O ano em que Guimarães Rosa e Fernando Sabino lançaram suas obras-primas
Escritores marcaram a literatura brasileira em 1956 com os lançamentos de 'Grande sertão: veredas' e 'O encontro Marcado'
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Afonso Borges - Especial para o Estado de Minas
A literatura de Minas Gerais vive, em 2026, um raro momento, no qual o sertão, a cidade, o indivíduo e o centralidade do pensamento se encontram. É hora de celebrar João Guimarães Rosa, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Mário Palmério. Quatro autores mineiros, quatro consciências distintas e complementares, que viveram na mesma época e que contribuíram para redefinir a literatura brasileira. Mais: ajudaram o Brasil a se reconhecer.
Juntos, unidos pelo ano mágico de 1956. Podemos dizer, sem exagero, que este é um ano rosiano. Vale até estudar mais a fundo as cabalas, a numerologia e tantas outras tradições que João Guimarães Rosa sabia de cor. Vejamos: são 70 anos de publicação de “Grande sertão: veredas” e de “Corpo de baile”, ambos lançados em 1956. Comemoram-se também os 80 anos de “Sagarana”, publicado dez anos antes, em 1946, o livro que inaugurou um novo sertão literário. São obras que transformaram definitivamente nossa língua e nossa imaginação. Vou além: esses três livros formam um dos conjuntos mais extraordinários da história literária brasileira.
Sem esquecer que neste ano saem duas biografias de Rosa, uma escrita por Leonencio Nossa e outra por Gustavo de Castro, além de uma edição comemorativa de “Grande sertão”, editada pela Companhia das Letras.
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Ao lado de Rosa, Fernando Sabino publica, também em 1956, “O encontro marcado”, romance que se tornaria o retrato mais agudo da juventude urbana brasileira no século 20. É o livro da inquietação, da formação e da consciência individual, em que uma geração inteira passa a se reconhecer. O personagem Eduardo Marciano é inesquecível.
E, no plano da poesia, Carlos Drummond de Andrade ocupa, em 2026, um lugar igualmente central com os 75 anos de “Claro enigma”, publicado em 1951. Nesse livro, Drummond realiza sua virada decisiva, afastandose da poesia mais diretamente social e entrando numa dimensão metafísica e reflexiva. É a obra em que o poeta enfrenta o tempo, o limite e o mistério da existência com rigor e profundidade raros.
Esse núcleo — Rosa, Sabino e Drummond — define o que 1956 representa: não apenas um ano produtivo, mas um ano fundador. Ao seu redor, outras obras ampliam esse mapa. Mário Palmério publica “Vila dos Confins”, levando o sertão político e social ao centro do romance brasileiro. Bernardo Élis lança “O tronco”, narrativa de força histórica que expõe os conflitos e as estruturas de poder do Brasil profundo.
Se 1956 é o epicentro, 2026 é o ano em que compreendemos plenamente sua dimensão. Celebramos os 50 anos de “A Festa”, de Ivan Ângelo, romance que reinventou a forma narrativa para pensar o Brasil contemporâneo. Soma-se a essas datas os 60 anos do “Suplemento Literário de Minas Gerais”, espaço decisivo na formação de uma geração inteira de escritores, capitaneados por Murilo Rubião e Jaime Prado Gouvêa.
Há ainda uma efeméride que define a origem dessa linhagem: os 110 anos da morte do paracatuense Afonso Arinos, autor de “Pelo sertão”. Publicado em 1898, o livro é um dos textos inaugurais da literatura sertaneja. Foi ali que o sertão começou a existir como matéria literária consciente. Afonso Arinos escreveu o sertão como origem. Guimarães Rosa o transformaria em travessia. Ambos comporão o tema da quarta edição do Fliparacatu – Festival Literário Internacional de Paracatu, em agosto.
E 2026 reúne também os 100 anos de nascimento de Milton Santos, Autran Dourado, Carlos Heitor Cony, Moacyr Félix e Thiago de Mello, vozes diversas que ajudaram a formar o pensamento e a literatura do Brasil moderno.
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É hora de pensar os meados da década de 1950 pelos movimentos migratórios mineiros. Otto Lara Resende dizia que a gente não se perguntava se ia sair de Belo Horizonte. Perguntava quando. Neste embalo, a década de 1930 levou Drummond, Pedro Nava. Rodrigo de Melo Franco para o Rio de Janeiro. A década de 1940 levou, para a então capital federal, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto e Paulo Mendes Campos. A cultura dos chamados “Anos JK” excedia em genialidade na literatura, trazendo a revolução na música, no teatro, dança e todas as artes.
É hora de o Brasil celebrar 1956, o ano extraordinário da literatura brasileira. Mas com destaque inequívoco para Minas Gerais.
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AFONSO BORGES é jornalista e gestor cultural, idealizador do projeto “Sempre um Papo” e dos festivais literários Fliaraxá, Flitabira, Fliparacatu e Flipetrópolis.