Cinema

Conheça Kaiony Venâncio, o cabra marcado para brilhar em 'O agente secreto'

Ator potiguar desperta medo e fascínio com a interpretação arrebatadora de um pistoleiro: 'Transferi minha vivência para entender a dor de Vilmar'

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Anti-herói. Assim Kaiony Venâncio define Vilmar, o matador que interpreta no longa-metragem “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, indicado em quatro categorias do Oscar. Nascido em Natal em 1979, Kaiony tem menos de 10 minutos de tela. É o suficiente para impor medo e, ao mesmo tempo, fascínio pela precisão gestual, o tom de voz e o olhar fixo, como um caçador à procura da presa – no caso, Armando/Marcelo, o personagem de Wagner Moura.

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“Acho que consegui materializar o que estava na cabeça de Kleber”, afirma o ator potiguar, de 46 anos.

Em entrevista ao Estado de Minas, Kaiony Venâncio conta que conseguiu o papel depois de gravar vídeo com uma das cenas mais emblemáticas do personagem: o encontro de Vilmar com os matadores cariocas interpretados por Roney Villela e Gabriel Leone, que subcontratam o pistoleiro nordestino.

A performance o fez ser selecionado para ir ao Recife para novo teste, desta vez com a presença do diretor, da produtora Emilie Lesclaux e de toda a equipe do filme.

Pistoleiro do 'Globo repórter'

O cineasta mostrou cenas de “O pistoleiro de Serra Talhada”, edição do programa “Globo repórter” dirigida pelo documentarista Eduardo Coutinho em 1977, com um assassino profissional, também chamado Vilmar, que não demonstra emoções ao narrar os crimes que cometeu.

“Quando eu olhei, disse: ‘Vixe, parece com o meu pai quando tinha 20 e poucos anos’. Comecei a juntar uma coisa com a outra e entender quem era Vilmar – o que existiu e o que Kleber queria que eu fizesse”, lembra. Quando terminou, o cineasta comunicou à equipe ter encontrado o intérprete de um dos personagens mais importantes da trama.

Kleber Mendonça Filho e Kaiany Venâncio no set durante as filmagens de 'O agente secreto'
Kleber Mendonça Filho e Kaiany Venâncio no set durante as filmagens de 'O agente secreto' Facebook/reprodução

“Transferi a minha vivência para Vilmar e, assim, entendi a dor dele. Quando ele chega cansado, sujo, cheio de açúcar... Aquele olhar de quando eu falo para o personagem de Gabriel: ‘Gostei do teu jeito, não.’ Aquilo é o que já senti várias vezes de pessoas que desmereceram o meu trabalho, quiseram diminuir o meu cachê. O meu olhar passa verdade porque eu já senti isso na pele”, revela o ator.

O começo da carreira artística de Kaony Venâncio foi tardio, aos 29 anos. Fez teatro por dois anos, e a partir de 2011, entrou no audiovisual.

“No teatro, tive que aprender a dirigir e a escrever meus próprios espetáculos. Quando cheguei no audiovisual, já estava com gosto de contar minhas histórias, porque desde criança eu gostava de desenhar histórias em quadrinhos. Aí comecei a estudar bacharelado em cinema e a fazer meus próprios curtas, escrever, dirigir”, recorda.

Kaiony trabalhou com preparação de elenco e, em 2017, deixou de atuar para dirigir um programa de TV voltado para o público infantil. “Isso estava me sufocando, fiquei esse tempo todinho só dirigindo e frustrado, sem tempo para nada.”

Kaiony Venâncio no tapete vermelho de Cannes, durante exibição de 'O agente secreto' no festival francês, em maio de 2025
Kaiony Venâncio no tapete vermelho de Cannes, durante exibição de 'O agente secreto' no festival francês, em maio de 2025 Facebook/reprodução

'Cangaço novo': a virada

O jogo virou quando Kaiony foi selecionado para fazer “Cangaço novo”, a série-sensação da Prime Video, estrelada pela conterrânea Alice Carvalho. “Quando entrei em ‘Cangaço novo’, minha vida não parou mais. Nada no âmbito nacional e internacional foi o que ‘Cangaço novo’ fez para mim”, afirma o ator, que está no episódio 4 da primeira temporada.

“Ter Kaiony Venâncio foi mais uma oportunidade de mostrarmos o quanto um elenco local é poderoso. Ele traz verdade. No caso de ‘Cangaço novo’, acreditamos que essa seja uma das camadas que fazem o público se identificar tanto com os personagens”, diz Mariana Bardan, autora da série com Eduardo Melo.

A escalação de atores e atrizes que espelham a diversidade do Brasil é um dos pontos de destaque de “O agente secreto”. Não por acaso, o filme concorre ao Oscar de Direção de Elenco, categoria estreante na maior premiação do cinema mundial, marcada para o próximo domingo (15/3), em Los Angeles.

