Literatura

Livro de Henrique Samyn relata a jornada de um negro brasileiro no Japão

Distante dos relatos de viagem convencionais, 'Diário negro de Tóquio' abre a coleção 'Falar o mundo', que comemora os 45 anos da Mazza Edições

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A Mazza Edições, de Maria Mazzarello Rodrigues, comemora seus 45 anos com o lançamento da coleção “Falar o mundo”, neste sábado (23/5), no Espaço Comum Luiz Estrela, em Belo Horizonte.

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A editora publica também nova edição de “O homem azul do deserto”, sete anos depois do primeiro lançamento do livro de crônicas de Cidinha da Silva, que aborda o cotidiano brasileiro a partir do humor, da empatia e de críticas sociais.

O primeiro título da coleção “Falar o mundo”, coordenada por Fabiana Carneiro da Silva, é “Diário negro de Tóquio”, de Henrique Marques Samyn. O autor relata a viagem realizada em 2023, quando foi convidado para ministrar aulas de literatura negra na Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio (Tufs). A partir disso, Samyn reflete sobre sua vivência como homem negro no Japão, traçando paralelos com a própria infância, quando descobriu a leitura e a escrita.

O convite para a viagem partiu de Chika Takeda, tradutora e professora da Tufs. Henrique integra projeto ao lado de sua anfitriã que dará origem à antologia bilíngue com textos de escritores e escritoras negras do Brasil traduzidos para o japonês.

Samyn conta que se sentiu inseguro sobre como seria recebido em Tóquio, mas ficou surpreso com o acolhimento por parte dos alunos. “Eles tinham muitas referências sobre o que eu falava. Sabiam quem era Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e outros autores”, lembra.

O respeito com que foi tratado nas aulas trouxe reflexões sobre as experiências negativas vividas por ele no Brasil. “Aqui, quando sou chamado para falar sobre literatura negra, muitas vezes as pessoas me recebem com paternalismo, condescendência. É aquela coisa de chamar pela cota, para não pegar mal fazer evento só com pessoas brancas. Me colocam lá para falar de literatura negra, fingem que estão levando a sério, mas sei que não estão”, observa.

Diferentemente do clima na academia, Henrique revela o sentimento “ambíguo” em relação ao modo como foi tratado na capital japonesa. Sentiu-se bem recebido, mas estranhou a ausência de pessoas negras em espaços de Tóquio.

Não brancos

Em um dos primeiros capítulos do livro, descreve a experiência dele e da mulher, Aiko, descendente de asiáticos, como os únicos não brancos em uma seção do aeroporto.

Depois, narra a primeira vez em que se deparou com outra pessoa negra durante a viagem. Descreve o encontro com nigerianos, frequentemente associados à criminalidade no imaginário japonês, e reflete sobre as formas de racialização presentes naquele país asiático.

“Eles (nigerianos) são associados a criminosos, mas não os vejo assim. São pessoas que estão tentando sobreviver. Não me vejo diferente deles”, diz.

Ao mesmo tempo, Henrique Samyn questiona se sua percepção seria diferente caso tivesse permanecido mais tempo no Japão. “Talvez não tenha sentido hostilidade porque fiquei lá só uma semana, talvez por ser 'lido' como turista. Se morasse lá, minha experiência seria diferente?”, pondera.

O escritor também cita o avanço recente da extrema direita no país, com a ascensão da primeira-ministra Sanae Takaichi, e questiona se, ao visitar o Japão hoje, teria experiência diferente daquela de 2023.

Os registros do escritor começaram ainda no país asiático. Enquanto circulava por Tóquio, fazia anotações dispersas. Passou a escrever tankas, poemas curtos japoneses que abrem capítulos do livro e também surgem ao longo da narrativa.

Parte do material foi publicada em outubro de 2023, em crônica na revista Piauí, mas o restante ficou engavetado. A ideia do livro surgiu no fim do ano passado, quando Fabiana Carneiro da Silva o convidou para a nova coleção da Mazza.

Caminho pessoal

Durante a organização final do livro, Henrique percebeu que a narrativa precisava voltar à própria origem. Faltava explicar o caminho percorrido até Tóquio como escritor e professor convidado.

“Quando comecei a rascunhar o livro, fui sentindo que faltava alguma coisa que resgatasse esse percurso. Como cheguei lá? Como o menino negro se torna escritor negro, professor negro, para receber o convite e o livro nascer?”, revela.

O olhar racializado e as lembranças da infância na Praça Seca, região do Rio de Janeiro marcada pela disputa entre milícia e tráfico, distanciam o livro do relato de viagem convencional. “O diferencial é que estou passando por aqueles lugares sendo uma pessoa negra. Estou olhando lugares a partir do corpo negro que habito. Jamais aquele menino negro que nasceu na Praça Seca sonharia ir para Tóquio”, afirma.

MAZZA: 45 ANOS

Lançamento dos livros “Diário negro de Tóquio” e “O homem azul do deserto”. Sábado (23/5), das 10h às 14h, no Espaço Comum Luiz Estrela (Rua Manaus, 348, São Lucas). Os autores participarão de bate-papo e sessão de autógrafos. Entrada franca.

“O HOMEM AZUL DO DESERTO”

• De Cidinha da Silva
• Mazza Edições
• 112 páginas
• R$ 62


“DIÁRIO NEGRO DE TÓQUIO”

• De Henrique Marques Samyn
• Mazza Edições
• 112 páginas
• R$ 62

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* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria

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livro racismo toquio

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