Trinta anos após a morte dos integrantes da banda Mamonas Assassinas, familiares, amigos e pessoas próximas ao grupo seguem mantendo viva a memória de um dos maiores fenômenos da música brasileira dos anos 1990. Mesmo depois de três décadas da tragédia, o legado artístico e afetivo do quinteto ainda mobiliza fãs e continua presente na vida daqueles que conviveram com os músicos.

O acidente aéreo que matou os integrantes aconteceu em 2 de março de 1996, na Serra da Cantareira. Na queda da aeronave, morreram o vocalista Alecsander Alves (Dinho), o guitarrista Alberto Hinoto (Bento), o tecladista Júlio César Barbosa (Júlio Rasec), o baixista Samuel Reis de Oliveira e o baterista Sérgio Reis de Oliveira. O grupo estava no auge do sucesso nacional, poucos meses após o lançamento do primeiro e único álbum.

Recentemente, o pai de Dinho, Hildebrando Alves, voltou a falar publicamente sobre o impacto da perda e como a família enfrentou o luto ao longo dessas três décadas. Após a exumação dos corpos, ele afirmou que a fé e o apoio dos fãs foram fundamentais para atravessar os momentos mais difíceis.

Ao jornal O Globo, Hildebrando disse que, com o tempo, a família aprendeu a lidar com a morte como parte da vida. “Nesses 30 anos, compreendemos que a vida é assim, vamos todos morrer um dia. Baixar a cabeça não resolve nada. Se eu tivesse certeza que eles voltariam se eu chorasse, estaria chorando até hoje. Mas não volta. É aceitar e agradecer por cada dia de vida”, contou.

Hoje com 78 anos, ele vive em Guarulhos ao lado da esposa, Célia. Durante anos, manteve no sítio conhecido como “Chácara dos Mamonas”, em Itaquaquecetuba, um acervo dedicado ao grupo. O espaço foi comprado por Dinho em 1995 e acabou vendido em 2019.

Lembranças

Hildebrando também costuma lembrar as inspirações do filho para compor alguns dos maiores sucessos da banda. “A inspiração do Dinho sempre foi a fazenda em que olhava o gado. ‘Pelados em Santos’ foi uma brincadeira dele com um amigo. Já ‘Robocop Gay’ nasceu porque ele sempre foi contra a discriminação”, recordou.

Segundo ele, a autenticidade do grupo ajuda a explicar por que o fenômeno dos Mamonas permanece único. “Nesses 30 anos, não apareceu ninguém igual. Ele fazia música pensando nele primeiro, e depois em todo mundo. É um legado”, pontuou.

Outros familiares também seguem preservando a memória da banda. Grace Kellen, irmã de Dinho, tinha 16 anos e estava grávida quando o acidente aconteceu. Hoje é mãe de dois filhos e continua participando de iniciativas que lembram a trajetória do grupo. A filha mais velha, Alecssandra, recebeu o nome em homenagem ao tio. A jovem faz diversas declarações de admiração a Dinho. 

Entre os parentes dos outros integrantes, a lembrança também permanece ativa. Seu Ito, pai dos irmãos Samuel e Sérgio, e Paula Rasec, irmã de Júlio, frequentemente compartilham memórias e homenagens nas redes sociais.

Na nova geração, quem também mantém o repertório vivo é Beto Hinoto, sobrinho de Bento Hinoto. O guitarrista segue carreira musical e costuma tocar canções que marcaram a trajetória da banda.

As companheiras dos músicos

Algumas das pessoas mais próximas dos integrantes também reconstruíram suas vidas após a tragédia. Noiva de Dinho na época do acidente, Valéria Zoppello tornou-se uma figura conhecida entre os fãs durante o auge da banda. Atualmente, aos 51 anos, ela trabalha como fotógrafa e se apresenta nas redes sociais como viajante.

Ex-modelo, Valéria também atuou como atriz e construiu carreira no automobilismo como piloto. Durante mais de duas décadas, esteve envolvida com o esporte e chegou a morar na Europa para fotografar competições.

Hoje, vive na Serra da Cantareira, região onde ocorreu o acidente, e se dedica também a um orquidário. Em entrevistas, já revelou que tinha um lugar reservado no avião da banda naquela noite, mas desistiu da viagem após um pedido de Dinho.

Namorada de Bento Hinoto na época da tragédia, Aninha Almeida mantém uma postura discreta nas redes sociais. O perfil é usado principalmente para compartilhar momentos pessoais e viagens.

Em 2023, ela comemorou a formatura da filha em medicina. Em datas marcantes, como os aniversários de morte da banda, costuma publicar homenagens ao guitarrista.

Cláudia Gaiga, que se relacionava com o baterista Sérgio Reoli, também optou por uma vida mais reservada. Casada e mãe de dois filhos, trabalha atualmente como representante comercial. Em uma entrevista ao portal GE, ela relembrou aspectos da personalidade do músico, destacando que ele era menos ligado a futebol do que os colegas e preferia jogos eletrônicos e esportes virtuais.

Simone Venturini, namorada de Júlio Rasec na época do acidente, ficou conhecida pela divulgação de um bilhete carinhoso que o tecladista escreveu para ela pouco antes da tragédia. Depois do episódio, Simone decidiu se afastar dos holofotes e preservar a vida privada. Raramente participa de entrevistas ou projetos sobre a banda.

Quem cuida do legado?

Atualmente, a marca dos Mamonas Assassinas é administrada por Jorge Santana, primo de Dinho e responsável pelo Instituto Mamonas. A gestão da imagem do grupo permanece com a família do vocalista, enquanto os diferentes núcleos familiares recebem valores quando músicas, imagens ou referências da banda são usadas em campanhas, produções audiovisuais e  regravações.

Outro nome ligado diretamente à história do grupo é o produtor musical Rick Bonadio. Hoje com 56 anos, ele se tornou um dos profissionais mais influentes da indústria fonográfica brasileira.

Responsável por revelar artistas como Charlie Brown Jr., Rouge, CPM 22 e Titãs, Bonadio costuma afirmar que a trajetória profissional mudou completamente depois de trabalhar com os Mamonas. “Sou uma pessoa antes e depois dos Mamonas. Mudou completamente minha vida. Se não fossem eles, eu não estaria aqui hoje”, relatou ao portal Terra.

Foi ele quem produziu o primeiro e único álbum da banda em um pequeno estúdio que mantinha próximo à Serra da Cantareira. Na época, os músicos ainda se apresentavam com o nome Utopia e buscavam seguir carreira no rock.

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Segundo Bonadio, a virada aconteceu quando Dinho gravou, de forma despretensiosa, músicas como “Robocop Gay” e “Pelados em Santos”. “Quando ouvi aquilo, tive um clique. Pensei: e se a gente misturar esse humor com o rock deles? Foi aí que tudo começou”, lembrou.

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