30 anos sem Mamonas Assassinas: o fenômeno que marcou a música brasileira
Do Utopia ao estrelato meteórico, os cinco jovens de Guarulhos conquistaram o país e venderam mais de 3 milhões de cópias do único álbum do grupo
compartilhe
SIGA
Três décadas depois do acidente aéreo que interrompeu uma das carreiras mais explosivas da música nacional, a história dos Mamonas Assassinas segue viva. O sucesso durou cerca de oito meses. O impacto, porém, atravessou 30 anos.
Antes de ser conhecida pela brincadeira e irreverência, no entanto, a banda tentou o sucesso por oito anos. A semente da banda foi plantada em março de 1989, em Guarulhos (SP), onde cresceram.
Sérgio Reis de Oliveira conheceu Maurício Hinoto no trabalho e, pouco depois, foi apresentado ao irmão dele, Alberto Hinoto. Sérgio era baterista; Bento, guitarrista. Decidiram montar uma banda: Utopia.
No início, o repertório era composto por covers de grupos como Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso. Os ensaios aconteciam na casa da família Oliveira. Foi ali que Samuel, irmão mais novo de Sérgio, começou a se interessar pelo baixo, instrumento que assumiria oficialmente pouco tempo depois.
Leia Mais
O ponto de virada ocorreu em 1990, no Parque Cecap, em Guarulhos. Durante um show, o público pediu “Sweet Child o’ Mine”, do Guns N’ Roses. Sem saber a letra, os músicos contaram com a ajuda improvisada de um jovem da plateia: Alecsander Alves Leite. Ele também não sabia a música, mas compensou com carisma, improviso e presença de palco. O Utopia ganhava ali seu vocalista, o Dinho.
Pouco depois, Júlio César Barbosa, amigo de Dinho, aproximou-se da banda. Começou como roadie, ajudando com cabos e equipamentos, além de auxiliar nas letras em inglês. Tornou-se tecladista fixo após a saída de um integrante anterior.
Humor
Durante os ensaios, as paródias e brincadeiras arrancavam mais risadas que os covers tradicionais. O grupo percebeu que havia ali um caminho próprio. As influências iam do rock pesado ao brega, do forró ao sertanejo raiz, passando por música mexicana e até o “vira” português.
Com o apoio dos produtores Rick Bonadio e Rodrigo Castanho, gravaram em 1994 duas músicas decisivas: “Mina (Minha Pitchulinha)” e “Robocop Gay”. O Utopia deixava de existir. Surgia oficialmente o nome que marcaria a década, os Mamonas Assassinas.
Em abril de 1995, a banda assinou contrato com a EMI e partiu para Los Angeles para gravar o primeiro disco. Lançado em 23 de junho do mesmo ano, o álbum “Mamonas Assassinas” vendeu mais de 3 milhões de cópias no Brasil. Em poucos meses, tornou-se um dos maiores sucessos comerciais da história da música nacional.
O disco reunia canções que misturavam sátira, crítica social e humor escrachado. “Pelados em Santos” virou hino popular, com refrões que atravessaram gerações. “Vira-Vira” incorporava ritmo lusitano. “Robocop Gay” ironizava padrões de comportamento. “1406” satirizava programas de televendas. “Chopis Centis” transformava o inglês macarrônico em marca registrada. “Bois Don’t Cry” parodiava o universo country.
A força da banda estava também na performance. As roupas caricatas, as coreografias exageradas, os diálogos improvisados e a quebra constante da “quarta parede” faziam dos shows um espetáculo teatral. Crianças decoravam letras inteiras; adolescentes lotavam ginásios; adultos riam das referências.
Nos oito meses, o grupo fez diversos shows, chegando a realizar até três apresentações no mesmo dia. Em 2 de março de 1996, após um show em Brasília que marcaria o encerramento da turnê nacional, o grupo embarcou em um Learjet 25D rumo a Guarulhos. Durante a aproximação para pouso, houve uma arremetida e a aeronave colidiu com a Serra da Cantareira. Todos morreram na hora.
A investigação apontou como principal causa a exaustão do piloto, além de falhas operacionais. O enterro reuniu mais de 100 mil fãs e foi transmitido ao vivo pela televisão, consolidando uma das maiores comoções públicas da década de 1990.
Trinta anos depois, a obra dos Mamonas continua presente em rádios, festas temáticas, programas de TV e projetos audiovisuais. O álbum único segue sendo redescoberto por jovens que sequer eram nascidos em 1996.
Recentemente, familiares decidiram transformar parte das cinzas dos integrantes em adubo para o plantio de cinco árvores no BioParque Cemitério de Guarulhos, criando o Jardim BioParque Memorial Mamonas — um espaço que une homenagem e sustentabilidade.
Quem eram os cinco jovens de Guarulhos?
Dinho - vocalista (24 anos)
Nascido em Irecê (BA) e criado em Guarulhos, começou a cantar no coral da igreja. Abandonou os estudos no segundo grau e apostou no talento artístico. Tinha forte presença de palco, improvisava com naturalidade e participava ativamente das composições. O relacionamento com Mirella Zacanini inspirou versos de “Pelados em Santos”. Os dois ficaram juntos por quase quatro anos antes da fama da banda. No auge da fama, emplacou um romance com Valéria Zopello.
Bento Hinoto - violão (25 anos)
Filho de descendentes japoneses, nasceu em Itaquaquecetuba (SP). Ganhou o primeiro violão aos 14 anos e depois uma guitarra trazida do Japão. Era considerado o mais técnico da banda e o único a ter frequentado universidade, cursando Física por alguns períodos.
Sérgio Reoli - bateria (26 anos)
Fundador do grupo e irmão de Samuel, era conhecido pelo bom humor e pelas piadas constantes. Inspirava-se em bandas nacionais e internacionais e imprimia energia intensa às apresentações.
Júlio Rasec - teclado (28 anos)
Considerado muito inteligente desde criança, tornou-se um dos principais compositores ao lado de Dinho. A formação musical e criatividade ajudaram a estruturar a mistura de estilos que definiu a sonoridade do grupo.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Samuel Reoli - baixo (22 anos)
O mais jovem da banda, preferia desenhar aviões na adolescência e trabalhou como office boy e em fábrica antes de assumir o baixo. Foi ele quem sugeriu uma das primeiras versões do nome do grupo.