Em determinado momento de “O agente secreto”, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho que concorre ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Filme Internacional, Ator e Direção de Elenco, Marcelo (personagem de Wagner Moura) surge vestindo a camisa da Pitombeira dos Quatro Cantos.


Bastou essa cena para que o adereço do tradicional bloco de Olinda se transformasse em objeto de desejo. Resultado: a camisa esgotou em poucos dias.


Diante da procura repentina, a troça – nome de agremiações históricas e típicas do carnaval pernambucano; entre elas a Pitombeira – usou as redes sociais para alertar os foliões que vendas fora do site oficial e dos pontos autorizados configuram pirataria e devem ser evitadas.


A agremiação aproveita o sucesso repentino para aliviar o caixa e ajudar a financiar as despesas com o carnaval deste ano e do próximo.


Fundada em 1947, a Pitombeira é uma das mais tradicionais agremiações do carnaval pernambucano. Ela desfila na manhã desta segunda-feira de carnaval (16/2), saindo da sede, no bairro do Carmo, e tomando as ladeiras do Sítio Histórico ao som exclusivo do frevo.


Amarelo e preto nas cores, estandarte à frente e orquestra de metais abrindo caminho, o bloco arrasta milhares de foliões e reafirma, ano após ano, seu vínculo com a memória afetiva da cidade.


ÁRVORE

A agremiação, afinal, nasceu da iniciativa de moradores da região no intuito de exaltar a região – o nome Pitombeira, inclusive, é referência a uma árvore de espécie homônima que havia no local onde o bloco surgiu.


Essa mesma ideia de pertencimento aparece no filme de Kleber Mendonça Filho de maneira muito sutil, quando o personagem de Wagner Moura usa a camiseta do bloco. Ao vestir o protagonista com o símbolo de uma troça tradicional – ideia da figurinista Rita Azevedo –, Kleber Mendonça Filho acrescenta à narrativa uma camada de identidade cultural.


O que para os olindenses é memória e tradição, na tela ganha circulação ampliada, passando por festivais internacionais, sendo assunto de conversas e retornando às ruas sob a forma de consumo imediato.

No Globo de Ouro, onde conquistou a estatueta de Melhor Ator em Filme de Drama, Wagner Moura apostou em look da grife Maison Margiela Amy Sussman/Getty Images via AFP
No almoço dos indicados da 98ª edição do Oscar, Wagner Moura ousou no look. Com um monocromático marrom, o ator vestiu Zegna Kevin Winter/Getty Images via AFP
Na Noite dos Indicados do The Hollywood Reporter, em Los Angeles, na Califórnia, Wagner Moura chegou ao tapete vermelho com terno azul escuro Leo Bennett/Getty Images via AFP
Em Nova York, o protagonista de 'O agente secreto' surge em look todo branco para o New York Film Critics Circle Awards Cindy Ord/Getty Images via AFP
Fugindo dos tons escuros, Moura marca presença no 41º Annual Santa Barbara International Film Festival, em Santa Barbara, na Califórnia, com diferentes tons de azul claro Kevin Winter/Getty images via AFP
No 31º Annual Critics Choice Awards, em Santa Monica, na California, Wagner Moura investe em um look todo preto, com camisa que remete ao estilo de um quimono Frazer Harrison/Getty Images via AFP
Wagner Moura marcou presença no desfile da coleção de inverno masculina da Dior, na Semana de Moda de Paris. Ele apostou em um terno cinza e uma camisa com detalhes em xadrez Bianca Cruz/AFP
Wagner Moura aposta em terno preto, com um toque de cintilante, no Astra Film Awards, em parceria com o The Hollywood Creative Alliance em Beverly Hills Frazer Harrison/Getty Images via AFP


A troça pernambucana, no entanto, diz enfrentar dificuldades, apesar da popularidade. Em nota publicada no Instagram, afirmou que “a crescente presença de baterias de samba com paredões de som de alta potência, além de descaracterizar o ambiente sonoro do carnaval olindense, interfere diretamente no desfile das agremiações tradicionais”.


Segundo a Pitombeira, essa prática “atropela os pulmões artísticos dos músicos das orquestras, bloqueia cortejos históricos de forma inadvertida, ameaça o patrimônio material em razão da potência sonora e agride o mais aclamado patrimônio carnavalesco de Pernambuco: o frevo”.


Não se trata de disputa entre culturas, pondera o comunicado, “mas de adequação ao território cultural e à legislação de proteção do patrimônio material e imaterial”.

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O paradoxo é evidente. Enquanto enfrenta desafios para preservar a sonoridade e o espaço das orquestras de frevo nas ladeiras de Olinda, a Pitombeira experimenta uma projeção inédita, graças ao cinema. A mesma camisa que se converteu em circulação comercial devido ao sucesso de “O agente secreto”, que já ultrapassou 2 milhões de espectadores no cinema, é símbolo de resistência cultural hoje nas ruas.

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