Curta vencedor do Oscar está disponível no Brasil
‘Quartos vazios’, que entrevista pais de crianças vítimas de massacres em escolas nos Estados Unidos, está no catálogo da Netflix
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Quando subiu ao palco do Dolby Theatre, no último domingo (15/3), para receber o Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem por “Quartos vazios”, o diretor Joshua Seftel levou Gloria Cazares, mãe da menina Jackie, morta em 2022, aos 9 anos, durante ataque a tiros na escola onde estudava, em Uvalde, no Texas.
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“Desde aquele dia [da morte de Jackie], o quarto dela está congelado no tempo. Jackie é mais do que uma manchete. Ela é nossa luz e nossa vida”, disse Gloria. “Ataques com armas são hoje a causa número um das mortes de crianças e adolescentes. Acreditamos que, se o mundo visse esses quartos vazios, teríamos uma América diferente”, concluiu.
O desabafo de Gloria sintetiza a razão de ser do documentário disponível na Netflix. Desde 1997, os tiroteios em escolas norte-americanas saltaram de 17 para 132 por ano, e, em praticamente todos esses casos, a imprensa deu maior destaque aos atiradores do que às vítimas.
“Quartos vazios”, portanto, surge como uma espécie de contraponto, ao abordar a história de quatro vítimas desses massacres: Dominic Blackwell, de 14 anos; Hallie Scruggs, 9; Gracie Muehlberger, 15 anos; e Jackie Cazares.
Dupla de repórteres
O fio condutor das histórias é o jornalista Steve Hartman, repórter da CBS News, e o fotógrafo Lou Bopp. Hartman cobre atentados em escolas há 29 anos e foi ele quem percebeu a predominância de uma narrativa concentrada nos assassinos em detrimento das vítimas, o que, de certa forma, banaliza a vida de crianças e adolescentes mortos nos tiroteios.
“Por anos, eu escrevia matérias no fim de cada semana de tiroteio escolar. Às vezes, era sobre um herói, outras, sobre um país se unindo. O que quer que fosse, elas [as matérias] procuravam alguma mensagem positiva”, conta o jornalista.
“Fiz tantos desses relatos que parecia que eu estava me repetindo. Eu usava as mesmas frases nas reportagens. E percebi que os americanos estavam superando cada tiroteio escolar cada vez mais rápido”, comenta.
Em determinado momento da carreira, Hartman se sentiu “maquiando o fato por tentar encontrar ‘notícias positivas’ nos atentados”. Foi quando deu início ao projeto de registrar os quartos de crianças e adolescentes vítimas de tiroteios em escolas que ficaram preservados pelos pais.
Hartman convidou Lou Bopp para fazer uma série de fotos a serem entregues aos pais dos garotos. Joshua Seftel, por sua vez, se interessou pelo trabalho da dupla e transformou o projeto fotográfico no ponto de partida do curta.
Devastador
“Devastador e necessário”, conforme declarou a organização que financia pesquisas sobre o papel da mídia na vida de crianças, Common Sense Media, “Quartos vazios” deixa de lado o foco político para se concentrar na perda humana. Faz isso sem recorrer a imagens de violência.
O que se vê são vidas interrompidas de maneira precoce e traumática. Gracie Muehlberger, por exemplo, tinha fortes inclinações artísticas. A garota costumava apresentar performances no próprio quarto, distribuindo cadeiras e ingressos feitos à mão para que os pais assistissem. No quarto, suas roupas estão do mesmo jeito que foram deixadas em 2019 e até os fios de cabelo continuam na escova sobre a penteadeira.
Hallie Scruggs era mais ligada ao esporte. Irmã caçula de dois meninos, John e Charlie, ela não se importava com a diferença de idade e de gênero. Entrava em bolas divididas no futebol, jogava basquete com os dois e futebol americano. Também se empolgava com roupas estampadas e mantinha um paninho com o qual dormia sempre. Tudo preservado desde que ela morreu, em 2023.
“Sabe quando você quer algo que não pode ter? Eu queria o cheiro dela de volta, queria tocá-la, queria sentir o cabelo suado. A cama dela foi o mais perto disso que consegui”, diz Chad Scruggs, pai da menina.
Familiares de Dominic Blackwell o descrevem como um garoto engraçado, bondoso e sociável, o que parece ser verdade pelo riso contagiante que ele exibe nas fotos. Quando morreu, em 2019, participava de um time juvenil de futebol americano e também de programa escolar voltado à formação cívica e liderança entre estudantes.
Jackie era extrovertida, afetuosa e cheia de energia. Adorava cantar, gravar vídeos nas redes sociais e brincar com os quatro cachorros da família, motivo pelo qual dizia querer se tornar veterinária. Morreu junto com 18 alunos e dois professores no ataque à Robb Elementary School, em 2022, num dos massacres escolares mais traumáticos da história recente dos Estados Unidos.
“Quero que o projeto lembre às pessoas que essas eram nossas crianças, que eram nossos filhos e que poderiam ser os filhos de qualquer pessoa”, afirma Hartman.
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“QUARTOS VAZIOS”
(EUA, 2025, 33 min.) Direção: Joshua Seftel. Documentário. Disponível na Netflix.