Los Angeles – Nas três últimas décadas, despontaram em Recife 25 cineastas que fazem parte de uma cena muito interessante. As palavras são de Kleber Mendonça Filho, em entrevista publicada na última semana na revista “The New Yorker”. “Os filmes são muito pessoais e incomuns, mas também conseguiram estabelecer uma comunicação com o público – não foram sucesso de bilheteria, mas se tornaram algo relevante”, acrescentou.


Exceção à regra, “O agente secreto” é pessoal, incomum e se comunica com o público. O sucesso de bilheteria no Brasil está ressoando em plateias que nunca ouviram falar da palavra pirraça e tampouco da perna cabeluda, lenda nascida na imprensa pernambucana nos anos 1970 para burlar a censura. Uma prova disso veio de uma conversa que o Estado de Minas teve com jornalistas e críticos estrangeiros em Los Angeles. 

“É um filme que você precisa assistir com a cabeça aberta para o que está acontecendo nessa parte do mundo. As pessoas, especialmente em 2026, não querem olhar para as coisas que estão fora do (próprio) mundo”, comenta o canadense Daniel Baptista, apresentador do “The Movie Podcast”, referência no debate de filmes e séries em seu país.

Filho de imigrantes portugueses, o único estado brasileiro que Baptista já visitou é São Paulo. Nunca foi ao Nordeste, pouco sabe dessa região do Brasil. “Não achei difícil me conectar com o filme. A maior barreira que as pessoas enfrentam, especialmente na América do Norte, são as legendas. Ninguém quer ler”, comenta ele, que, contrariando seus patrícios, faz questão de legendas. 

“Na primeira metade do filme, eu me familiarizei com a história. Mas depois é que passei a entender o que estava acontecendo, o que aconteceu com a mulher (Fátima, papel de Alice Carvalho) do personagem (Marcelo/Armando, interpretado por Wagner Moura). O que mais amo nela é o quanto ela o protege, como vemos na cena do jantar.”

Baptista refere-se à cena do embate entre o casal e o empresário Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli) e seu filho, Salvatore (Gregorio Graziosi). É uma das preferidas dele, assim como a da perseguição no Centro do Recife ao som da Banda de Pífanos de Caruaru.

Esta é a favorita também de Juan Carlos García, do jornal “Reforma”, da Cidade do México. “O filme é muito bem estruturado, com direção precisa e, do começo ao fim, há uma tensão narrativa que te prende. Você nunca sabe o que vai acontecer”, diz ele. 

Popular jornalista e apresentador argentino, Javier Ponzo considera a mesma sequência “hipnótica”. Votante do Globo de Ouro, assistiu ao filme pernambucano há dois meses. “Ele tem muitos ingredientes que fazem você pensar: ‘Tudo está caminhando na direção do que aconteceu com o Globo de Ouro e outras premiações’”, diz ele, referindo-se ao Oscar.

É fato que o caminho que “O agente secreto” trilha agora foi pavimentado por “Ainda estou aqui”, de Walter Salles. Dos cinco especialistas em cinema ouvidos pelo EM, somente o mexicano García soube citar, prontamente, outro longa nacional que não o vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2025. E foi justamente “Cidade de Deus” (2002), a primeira produção brasileira nomeada a quatro categorias na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

“’Cidade de Deus’ é um dos filmes mais bonitos que já vi. Mas eu também amo a música brasileira (e o longa é recheado de clássicos). A diversidade cultural do Brasil é muito singular, ele não tem uma única tendência. Acho que o que aconteceu com a música no passado está acontecendo agora com o cinema, e esse estilo distinto está destacando os filmes mundialmente”, disse García.

Wagner Moura

Se há uma unanimidade nas observações é sobre Wagner Moura. Jornalistas filipinos radicados em Los Angeles, ambos votantes do Globo de Ouro, Ruben e Janet Nepales conheceram o filme de Mendonça Filho no Festival de Cannes, em maio passado. Voltaram a assisti-lo para a premiação que deu o troféu a Moura de Melhor Ator e ao longa de Melhor Filme de Língua Não Inglesa. 

“Acho que ele merece o Oscar de Melhor Ator. É muito bom”, diz Janet. “Também adorei a atuação dele. A história me tocou porque, de onde venho, tivemos um regime militar (o governo de Ferdinand Marcos, dos anos 1960 até os 1980). E a maneira com que a trama foi contada é fascinante”, acrescenta Nepales.

