dizer principalmente que o lugar mais adequado era a lixeira.”

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Representante italiano na próxima edição da Flip 

Autor de “O aniversário”, Andrea Bajani teve a presença confirmada na programação oficial da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 22 a 26 de julho, na cidade histórica do Rio de Janeiro. O romancista italiano se junta a outros nomes como o guatemalteco Eduardo Halfon, a argentina Julieta Corrêa, o argelino Kamel Daoud e a alemã Carmen Stephan. Os brasileiros confirmados até agora são o poeta Leonardo Gandolfi e as escritoras Andrea del Fuego, Bethânia Pires Amaro e Paulliny Tort. Em sua 24ª edição, a Flip tem curadoria de Rita Palmeira e a poeta Orides Fontela como autora homenageada.

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