 

Trunfo brasileiro

Kaiony acredita que o maior concorrente é “Pecadores”, de Ryan Coogler. “Eles têm um elenco maravilhoso, só que a gente tem a diversidade como grande trunfo”, aposta.

Com trabalhos assegurados nos próximos meses e alguns outros projetos à vista, Kaiony tem um desejo: filmar em Minas Gerais. “Estou aberto a propostas, até porque quero trabalhar novamente com Carlos (Francisco, que interpreta Seu Alexandre, sogro do personagem de Wagner Moura), mas com mais interação dessa vez.”

Leia a seguir trechos da entrevista de Kaiony. A íntegra está disponível no canal do Portal Uai no YouTube. 

• O PERSONAGEM PELO ATOR

“Para mim, Vilmar é um anti-herói. Começa como um vilão e termina como representante de toda a desigualdade da sociedade. É um antagonista e eu torço muito para que Kleber faça um spin-off e conte, talvez, também a história pregressa de Vilmar.”

• IDENTIFICAÇÃO

“Eu me identifiquei totalmente não com o que Vilmar faz, mas com a desigualdade que ele sofre e vive. Em vários trabalhos que fiz, fui desmerecido: cachês baixíssimos, falta de respeito com o meu trabalho, pessoas querendo passar a perna em mim... Aconteceu várias vezes, principalmente quando era mais jovem. Não tinha como não me identificar com Vilmar. Meu olhar na cena do porto, de quando eu falo ‘gostei do teu jeito, não’ para Gabriel (Leone, intérprete do personagem Bobbi), é literalmente o que senti várias vezes de pessoas que desmereceram meu trabalho, que quiseram diminuir o meu cachê, o meu serviço. Transferi minha vivência para me ajudar a entender a dor de Vilmar. Já senti isso na pele.”

• ENERGIA DE RAIVA

“Eu estava com muita energia de raiva (na cena do encontro com os matadores cariocas). De revolta, porque eu sabia que ia ser humilhado pelo personagem de Gabriel. Então, é por isso que meus olhos, que já são grandes, ficaram uns olhões assim. Porque eu estava com muita fúria dentro de mim, mas não podia explodir. Quando você guarda muita energia, muita emoção, sentimentos reprimidos, uma hora vai sair.”

 

 

• O VERDADEIRO VILMAR

“Kleber segurou o máximo que pôde de informação, porque queria que eu começasse a desenvolver. Mas aí ele me mostrou um Vilmar que existiu e apareceu no ‘Globo repórter’ (‘O pistoleiro de Serra Talhada’, dirigido por Eduardo Coutinho em 1977). Kleber me fez perceber que o Vilmar real não se justificava, não argumentava: só dizia, fazia e acabou-se. Não tem envolvimento emocional. Kleber me dizia: ‘Kaiony, ele não se estressa com as pessoas. Ele simplesmente é.’ É pra fazer isso? Pronto, eu faço.”

• CONSTRUIR COM O DIRETOR

“Um erro que ator e atriz cometem muito é o de já querer chegar pronto. É muito importante que a gente construa o personagem junto com o diretor. O filme é a visão dele. Imagina se eu chegasse esbaforido, gritando, me impondo sobre as pessoas na cena... Eu ia me sabotar diante de uma oportunidade tão boa que é o personagem de Vilmar. Eu precisava entender o que Kleber estava querendo.”

• O TESTE (1)

“Teve uma chamada pública no Instagram, no início de 2024. Fiz o vídeo e mandei. Aí chegou um e-mail de Carolina Martins, com quem eu já tinha trabalhado em “Cangaço novo”, a assistente de Gabriel Domingues (diretor de elenco), e era assim: ‘Teste para o personagem Vilmar, mas a cena não é do filme’. Quando fui ver, era a cena do porto (o acerto de Vilmar com os matadores cariocas, interpretados por Roney Villela e Gabriel Leone). Gravei com o meu cunhado e um amigo, também ator. Mandei o teste e, nove dias depois, recebi a mensagem: ‘Kleber quer te conhecer’.”

• O TESTE (2)

“Leonardo Lacca (diretor-assistente) me preparou a manhã quase toda para o teste. Kleber e Emilie chegaram, cada um na sua bicicleta. E fiz a cena do porto. Gravei no meio da rua, sem camisa. Kleber assistia no celular, pedia para melhorar alguma coisa, gravava de novo e voltava. Aí ele mostrou o verdadeiro Vilmar e explicou com mais detalhes o que queria do personagem. Aí eu disse: ‘Com essas novas informações, quer que eu vá lá fora e faça de novo?’. Ele respondeu: ‘Quero’. Fui lá, gravei, voltei, ele ficou assistindo... Ainda olhando para o celular, ele falou: ‘Este é um personagem muito importante para mim. E queremos ter a honra de trabalhar com você’. Fiquei emocionado, não sabia como comemorar. Apertei a mão dele e agradeci. Aí o pessoal da produção anunciou para a equipe: ‘Ó, gente, este é Kaiony, ele vai fazer Vilmar’. Muita gente veio me abraçar. Eu ainda não sabia o quanto Vilmar é importante no filme.”

