A violência contra as mulheres está longe de ser um fenômeno recente, mas tem ganhado novas dimensões na era digital. Esse é o tema da palestra que a socióloga, cientista política e pesquisadora Bruna Camilo ministra pelo programa Sábados Feministas, neste sábado (11/4), às 10h, na Academia Mineira de Letras (AML).
Dedicada aos estudos sobre questões de gênero e misoginia desde sua graduação na UFMG, entre 2012 e 2017, ela aprofundou, durante o doutorado pela PUC-Minas, entre 2019 e 2023, a investigação acerca da radicalização dos discursos de ódio no ambiente virtual. Os resultados dessa pesquisa embasam a palestra, intitulada "Violência contra as mulheres: misoginia e ódio nas redes sociais".
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"Minha orientadora, Alessandra Chacham, que já seguia blogs misóginos, me propôs essa pesquisa, uma pauta importante e até então inédita. No final de 2020, quando iniciei de fato a pesquisa, pouquíssimas pessoas falavam disso no Brasil", diz. Ela observa que, naquele momento, a misoginia apresentava uma clara perspectiva de aumento.
"Segui essa lógica, pensando que, com a celeridade da internet no mundo, haveria uma radicalização e um fortalecimento da extrema direita que resultaria num recrudescimento do discurso misógino. A violência e o ódio nas redes têm efetivamente se exacerbado desde então", afirma.
Observação direta
A partir da pesquisa, que incluiu a observação direta de grupos em plataformas como o Telegram, ela aponta para a existência de espaços digitais que operam como verdadeiros ecossistemas de reprodução de violência simbólica. Bruna conta que, durante o desenvolvimento da tese, focou também em blogs e plataformas que já não existem mais.
"Hoje temos que estar atentos a canais do YouTube, onde homens que se autointitulam 'coachs', vendem cursos com conteúdos misóginos, que também aparecem no Discord, um plataforma de chat com jogos on-line; no X, antigo Twitter; e até no próprio Instagram, porque as big techs têm autorizado, têm afrouxado suas políticas de restrição e permitido que esses discursos aconteçam", afirma.
Ela entende que tais plataformas e redes sociais são, hoje, as principais formadoras de opinião para pessoas jovens, que já nasceram em contato com a tecnologia. "As big techs ditam nosso vocabulário, o que comemos, o que vestimos, como nos comportamos. O que tem que ser questionado é o que interessa a elas que chegue às nossas mãos", diz.
Bruna conta que o mais chocante é a naturalização dos discursos de ódio em grupos virtuais. Os homens, ela diz, se sentem no direito de planejar atos de violência contra as mulheres por se sentirem revoltados quando elas não adotam uma postura de submissão.
"Quando uma mulher diz não, o homem se acha no direito de matar essa mulher, se sente autorizado a cometer um crime com o argumento de que está fazendo justiça, porque sua masculinidade foi ofendida", ressalta. Ela também se diz chocada com a forma como a misoginia tem se alastrado entre adolescentes na faixa dos 13 e 14 anos.
"Meninos da geração Z dizem que as mulheres têm, sim, que ser submissas. Eles são mais conservadores do que a geração dos nossos avós. Nossos meninos jovens estão conservadores e radicalizados na misoginia. Precisamos compreender a influência das redes sociais e das big techs na vida deles", diz.
Atuação estratégica
Bruna acredita que o enfrentamento à violência de gênero passa, hoje, por uma atuação estratégica que articule educação, políticas públicas e letramento digital. Nesse sentido, ela defende a necessidade de ampliar o debate sobre masculinidades, especialmente no ambiente escolar e nas dinâmicas de socialização mediadas pela internet.
"É importante abordarmos a relação da masculinidade e da educação, tanto no campo geral quanto no digital, ou seja, compreender como a formação dos jovens impacta diretamente a reprodução da violência contra meninas e mulheres", destaca.
Ao evidenciar os vínculos entre cultura digital, formação subjetiva e práticas de violência, a pesquisadora chama a atenção para a urgência de políticas que não apenas respondam às consequências, mas atuem nas raízes do problema, onde o ódio é cultivado, compartilhado e normalizado.
"Temos que valorizar as políticas que existem, que protegem e são importantes, como a Lei Maria da Penha. A Câmara dos Deputados enterrou o PL da Misoginia, mas existem políticas públicas de punição, só que é preciso ir além, pensar na educação dos nossos meninos sobre consentimento e direitos das mulheres. A punição é importante, mas como as big techs podem ser punidas? Isso tem que ser questionado, porque são elas que estão colocando esses perfis no ar", diz.
O projeto Sábados Feministas é uma iniciativa da AML em parceria com o movimento Quem Ama Não Mata e acontece no âmbito do "Plano Anual Academia Mineira de Letras – AML (PRONAC 256536)", previsto na Lei Federal de Incentivo à Cultura
"Violência contra as mulheres: misoginia e ódio nas redes sociais"
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Palestra com a socióloga, cientista política e pesquisadora Bruna Camilo, pelo programa Sábados Feministas, neste sábado (11/4), às 10h (portões abertos às 9h30), na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1.466, Lourdes)
Entrada gratuita.
