LITERATURA

Leia trecho do posfácio para 'Antes e depois', de Alba de Céspedes

Texto da tradutora Francesca Cricelli está na reedição do livro lançado originalmente em 1955 por uma das principais escritoras italianas do século 20

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Francesca Cricelli - Especial para o Estado de Minas

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“As versões de uma mesma mulher”

“Antes e depois” é uma obra de difícil catalogação. A meio caminho entre o conto longo e o romance breve, é uma pequena joia dentro da bibliografia de Alba de Céspedes. O aspecto formal que justamente dificulta defini-la se reflete na própria história editorial do texto: concebido para integrar uma coletânea de contos, foi interpretado pelo editor como um romance breve e acabou, em razão disso, sendo publicado em 1955 não na coletânea a que se destinava inicialmente, mas sim como história autônoma, merecendo um volume próprio. O título já revela que o romance gira em torno de um momento de tomada de consciência ou revelação. “Antes e depois” evoca um evento que muda tudo, do qual não se pode voltar atrás. 

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Neste caso, o antes é o de uma mulher livre (ou que se presume como tal), a protagonista Irene, narradora que nos faz adentrar neste evento que separa a consciência anterior e posterior ao fato. Irene é uma pessoa nascida no privilégio e durante sua vida tentou libertar-se das típicas amarras que costumavam constringir as mulheres no pós-guerra europeu, amarras que até hoje limitam a vida de mulheres em diversas partes do mundo. De fato, para além da circunscrição geográfica e temporal, essa é uma história que ressoa no tempo atual e que nos apresenta à grande destreza da escrita de Alba de Céspedes. 

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Irene trabalha, renuncia ao casamento, tem um amante e não participa da vida mundana da forma como se espera dela. Mora sozinha, ganha a vida como escritora e cuida dos afazeres domésticos com a ajuda da empregada Erminia. E a causa desencadeadora do antes e depois é justamente a escolha de Erminia em pedir a demissão ou, no entendimento da protagonista, abandoná-la para voltar a trabalhar para uma mulher da nobreza que a tratava muito mal. A protagonista-narradora já conquistara aquilo pelo qual outras personagens da autora lutam: tem profissão própria, independência financeira, vive só e mantém um amante sem compromisso matrimonial. Não precisa libertar-se, pois já é livre. Mas é justamente essa liberdade que se revela um fardo quase insuportável quando confrontada com a escolha de Erminia, que prefere a clareza da submissão à inquietude da autonomia. Assim, o romance interroga não apenas a condição feminina na Itália do pós-guerra, mas também a própria natureza da liberdade como responsabilidade existencial. 

“Antes e depois” diferencia-se dos dois romances anteriores de Alba de Céspedes, pois de fato não se trata nem de um romance de memórias (como “Na voz dela”), tampouco de um diário (como “Caderno proibido”). O livro é um relato no qual a protagonista Irene evoca suas memórias sem obedecer a um sentido lógico, na tentativa de formar um percurso que a levou a se estabelecer numa vida de conforto e independência, algo que era almejado. A escrita desempenha um papel importante na vida de Irene; afinal, ela é uma jornalista, e é mediante a sua escrita (o relato que é narrado no próprio romance) que nós, leitoras, testemunhamos aquilo que talvez possa ocorrer no fim de uma análise, quando caem certas idealizações sobre si e sobre os outros e é necessário que se continue, que se siga adiante após a queda. Assim, chega-se a uma consciência que não extirpa nem o sofrimento nem a falta de sentido intrínsecos à vida. 

Irene não é afetada pelo mutismo, não tem as dificuldades de Alessandra (“Na voz dela”) e de Valeria (“Caderno proibido”) em comunicar-se. Aliás, não tem dificuldade de se comunicar com seu companheiro, com o qual se expressa de modo honesto e aberto, sem mentiras e sem ocultar os próprios pen-samentos, mas ainda assim não consegue impedir um bocado de mal-entendidos. Segundo a pesquisadora Antonia Virone, Irene parece representar um novo modelo de mulher, uma variante desenvolvida a partir de Mirella (filha da protagonista de “Caderno proibido”) e de Denise (a partisã de “Na voz dela”), ou seja, um modelo contraposto ao das outras protagonistas e de outras figuras femininas do próprio romance “Antes e depois”. Seria Irene, em certo sentido, a “evolução”de Alessandra e de Valeria? E, caso a resposta seja positiva, em que consistiriam essa evolução e essa superação? Se por um lado uma crescente autonomia e consciência de si parece amparar a protagonista-narradora, por outro não elimina a inescapável condição humana composta pelas diversas quedas ao longo da vida, pela própria finitude e pela característica escorregadia do desejo. 

(...) 

O título em italiano, “Prima e dopo”, demarca o antes e o depois de uma tomada de consciência irreversível, aquele momento em que a inocência é perdida e já não é mais possível retornar à felicidade do não saber. Talvez seja este o “furo”mais interessante pelo qual escapa então a consciência de Irene, que parece se dar conta de sua solidão e dos cuidados de Erminia somente a partir da ausência da empregada doméstica. 

FRANCESCA CRICELLI é tradutora, poeta e pesquisadora, com doutorado em Literaturas Estrangeiras e Tradução pela Universidade de São Paulo

“ANTES E DEPOIS”

De Alba de Céspedes

Tradução de Francesca Cricelli

Bazar do Tempo

136 páginas

R$ 74

“ENTRE A FELICIDADE E A RAZÃO” 

“Gostaria que, ao ler o livro, os leitores percebessem que, na vida de cada pessoa, como na de Irene e Pedro, e na de Erminia, há um momento em que um acontecimento, um amor, um encontro, enfim, algo nos dá a oportunidade de nos questionarmos sobre certas coisas e de tentarmos compreendê-las, dando-nos, assim, a possibilidade de nos tornarmos adultos não apenas em termos de idade. E que alguns aproveitam essa oportunidade, enquanto outros acham mais conveniente não a perceber. Pois ela representa a escolha entre o mundo das paixões, dos instintos e das ideias. Entre a felicidade e a razão.” 

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Alba de Céspedes (1911-1997), sobre “Antes e depois”, em texto publicado na edição brasileira, com tradução de Francesca Cricelli

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