Entre as inúmeras qualidades da obra de Paulo César Pinheiro, compositor, letrista, poeta e escritor carioca, está a facilidade em ser brasileiro. Tal observação vem de Dori Caymmi, um de seus maiores e mais constantes parceiros. “Ele consegue falar como pernambucano, como cearense, como baiano, como carioca, como mineiro.”
Dori, e mais uma pá de grandes – Ivan Lins, Francis Hime e Lenine entre eles – celebram um dos mais prolíficos, se não o mais, letristas do país em “Paulo César Pinheiro: O poeta de todos nós”. Fotobiografia de Júlio Diniz, o livro reúne imagens e histórias de uma trajetória iniciada há mais de 60 anos.
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Pinheiro, que completa 77 anos em 28 de abril, tinha apenas 13 quando realizou sua primeira parceria. Fez a letra para a valsa “Viagem”, do violonista João de Aquino, que ganhou voz quando gravada por Marisa Gata Mansa. Foi a partir de Aquino, que o garoto foi apresentado a Baden Powell. A partir daí, o mundo se abriu.
“Fiz uma estimativa de 2,3 mil músicas (cerca de 1,5 mil gravadas). Paulinho também é músico, ou seja, compõe melodia. É alguém que sabe fazer muito bem o diálogo entre o som e a sílaba, entre música e palavra. E trabalhou com um número absurdo de grandes compositores, de Pixinguinha até a nova geração”, destaca Júlio Diniz, professor dos departamentos de Letras e Artes da Cena e de Comunicação da Puc-Rio.
O autor já assinou fotobiografias de Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi e Clara Nunes. “Chegou a hora de homenagear um autor vivo”, acrescenta Diniz. Para o projeto, ele preferiu não falar com Pinheiro. “Ele ia dizer que não precisava, que não tem mais nada o que falar”, explica o autor. Mas o acervo do homenageado foi aberto para Diniz.
Filha de Pinheiro, a cavaquinista Ana Rabello fez a pesquisa de imagens ao lado do pesquisador Rodrigo Alzuguir – este responsável também pela linha do tempo. Autora de “A letra brasileira de Paulo César Pinheiro” (2009), Conceição Campos assina um texto biográfico.
O livro apresenta ainda uma entrevista ping pong com a compositora e cavaquinista Luciana Rabello, mulher de Pinheiro, e seus dois filhos, a supracitada Ana e Julião Pinheiro, cantor e compositor. Diniz também reuniu letras, fez um inventário dos livros e discos, e destacou depoimentos de artistas.
Maria Bethânia fala sobre “Carta de amor”, sua parceria com Pinheiro. “Quando lhe mostrei o que escrevi, ele só disse: ‘Não mexo uma vírgula’. Fez todos os refrões que transformaram aquelas palavras em música.
Mônica Salmaso chama a atenção para a impossibilidade de “entender a amplitude da canção brasileira sem passar pela obra de Paulo César Pinheiro”. João Camarero começa seu depoimento contando que no primeiro encontro, o letrista lhe falou: “Não me venha com poucas. Eu gosto de muito”. A partir disso, deram início a uma série de parcerias.
COMPOSITOR ILUMINADO
Para Diniz, Pinheiro é, acima de tudo, um operário da canção. “Ele não é um aristocrata, um compositor iluminado. Ele trabalha todos os dias. Outro ponto raro é a generosidade dele. Ele recebe jovens e cria parceria com eles. Atravessa 50, 60 anos de parcerias, desde mais tradicionais, com Tom Jobim, Pixinguinha e Garoto, até os mais jovens, nunca se colocando no lugar de mestre, mas de parceiro.”
Como é próximo de Pinheiro há muitos anos, Diniz já conhecia bem sua trajetória. Mas se surpreende com o prazer com que ele tem pela leitura. Ainda que seja a canção a produção mais prolífica e conhecida de Pinheiro, ele é também prosador, contista, romancista e dramaturgo. “O Paulinho autor é produto do Paulinho leitor. Desde cedo, tinha uma atração enorme pelo papel e pela escrita. O primeiro mundo dele é o dos livros. Depois é que virou o mundo da rua, da boemia e do samba”.
Doze anos mais velho, foi Baden quem apresentou a boemia à Pinheiro. A aproximação com o samba – ao lado de João Nogueira, foi um dos idealizadores do Clube da Samba – o levou a se aproximar também de Clara Nunes. Os dois se casaram em 1975 e Pinheiro tornou-se o principal compositor da mineira, como seu diretor artístico. Ficaram juntos até a morte prematura dela, em 1983.
Diniz elenca algumas obras-primas de Pinheiro: “Desenredo” (com Dori Caymmi) e “Leão do Norte” (com Lenine) são duas delas. “Mas uma que me toca profundamente é ‘Matita Perê’. Ali você tem a música de Paulinho e Tom Jobim em diálogo com ‘Grande sertão: Veredas’ e outras obras de Guimarães Rosa”, finaliza.
"PAULO CÉSAR PINHEIRO: O POETA DE TODOS NÓS" De Júlio Diniz. Numa Editora, 194 páginas. R$ 140.
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“PAULO CÉSAR PINHEIRO: O POETA DE TODOS NÓS”
De Júlio Diniz. Numa Editora, 194 páginas. R$ 140.
