ARTES CÊNICAS

Peça que teria Teuda Bara estreia com homenagem à atriz

‘Viagem pela noite de Minas’ trata da prisão da alemã Judith Malina em Ouro Preto; atriz mineira leria trechos de seu diário. Peça estreia nesta sexta (22/5)

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“Aqui estou na minha cela. Não sinto desconforto. Se sentisse, iria queixar-me? Mas não sinto e posso ser franca. O rádio toca Tchaikovsky... Tento lembrar o que aconteceu, o que está acontecendo. E tento não pensar no que acontecerá.” Datado de 9 de julho de 1971, esse trecho integra o diário da atriz e diretora Judith Malina (1926-2015).

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Naquele período, ela e o marido Julian Beck (1925-1985), fundadores do grupo nova-iorquino The Living Theatre, estavam presos no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em Belo Horizonte. A acusação era posse de maconha.


“Essa diretora revolucionária, anarquista, é uma escritora branda, quase doce. Ela não bota o dedo na ferida. E a gente sabe que o Brasil de 1971 estava nos anos de chumbo. Como assim?”, questionou-se o ator e dramaturgo João Santos, ao ler “Diário de Judith Malina – O Living Theatre em Minas Gerais”, publicado em 2008 pela Editora UFMG.


A partir desta interrogação – e de todos os desdobramentos do diário, que veio a público primeiramente pelo Estado de Minas, em 1971 –, nasceu o espetáculo “Viagem pela noite de Minas”. Com estreia nesta sexta (22/5), no Teatro Francisco Nunes, a montagem tem dramaturgia de Eduardo Moreira, João Santos, Marina Viana e Jean Gorziza. Moreira, ator e diretor do Grupo Galpão, dirige a peça, que tem os outros três artistas no palco.


O espetáculo é uma homenagem a Judith Malina, mas também a Teuda Bara (1941-2025). A atriz e cofundadora do Galpão participou do início da montagem. Na concepção original de “Viagem pela noite de Minas”, ela leria trechos dos diários em cena. “A Teuda estava muito animada”, conta Moreira. “Quando ela nos deixou, reescrevemos a dramaturgia toda.”


Na história, dois pesquisadores (João Santos e Jean Gorziza), tentando compreender os acontecimentos com o Living Theatre mais de 50 anos atrás, chegam a um teatro abandonado. No espaço, encontram uma entidade (Marina Viana). Em alguns momentos, tal personagem encarna a própria Judith Malina. A figura de Teuda é também relembrada na história.


Rebeldia

João Santos, autor da biografia “Teuda Bara: Comunista demais para ser chacrete” (2016), comenta que o projeto alinha “duas figuras associadas a grupos teatrais e a um tipo de rebeldia”. Para Moreira, a peça une três gerações de atrizes (Malina, Teuda e Marina), “marcando o teatro como um lugar de reflexão, pensamento e contestação”.


Em 1971, o Living Theatre passou uma temporada em Ouro Preto fazendo um trabalho com jovens. Não demorou a incomodar os conservadores da cidade. “Maconheiros e pervertidos” eram como os atores do grupo eram chamados nos sermões das missas dominicais da cidade histórica.


O Festival de Inverno da UFMG recebeu do grupo uma proposta para montar o espetáculo “O legado de Caim”. Poucos dias antes do início da quinta edição do festival, Malina, Beck e os demais integrantes do Living Theatre foram presos e encaminhados ao Dops. Foram soltos dias mais tarde e presos novamente pouco depois. Ao todo, foram quase dois meses nos porões do prédio da Avenida Afonso Pena.


O Living Theatre só deixou o país em agosto, quando o então presidente, o general linha-dura Emílio Garrastazu Médici, os expulsou por meio de decreto. Naquela altura, o barulho já tinha sido enorme. Um abaixo-assinado pedindo a libertação dos atores teve como signatários Jean-Paul Sartre, Michel Foucault, Mick Jagger e Yoko Ono, entre outros.


“O espetáculo é sobre o espírito rebelde do teatro e toca no assunto da ditadura militar, período infame do Brasil que está em voga especialmente por conta de pessoas que querem apagar o nosso passado”, comenta Moreira.


Depois da temporada de estreia, “Viagem pela noite de Minas” será apresentado em julho, no antigo prédio do Dops, atualmente o Memorial dos Direitos Humanos, como parte da programação do Festival de Inverno da UFMG. A edição do evento de 1993, na época ainda em Ouro Preto, homenageou Malina, que retornou a Minas Gerais 22 anos depois da prisão.

Teuda Bara
Foto de Teuda Bara que será utilizada em homenagem à atriz na vitrine “Viva Teuda Bara”, na fachada do Teatro Marília Eugenio Savio/Divulgação

 

Homenagem no Marília

O Teatro Marília homenageia a trajetória da atriz Teuda Bara, com a exposição “Viva Teuda Bara”, que será aberta no sábado (23/5), às 14h. O projeto é do jornalista João Santos.

“Tendo a pensar nela como uma atriz que rompe a cena não só no palco, mas que estava nas ruas, nas praças, desfrutando a vida como ela amava”, diz ele. Na vitrine, só a imagem de Teuda – um totem criado a partir da fotografia de Eugênio Sávio publicada nesta página – será colorida.

Todo o resto, cinco imagens que remetem às coisas que ela amava na vida, será em preto e branco. “A Alfredo Balena, próxima ao Hospital João XXIII, é um lugar de muita gente que passa normalmente distraída. E a Teuda fazia teatro na vida, no dia a dia. Ela não passava despercebida, despertava a gente do transe cotidiano”, diz Santos.

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“VIAGEM PELA NOITE DE MINAS”
O espetáculo estreia nesta sexta-feira (22/5), às 20h no Teatro Francisco Nunes – Parque Municipal (Avenida Afonso Pena, 1.321, Centro). Temporada às sextas, 20h; sábados, às 18h e às 20h, e domingos, às 18h. Até 31/5. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia), à venda na bilheteria e no Sympla.

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