Dennis Carvalho dirigiu cenas clássicas, como a morte de Odete Roitman
Diretor de alguns dos maiores sucessos da teledramaturgia nacional, como 'Vale tudo', ele morreu aos 78 anos, neste sábado (28/2), no Rio de Janeiro
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Dos 78 anos vividos por Dennis Carvalho, pelo menos 64 se passaram entre estúdios e locações de TV. Mas mesmo que ele não tivesse seus créditos como diretor estampado em 31 novelas e onze séries, e atuado em 27 produções diante das câmeras, bastariam dois títulos para enaltecer sua biografia: o seriado "Malu Mulher" (1979-80), marco revolucionário para o feminismo, e "Vale Tudo" (1988-89), considerada por nove entre 10 especialistas do ramo a melhor telenovela brasileira de todos os tempos, ao lado de "Roque Santeiro".
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Em "Malu Mulher", onde também trabalhou como diretor, ainda subordinado a Daniel Filho, foi o macho tóxico que fazia par com a protagonista, vivida por Regina Duarte. Na função de ex-marido, Pedro despertava nela a autoestima que a levava a buscar independência afetiva e financeira.
Ao abordar assuntos que hoje são ainda mais raros na TV, como aborto, orgasmo e métodos anticoncepcionais, o seriado enfrentou problemas com a censura federal, mas fez história ao levar reflexões inéditas à sociedade daqueles dias.
Em "Vale Tudo", basta dizer que foi Carvalho quem comandou as gravações da histórica sequência que revelava quem matara Odete Roitman, vilã icônica vivida por Beatriz Segall. Cenas de bastidores registradas pelo Fantástico, à época, mostram o momento em que o diretor anunciou a todo o elenco que era Leila, personagem de Cássia Kis, a assassina.
"Fiquei assustada. Nunca imaginei, era uma pessoa tão tranquila", dizia uma telespectadora ouvida na rua por Glória Maria na ocasião. Pois é. O depoimento endossava a surpresa do público com a criminosa.
E só na manhã da mesma sexta-feira em que o último capítulo foi ao ar, Carvalho gravou as cenas que denunciavam a autoria do homicídio, a fim de evitar o vazamento da informação para jornais e revistas.
Havia o risco de o spoiler chegar ao público pelas ondas do rádio ou de fofoqueiros de outros canais de TV, algo sem muito espaço naqueles dias em que as notícias demoravam mais a se espalhar: "Vamos matar Odete Roitman", avisou ele, com cigarro Hollywood entre os dedos e o maço sobre a mesa de onde coordenava a edição.
"Pegar uma novela dessas, muito bem escrita, muito bem interpretada, uma história que você não conseguia parar de ver, e o sucesso que fez no Brasil inteiro... Eu acho que eu escrevi também o meu nome na história da televisão", disse ele à reportagem do "Fantástico".
Outra passagem histórica dirigida por Carvalho no capítulo final era o gesto da banana feito pelos braços de Marco Aurélio (Reginaldo Faria), empresário corrupto, ao sobrevoar a Baía de Guanabara com seu jatinho. A sequência fazia parte de um plano bem-sucedido de fuga do país, para não ser preso.
Vinte e dois anos depois, o autor Gilberto Braga, de novo sob direção de Carvalho, recriaria a cena da banana, dessa vez com Herson Capri no papel do empresário corrupto na novela "Insensato Coração", e a percepção de que o Brasil de 2011 já não aceitava mais impunidade, o que levava o personagem a ser detido antes da fuga.
Corta. Saltemos para 2018: vendo que "Vale Tudo" voltaria a fazer sucesso no canal Viva, o autor constatou que a trama não havia perecido, pois ser honesto no Brasil ainda era uma prova de resistência sem valor. O dramaturgo então cancelou seu otimismo e lamentou que o país não tivesse mudado nada em 30 anos.
Parecia que não, mas alguma coisa havia mudado, sim. Carvalho seria desafiado a notar essa transformação em 2017, ao se ver confrontado por um movimento que ganhou força nas redes sociais e depois entre o próprio elenco de "Segundo Sol", que questionava a ausência de atores negros no núcleo principal de uma novela ambientada na Bahia, estado onde mais da metade da população se declara afrodescendente.
A Globo já fizera várias novelas na Bahia com maioria branca, sem jamais ter sido cobrada por isso antes. Novos tempos. Ao ser questionado sobre o assunto na ocasião, o diretor respondeu a esta jornalista: "Não vamos forçar a barra, acho que a Globo tem uma preocupação com isso, mas é uma obra de ficção, não é documentário, tem que ter uma licença poética".
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Normalmente celebrado pelos atores que dirigia, era pragmático nas decisões referentes ao set e também era bem capaz de desagradar a uns e outros. Em 2011, no início da produção de "Insensato Coração", anunciou que Ana Paula Arósio estava fora da novela após ela deixar de comparecer a gravações agendadas em Florianópolis. Arósio, que justificou sua ausência por questões particulares, pediu seu desligamento da Globo em seguida. Paolla Oliveira assumiu seu papel.