Atores Kaiony Venâncio e Wagner Moura estão abraçados e olham sorrindo para a câmera
Kaiony Venâncio e Wagner Moura interpretam Valmir e Marcelo, 'caçador' e 'caça' no Brasil violento de 'O agente secreto' Facebook/reprodução

• AS FILMAGENS

“Nós gravamos as minhas cenas todas de trás para a frente. Comecei gravando a cena em que estou entrando na galeria de lojas e vou me esconder... A minha última cena foi a do porto. Mas o meu desafio foi a cena do tiroteio, porque era coreografado e eu tinha que falar o texto. Quando eles perguntam: ‘E aí, bichão? Tás atazanando um amigo nosso? Mostra aí tua identidade’. Aí eu tenho que procurar e dizer: ‘Aí, logo hoje que eu esqueci minha identidade’. E puxo a arma. Isso foi muito difícil, porque exigiu que eu fizesse essa coreografia certinha: puxa a camisa com a mão, puxa a arma da calça. Toda hora eu errava e me irritava. Dizia para mim: ‘Calma, você vai conseguir.’ Até que deu certo. Foi realmente hollywoodiano. E maravilhoso.”

• INDICAÇÃO AO OSCAR DE MELHOR ELENCO

“É uma honra. No ano em que estreia a categoria, eu estou fazendo parte! Na verdade, a indicação é para Gabriel Domingues, merecidíssima, porque conseguiu montar um elenco tão diverso. É um trabalho árduo e existe a sensibilidade de quem escolhe. A gente não sabe qual vai ser o critério de avaliação da Academia, porque é o primeiro ano, mas o que posso dizer é: enquanto ator potiguar, estou feliz junto com Alice (Carvalho) e Dona Tânia (Maria). Estamos representando o nosso estado (Rio Grande do Norte).”

Rosto do personagem do ator Kaiony Venâncio (à direita), de boné, no cartaz de 'O agente secreto' escrito em russo. O rosto dele está entre os rostos desenhados de vários personagens
Kaiony Venâncio (à direita) no cartaz de 'O agente secreto' escrito em russo Reprodução

• PRINCIPAL CONCORRENTE

“Acho que o nosso grande concorrente nessa categoria de Elenco é ‘Pecadores’. Eles têm um elenco muito bom, maravilhoso, na verdade. Só que a gente tem uma vantagem: é a diversidade. São muitos rostos diferentes, sotaques diferentes, trejeitos diferentes.”

• CARA DE POLICIAL?

“O povo só me chama para fazer policial. Não sei por que, não tenho nem cara de policial (risos). Como diria o delegado (Euclides): ‘Maior cara de policial, o cabra’. Já fiz muitos. E no meio do ano vai ter mais filmes para fazer. Não posso falar ainda, porque o contrato não foi assinado, mas já tem personagem, já vi o roteiro.”

• “VIVER DE ARTE DÓI”

“Quando eu digo ‘viver de arte dói’, é porque não é a arte que me machuca, traz dor. É viver pela arte, para a arte. A arte traz com ela o prazer de trabalhar, mas também sacrifício e algumas humilhações. O que estou dizendo acontece em qualquer profissão. Se você quiser ser o melhor nela, vai passar por muitas situações difíceis. Já contei moedas para a passagem de ônibus, jantando pipoca na faculdade à noite. Já fiz muitas orações: ‘Meu Deus, por que eu estou passando por isso?’. E me questionava: ‘Por que eu estou passando por isso?’. Já deu medo, sim. Mas nunca pensei em desistir. Então, a arte me salvou de muita coisa. Só que viver dela, por ela, exige um sacrifício enorme. Dói viver de arte por causa dos desafios, de muitas vezes alguém da família olhar para você e dizer: ‘E aí, tu não vai trabalhar não, filho?’. E a minha resposta: ‘Eu já trabalho. Eu sou ator’. A arte é a minha vida.”

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• “QUERO SER DIRIGIDO POR VOCÊS”

“Se você é estudante de cinema, ou está trabalhando agora em um escritório e tem o sonho de ser ator, atriz, diretor, roteirista, diretor de arte, qualquer departamento do audiovisual, quero dizer a você: primeiro, não desista. Não interrompa o seu sonho. E não importa a sua idade. Existem vários cursos gratuitos para quem quer estudar. Não precisa abandonar o seu emprego para entrar nessa arte. Mantenha-se com os seus recursos, para você não passar necessidade. Quero dizer que Kleber está certo. Nós queremos ouvir novas histórias contadas por vocês. Queremos que os jovens entendam que a arte emprega muita gente, especialmente o audiovisual. Aproveitem que agora temos políticas públicas, editais, principalmente de fomento. O governo atual também investe muito. Você, jovem diretor, jovem diretora, não desista e insista. Eu quero ser dirigido por vocês.”

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