CINEMA

Filme 'Kokuho', em cartaz em BH, revela o rígido universo do teatro kabuki

Trama sobre a rivalidade de atores onnagata, que fez sucesso em Cannes em 2025, vai disputar o Oscar de Maquiagem e Penteado no próximo domingo (15/3)

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Na década de 1960, as mulheres japonesas já não eram mais proibidas de subir aos palcos. O veto caiu na virada do século 19 para o 20. No entanto, o kabuki, tradicional gênero teatral do país, ainda mantinha a atuação exclusivamente masculina, reservando ao ator chamado onnagata os papéis femininos. É nesse contexto que se insere o longa “Kokuho – O preço da perfeição”, de Lee Sang-il, em cartaz em BH, nas salas do UNA Cine Belas Artes e no cinema do Shopping Del Rey.

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Épico japonês de quase três horas, o filme concorre ao Oscar de Maquiagem e Penteado pela reconstituição rigorosa das caracterizações dos onnagata, capazes de transformar completamente atores em figuras femininas.

Na trama, o jovem Kikuo Tachibana (vivido por Soya Kurokawa na infância e Ryo Yoshizawa na fase adulta) é onnagata amador no restaurante da família. O patriarca integra a Yakuza e acaba vítima de emboscada dentro do próprio estabelecimento, diante da esposa e do filho. Comovido com a história do rapaz, o experiente onnagata Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe), que estava no restaurante no dia do assassinato, adota Kikuo e passa a criá-lo ao lado do filho.

O filme revela o rigoroso universo do teatro kabuki. Ensaios e treinamentos são diários e extremamente exaustivos, dando caráter militar à rotina de Kikuo e de seu colega Shunsuke (Ryusei Yokohama), filho biológico de Hanai. Os dois apanham repetidamente para manter posições incômodas, com os músculos retesados.

Os jovens são o oposto um do outro. Shunsuke é extrovertido, gosta de sair com os amigos e não demonstra grande dedicação à carreira. Já Kikuo é mais frio, com senso de identidade peculiar, parece um “alienígena” para os outros, à medida que se isola e envelhece.

Ao longo das cinco décadas que o filme abrange, Kikuo desenvolve uma relação complexa de amizade e rivalidade com Shunsuke. Enquanto o herdeiro de Hanai não se compromete tanto com a arte que pratica, Kikuo se destaca pelo talento e pela disciplina obsessiva para se tornar onnagata.


Essa dedicação estabelece uma analogia direta entre o rigor artístico e o código do samurai, evocando valores como lealdade, honra e aperfeiçoamento constante.

Graças à disciplina e ao talento, Kikuo é escolhido sucessor de Hanai, o que desperta a ira de Shunsuke. Ele consegue se destacar como onnagata, tornando-se um dos atores de kabuki mais cultuados de sua geração.

Tesouro Nacional Vivo

O ápice da carreira chega com o título de “Tesouro Nacional Vivo”, concedido pelo governo japonês a artistas considerados guardiões de tradições culturais.

Se a carreira de Kikuo é irrepreensível, a vida pessoal é marcada por atitudes questionáveis. Egoísta e inescrupuloso, ele não hesita em machucar quem estiver à frente para alcançar seus objetivos.

Quem mais sofre com isso é a filha pequena que ele teve fora do casamento, quando começava a se projetar profissionalmente. Em uma das cenas mais revoltantes do longa, Kikuo desfila pela cidade como ator emergente e, por pura vaidade, ignora a filha, que o chama apenas para acenar para o pai.

Recorde

“Kokuho – O preço da perfeição” foi sucesso de bilheteria no Japão, onde arrecadou cerca de US$ 100 milhões. O longa rendeu a Lee Sang-il o prêmio de Melhor Diretor concedido pela tradicional revista japonesa de cinema Kinema Junpo.

Ao ser exibido no Festival de Cannes em 2025, na Quinzena dos Realizadores, o longa foi considerado pelos críticos – entre eles, a revista especializada Variety – uma grata surpresa, sobretudo por sua força estética e pela intensidade dramática da história. 

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“KOKUHO – O PREÇO DA PERFEIÇÃO”

Japão, 2025, 175 min. De Lee Sang-il. Com Ryo Yoshizawa, Ken Watanabe e Ryusei Yokohama. Em cartaz no UNA Belas Artes 3, às 20h20, e cine Del Rey 4, às 20h20.

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