O Centro Cultural Unimed-BH Minas recebe, a partir desta quarta-feira (11/3), a exposição “Caixa-paisagem”, que compila a última década de produção de Thais Helt, de 78 anos. A mostra é dividida em três núcleos (“Zona branca”, “Zona negra” e “Zona de cor”), que contêm diferentes séries criadas pela artista, como “O enigma da fuga”, “Ouro negro” e “Quase um museu de objetos esquecidos”.
Leia Mais
A curadora Marília Panitz explica que as séries mostram, sem que haja necessariamente uma cronologia, o percurso de Thais da bidimensionalidade para a tridimensionalidade. A mineira é uma das grandes mestras da gravura e da litografia no Brasil.
Helt não considera que houve uma linha clara nesse sentido, mas acata a leitura da curadora. “Sempre usei o relevo, sempre usei objetos, mesmo quando a base era o desenho, o trabalho no papel. Sempre teve alguma coisa que as pessoas podem chamar de tridimensional, então não vejo muito essa passagem”, destaca.
Objetos
A artista reconhece que seu nome se projetou no cenário das artes a partir da gravura e da litografia, mas pontua que os objetos, de uma forma ou de outra, nunca deixaram de estar presentes. “Me envolvi com a gravura já fazendo uso deles”, diz.
A série mais antiga, “Quase um museu de objetos esquecidos”, incluída na “Zona de cor”, explicita e enfatiza a relação de Thais com a tridimensionalidade. Marília Panitz aponta que a exposição inclui caixas-vitrines, desenhos, livros-objeto e instalações que funcionam como arquivos poéticos e microcosmos narrativos.
Ouro e carvão remetem às camadas minerais de Minas
Assim como não há cronologia rígida, também não há uma divisão rigorosa entre as séries ou os núcleos que as contêm. “Tem desenhos novos, reunidos na série 'Enigma da fuga', que comparecem na 'Zona branca' e na 'Zona de cor'. A série 'Ouro negro' se espalha um pouco para a 'Zona branca'. A 'Zona de cor' tem, junto com 'Quase um museu de objetos esquecidos', alguma coisa da série 'Enigma da fuga'. São núcleos que invadem uns aos outros”, ressalta.
Caixas-vitrine
A seleção das obras foi orientada pela escolha que Thais Helt fez, em 2015, do uso de caixas-vitrine, que expandem a gravura para o tridimensional.
O nome que batiza cada núcleo é literal em relação ao que ele contém, mas também alude à dimensão simbólica.
“Zona branca” evidencia o gesto e a abstração; “Zona negra” remete às camadas minerais e à paisagem montanhosa de Minas Gerais; “Zona de cor” manifesta a memória reinventada por meio de objetos coletados e ressignificados pela artista. Dessa forma, papel, pedra, carvão e ouro compõem estruturas que vão além dos limites da impressão tradicional.
“Quando Thais começa a fazer as associações livres que integram as caixas, vem a provocação. Há sobreposição de narrativas”, diz Marília, destacando a presença constante do livro, usado como suporte. A sobreposição de narrativas também é temporal, em alguma medida.
A curadora explica que as obras reunidas em “Zona branca” nunca foram exibidas em conjunto, trata-se da produção que abarca de 2020 até os dias atuais.
“Já 'Zona negra' traz criações que vão de 2017 a 2023 e tem como base uma exposição que Thais fez em Ouro Preto, organizada por Angelo Oswaldo. 'Zona da cor' reúne obras que remontam a 2015, mas apresenta uma série que a artista retomou algumas vezes, inclusive com desenhos recentes. Os tempos se sobrepõem um pouco”, observa Marília Panitz.
Esteio
Livros são empregados nas obras e servem de esteio conceitual para elas. “Zona negra” traz epígrafe de Angelo Oswaldo evocando Guimarães Rosa, por causa das paisagens mineiras, que, na obra de Thais, se apresentam de forma abstrata.
“Zona da cor” ganhou texto de George Helt, irmão da artista, que faz uma relação com “Alice no país das maravilhas”, por causa das cores e do tom surrealista do núcleo. Para a curadora, tudo converge para o pensamento da litografia. “Mesmo quando ela passa a reunir objetos, as bases estão lá: o livro e a litografia”, aponta Marília Panitz.
Artista do gesto
Marília Panitz diz que o trabalho de Thais Helt é, essencialmente, gravura e litografia, mas observa que se trata de uma artista do gesto.
“São trabalhos que subvertem o bidimensional, optando, aos poucos, pela terceira dimensão, justamente pela provocação do gesto. Ao organizar a exposição em três núcleos, pensamos em trazer essa obra como manchas urbanas, com contornos pouco delimitados. Não queremos que o percurso fique explicado, mas damos pistas para que o público reflita e crie narrativas a partir das provocações propostas pela artista”, ressalta.
Thais, embora relativize a passagem do bidimensional para o tridimensional, aprovou a linha narrativa. "Ficou bem-feito. Dá para ter a dimensão do que são meus trabalhos ligados ao branco, ao negro, ao ouro e às cores. A leitura da Marília ficou bonita”, afirma.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“CAIXA-PAISAGEM”
Exposição de Thais Helt. Curadora: Marília Panitz. Desta quarta-feira (11/3) a 10 de maio, na galeria do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). De terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 11h às 19h. Entrada franca.