Desde 1961 — quando usou o tapete vermelho pela primeira vez —, o Oscar ajudou a transformar objeto em um espetáculo à parte, com transmissões televisivas focadas nos figurinos, entrevistas e chegada dos artistas. Reprodução/YouTube
A ligação direta com o entretenimento começou em 1922, quando um tapete vermelho foi usado na estreia do filme "Robin Hood", no Egyptian Theatre, em Hollywood, para guiar as estrelas até seus assentos. Freepik/rawpixel.com
Nos Estados Unidos, há registros do uso do tapete vermelho já no século 19, especialmente em recepções oficiais e eventos políticos. Flickr - G20 Argentina
Séculos depois, o simbolismo continuou a ser usado em cerimônias reais e diplomáticas. Moshe Harosh/Pixabay
No texto, o rei Agamemnon retorna vitorioso da Guerra de Troia. Sua esposa, Clitemnestra, ordena que um caminho carmesim (vermelho escuro) seja estendido para ele. Sandra Filipe/Unsplash
A primeira menção histórica a um tapete vermelho aparece na literatura da Grécia Antiga, especificamente na peça Agamemnon (458 a.C.), de Ésquilo. Freepik
Muito antes de se tornar um elemento do glamour de Hollywood, o tapete vermelho nas premiações tem uma origem antiga e simbólica, ligada à ideia de honra e poder. Flickr - Steve Collis
Um dos grandes destaques em premiações como o Globo de Ouro, o tapete vermelho é sempre um momento que desperta atenção da audiência. Mas você sabe como surgiu essa tradição? Veja a seguir! Reprodução
Entre os filmes, “Uma Batalha Após a Outra” também se destacou, vencendo quatro categorias, entre elas Melhor Filme de Comédia ou Musical e Melhor Direção para Paul Thomas Anderson. Divulgação/Warner Bros. Pictures
Destaque para Owen Cooper, de 16 anos, que se tornou o mais jovem vencedor da categoria de Melhor Ator Coadjuvante em Televisão. Reprodução
Nas categorias de TV, a série “Adolescência” foi a mais premiada da noite, levando quatro troféus, incluindo Melhor Série Limitada. Divulgação
Ao receber o troféu de Melhor Ator, Wagner Moura fez um discurso emocionado, agradeceu aos colegas indicados e ao diretor. Ele ainda encerrou falando em português, exaltando o Brasil e a cultura brasileira. Reprodução/TV Globo
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, "O Agente Secreto" marcou o retorno do Brasil à lista de vencedores do Globo de Ouro após 27 anos, desde o triunfo de “Central do Brasil”. Divulgação
O longa também concorreu a Melhor Filme de Drama, mas o prêmio ficou com “Hamnet”, adaptação do livro de Maggie O’Farrell que narra a história do filho de William Shakespeare e o amor que inspirou a criação de “Hamlet”. Divulgac?a?o/Agata Grzybowska/Focus Features
A produção conquistou dois prêmios: Melhor Filme de Língua Não Inglesa e — pela 1ª vez na história — Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura. Divulgação
O filme brasileiro “O Agente Secreto” foi um dos grandes destaques do Globo de Ouro 2026, realizado neste dia 12 de janeiro, em Los Angeles. Divulgac?a?o/Globo


Daniel Baptista entrevistou Moura no Festival Internacional de Cinema de Toronto (Tiff), em setembro de 2025. “Conversamos também sobre jiu-jitsu, que ele pratica. E no jiu-jitsu, uma pessoa menor pode enfrentar uma muito maior. Então fizemos essa conexão com a história do filme, que é a de uma pessoa enfrentando o governo, algo muito maior do que você mesmo.”


“Acho que Wagner Moura é um dos atores que melhor representa sua geração”, acrescentou o mexicano García, que se esqueceu do nome de uma atriz com uma grande atuação. “Tânia Maria?”. “Essa mesma. Ela é uma joia, e você realmente gosta dela.” 

Ruben Nepales foi outro estrangeiro que se encantou pela potiguar, a comissão de frente de um elenco diverso que tem feito a diferença pela autenticidade. “Adoro aquela senhora idosa. Ela é tão real. E o tipo de cena como a que ela faz é o que torna o filme realista.” 

NO BRASIL E LÁ FORA

Confira a bilheteria acumulada até aqui por “O agente secreto”*

Brasil......................................... 2,19 milhões de espectadores
França ....................................................407 mil espectadores
EUA ....................................................... 360 mil espectadores
Portugal .................................................... 80 mil espectadores

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* Em 20/2, o filme estreia no Reino Unido e na Irlanda

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