Na lista do Booker Prize, Ana Paula Maia viu pedidos de tradução dispararem
Fluminense é semifinalista da versão internacional do prêmio com ‘Assim na terra como embaixo da terra’, lançado no ano passado e ambientado em prisão
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Em 23 de fevereiro passado, a escritora fluminense Ana Paula Maia estava vivendo a vida conforme o costume. A única coisa fora da rotina era uma cólica que exigia repouso. No fim do dia, ela olhou o e-mail e viu uma mensagem de Carolina Orloff, editora da escocesa Charco Press, que lançou as versões em inglês dos livros “De gados e homens” (2023) e “Assim na terra como embaixo da terra” (2025).
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Ana Paula não deu muita confiança para o e-mail. Continuou o repouso, até que viu outra mensagem da editora, dessa vez no WhatsApp. “Aí pensei que era algo sério, porque eu nunca tinha conversado pessoalmente com ela”, conta ao Estado de Minas.
Realmente era coisa séria. A editora queria informar que a versão em inglês de “Assim na terra como embaixo da terra” (“On earth as it is beneath”) estaria na lista dos semifinalistas do International Booker Prize, que seria divulgada no dia seguinte.
Ana Paula foi aconselhada a contratar um agente literário. “Cheguei a ter uma, mas, desde que ela se aposentou há alguns anos, vou cuidando sozinha dos meus livros. Sempre deu certo, tudo muito bem, tranquilo…” Pelo menos até sair o anúncio. “Aí foi uma loucura. Chegaram muitos pedidos de tradução. Eu não dava conta de lidar com todos”, conta a escritora.
Mais do que figurar entre os finalistas do International Booker Prize – o anúncio será no próximo dia 31 – e conquistar uma eventual vitória – em 19 de maio –, Ana Paula quer fazer com que sua literatura alcance cada vez mais leitores. E para isso o reconhecimento internacional contribui.
Penitenciária
“Assim na terra como embaixo dela” foi lançado em 2017 pela Record. A trama se passa num presídio isolado, localizado numa região árida e quase inacessível. O local abriga criminosos – muitos deles condenados por estupro ou assassinato – esquecidos pelo sistema. O Estado existe apenas como estrutura mínima de contenção. Agentes penitenciários e detentos coexistem num ambiente violento e cheio de horrores.
A violência vai além das celas dos detentos, entranhando no ambiente dos carcereiros e na sala do diretor da instituição, que se aproveita do poder para “caçar os presos como se fossem javalis”. De dois em dois, eles são lançados à corrida dentro dos limites da cadeia para que fujam do caçador sedento por matá-los.
“Meus livros não costumam ser bem digeridos por todo mundo”, comenta Ana Paula. “Já escutei várias vezes pessoas falando coisas como: ‘Ainda não tive coragem de ler, porque eles são muito pesados’. Mas é algo que vem de mim, com minha maneira mais áspera de ver o mundo”, afirma.
A morte, que costuma ser abordada na literatura de modo muito metafísico, é tratada pela brasileira a partir do corpo, aquilo que sobra dos restos mortais. A visceralidade com que aborda o sadismo do diretor da penitenciária em “Assim na terra como embaixo da terra” é a mesma com que trata os temas de todos os seus livros, desde a estreia com o sugestivo “O habitante das falhas subterrâneas” (2003). Ali, Ana Paula expunha a degradação humana a partir da violência urbana.
“Entre rinhas de cachorro e porcos abatidos”, publicado em seguida, inicialmente na internet, em 2006, no formato de duas novelas, é outro que conta com narrativa visceral. A primeira novela, que dá nome ao livro, é ambientada num subúrbio distante, onde apostar em rinhas de cachorros assassinos é o maior divertimento de dois “homens-bestas” que ganham a vida abatendo porcos.
Eles esperam o mínimo da vida, trabalham muito, cumprem sagradamente suas tarefas e nutrem um pelo outro grande amizade. Já a segunda novela, intitulada “O trabalho sujo dos outros”, narra as implicações caóticas numa cidade fictícia depois que operários de serviços essenciais – lixeiros, encanadores e asfaltadores – decidem entrar em greve.
Literatura de borda
Na mesma toada estão os romances que vieram depois, “Carvão animal” (2011), “De gados e homens” (2013), “Enterre seus mortos” (2018), “De cada quinhentos uma alma” (2021) e “Búfalos selvagens” (2024).
“São livros cujas histórias se passam em locais ermos, que podem ser tanto no Brasil, quanto em qualquer lugar da América Latina, numa fronteira com o Brasil. Eu gosto muito desse espaço de fronteira. Acho que são lugares diferentes, onde as coisas fluem num tempo e intenções diferentes”, diz a escritora.
“Nesse contexto, acredito que a marginalidade entra como uma espécie de literatura de borda, de lugares e pessoas que estão lá, mas ninguém se lembra”, acrescenta. “Meus personagens são muito simples e práticos”, diz.
“Muitos deles trabalham em profissões em que é quase impraticável extrair literatura por causa da limitação verbal. Ali, no contexto daquele personagem, você não consegue tirar textos tão líricos no sentido prático da coisa, embora eu acredite que eles têm seu lirismo na medida do que conseguem se expressar.”
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Novo livro
Para este ano, Ana Paula prepara o lançamento de “O tenebroso brilho do sol”, seu primeiro folk horror, subgênero do terror focado em ambientações rurais isoladas, tradições pagãs, superstições e rituais antigos. O romance vai sair pela Companhia das Letras. “A gente vai vivendo e tocando um dia após o outro. Quero mesmo é que cresça o interesse pelas minhas obras”, afirma.