O desafio de traduzir o livro explosivo de Goliarda Sapienza
Tradutores narram a aventura de trazer para a língua portuguesa 'A arte da alegria', livro que levou nove anos para ser concluído
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Valentina Cantori e Igor de Albuquerque - Especiais para o Estado de Minas
Escrever “A arte da alegria” foi a principal atividade de Goliarda Sapienza por quase dez anos. Além do tempo da escrita – de 1967 a 1976 –, mais vinte anos se passaram em tentativas para publicá-lo. O livro não atendia às expectativas editoriais: extenso demais, muito experimental, muito tradicional, fortemente erótico, excessivamente ambíguo, dentre outras evasivas injustificáveis – só depois de 2005, quando foi descoberta por uma editora francesa, a autora viraria um sucesso mundial.
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O romance acompanha a turbulenta trajetória de Modesta, narradora que se constrói, ou melhor, que constantemente se reconstrói à medida que é arrastada pela voragem dos acontecimentos. Experiências pessoais e fatos históricos se entrelaçam: percorrendo a vida da protagonista – Modesta nasce no dia primeiro de janeiro de 1900 –, nos deparamos com o desenrolar dos eventos que transformaram drasticamente o mundo e sua percepção durante as décadas seguintes: revoluções tecnológicas, duas guerras mundiais, o fascismo, os assassinatos políticos, as lutas das mulheres e suas conquistas sociais e políticas.
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O livro se inicia com uma Modesta ainda menina, arrastando um pedaço de madeira em um espaço lamacento, antes de encontrar Tuzzu, com quem tem sua primeira experiência sexual, e termina com a personagem aos sessenta anos, surpresa diante de sua última descoberta. Ao longo dos 95 capítulos, ela é abusada na infância, vira noviça, é adotada pela aristocracia local, engaja-se na luta política contra o fascismo e vai formando uma família que destoa dos moldes da época; um arranjo que até hoje, nestes dias de conservadorismo, é dissidente.
Imersa em um amálgama de experiências contraditórias, Modesta oscila sempre entre os extremos — miséria e bonança, convento e palacete, cárcere e liberdade —, e, se há uma constante nessa saga, ela está em sua capacidade de se metamorfosear, abarcando a vida de múltiplas formas sempre a partir do desejo, igualmente múltiplo. Muitos são os personagens com quem se relaciona, sejam eles do sexo feminino ou masculino, jovens ou maduros, mais ou menos poderosos do que ela. Diferentes em cada caso, são vínculos que se furtam a moldes pré-definidos. Outra faceta, portanto, do que é ser livre.
No estilo, inclusive, pois a voz de Modesta é inconfundível, até na estranheza. O romance mostra uma sintaxe inusual: por vezes densa e labiríntica, cheia de saltos e soldas improváveis, incluindo repetições, elipses e oscilações repentinas – por exemplo, da primeira pessoa se passa bruscamente à terceira para o mesmo referente.
Não surpreende que um livro tão complexo traga sua cota de problemas para os tradutores. Além da sintaxe, que tantas vezes subverte o uso convencional da língua, a riqueza vocabular implicada no uso do siciliano foi uma questão central do nosso trabalho.
O dialeto transmite ancestralidade, palavras da geografia local, ecos da tradição popular, memórias pessoais e falas familiares. Na maioria das ocorrências, escolhemos termos brasileiros que sugerissem sensações correspondentes e que caracterizassem a voz de certas personagens. Por exemplo, no caso da palavra “guria”, que traduz o siciliano “picciridda”, para restituir um termo marcadamente siciliano, optamos por uma palavra brasileiríssima (do tupi), que é usada em várias regiões do país, com algumas nuances; “pequena”, “mocinha” ou “pequerrucha” não teriam o mesmo frescor. Ou quando traduzimos “velluta”, que designa prostituta, por “quenga”, palavra que tem origem no quimbundo e faz parte do vocabulário popular nacional.
Modular as vozes das personagens foi outra questão fundamental, pois é bom lembrar que, antes de se tornar escritora, Sapienza foi uma mulher de teatro e de cinema. Há longas cenas compostas apenas por diálogos e, para que esses trechos funcionem em português, é preciso reproduzir a naturalidade e a fluidez das falas, o que envolve cálculos delicados.
E há ainda a poesia. O estilo de Sapienza (que iniciou seu percurso literário como poeta) é movido por um lirismo vulcânico, concebido entre altas temperaturas, explosões em cadeia, excessos, rochas ígneas – não esqueçamos que o Etna está no horizonte assim como a história, que é experimentada através de uma perspectiva poética eruptiva. A força da escrita vem daí: do magma que escorre e vai arrastando o que encontra pela frente – a vida, a natureza, a beleza –, do perigo e da atração, do risco que corremos enquanto lemos esse extraordinário romance; à sombra do vulcão, veremos o mundo de outra forma.
VALENTINA CANTORI E IGOR DE ALBUQUERQUE são os tradutores da edição brasileira de “A arte da alegria”
“A ARTE DA ALEGRIA”
De Goliarda Sapienza
Tradução de Valentina Cantori e Igor de Albuquerque
Autêntica Editora
648 páginas
R$ 119,80. E book: R$ 83,90
“ERRO IMPERDOÁVEL COMETIDO COM UMA OBRA-PRIMA”
“Considero ‘A arte da alegria’ uma obra-prima, e foi o erro mais imperdoável cometido pelo mercado editorial italiano. Se tivesse sido publicado em 1976, quando Goliarda terminou sua escrita, em vez de vinte anos depois, minha geração teria tido uma juventude melhor.”
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Sandro Veronesi, autor de “O colibri”