Diretora de filme sobre o luto faz curso de ‘doula da morte’
Chloé Zhao concorre com ‘Hamnet’, que teve oito indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção, e é favorito em Melhor Atriz (Jessie Buckley)
compartilhe
SIGA
Diretora de “Hamnet - A vida antes de Hamlet”, filme sobre o luto que tem oito indicações ao Oscar – incluindo Melhor Filme e Direção –, Chloé Zhao contou que está em treinamento para se tornar “doula da morte”. A declaração foi para o podcast “The Interview”, do jornal “The New York Times”.
Ela fez o curso em Londres e, no momento da entrevista, havia concluído o ciclo básico, não tendo obtido ainda o diploma de formação. A constância do medo em sua vida, segundo contou, foi a motivação para se inscrever no curso.
Leia Mais
“Por ter tanto medo, não consegui viver plenamente. Não consegui amar com o coração aberto, para não perder o amor, que também é uma forma de morte”, afirmou. O treinamento habilita estudantes a prestar assistência não médica a pacientes terminais e suas famílias, nos momentos finais.
Aos 43 anos, a diretora afirma estar vivendo a crise da meia-idade e diz se sentir mais próxima da morte. Ansiosa, buscou o curso para desenvolver uma relação mais saudável com o tema. “Caso contrário, não vou conseguir atravessar a segunda metade da vida, ela seria difícil demais”, afirmou.
Chloé Zhao também acredita que a criação de “Hamnet: A vida antes de Hamlet” contribuiu para esse processo. Inspirado na vida de William Shakespeare, o filme acompanha como o dramaturgo e sua mulher lidam com a morte do filho pequeno, Hamnet.
“Assustador”
“Quem quer que tenha projetado tudo isso decidiu que você nasce e depois morre. Você ama profundamente, mas depois perde esse amor. É quase como uma piada cósmica. Somos a única espécie que parece ter um problema com esse processo. Devemos ter sido projetados para saber morrer. Não deveria ser algo tão assustador que me impeça até de viver”, disse.
Segundo a diretora, fazer arte também é um exercício de vulnerabilidade, por isso se dedica a abordar temas como o luto. Chloé Zhao se tornou a segunda mulher a vencer o Oscar de Direção, com “Nomadland” (2020). No entanto, seu filme seguinte, “Eternos” (2021), do Universo Cinematográfico Marvel, foi duramente criticado.
Na conversa com o jornalista David Marchese, a cineasta foi franca sobre o efeito das críticas negativas na autoestima e a dificuldade de lidar com rituais de consagração como o Oscar. Para a diretora, muitos artistas encontram na arte uma forma de buscar conexão e validação, o que torna as rejeições especialmente dolorosas.
“Às vezes olho ao redor em uma premiação e, quando anunciam o vencedor, tento imaginar o que as pessoas que não ganharam estão sentindo. Na melhor das hipóteses, alguém pensa: ‘Essa pessoa provavelmente teve uma infância mais fácil.’ Na pior: ‘Eu não pertenço aqui. Eles me rejeitaram. Melhor morrer’”, observou.
Chegando ao fim desta temporada, em que o único Oscar que parece estar garantido é o de Melhor Atriz para Jessie Buckley pelo papel de Agnes em “Hamnet”, a cineasta diz que tenta lidar melhor com as críticas.
“A realidade é que você fica dançando entre os dois lados. É como uma onda. Mas imagine ir a esses eventos e aproveitar cada parte da onda. Tenho investigado isso, porque sei que 50% do tempo as coisas vão ser ótimas. Os outros 50% vão ser uma merda. E eu quero encontrar prazer e alegria até na merda”, disse.
“THE INTERVIEW”
• Entrevista de Chloé Zhao ao jornalista David Marchese. Disponível em inglês no YouTube, no canal @theinterviewpodcast.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
*Estagiária sob supervisão da editora Silvana Arantes