Com ecos de Kafka, ‘Dois procuradores’ mostra a violência stalinista
Longa em cartaz em BH desvela a brutalidade dos regimes ditatoriais, colocando a lupa num procedimento burocrático em torno da aplicação da lei e da Justiça
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Em “Dois procuradores” não é tão difícil encontrar ecos de Franz Kafka. Encontramos um mundo com um sentido que nos escapa, orientado por leis desconhecidas. Dessa forma, prisioneiros no gulag, em 1937, escrevem cartas a Josef Stálin para denunciar os erros absurdos cometidos por seus subordinados.
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Os expurgos estavam a pleno vapor. As acusações não visavam inimigos do regime, mas supostos traidores, normalmente velhos bolcheviques. Eles estavam recolhidos às masmorras e acreditavam que Stálin não sabia de nada. É nessas condições que o procurador Korniev, membro do Partido Comunista, chega a um presídio para falar com o autor de um bilhete endereçado ao ditador.
O relato do detento é espantoso e leva o procurador a passar por cima das autoridades regionais e bater direto no procurador-geral da União Soviética, Andrei Vichinski.
Não será fácil chegar até ele. Colocam Korniev numa sala longa, cheia de senhores que, sentados e silenciosos, aguardam audiência com o importante homem de Estado. Ele passa a tarde ali, mas é persistente. Algumas pessoas que ele não conhece o cumprimentam efusivamente. Ele estranha e espera. A sala se esvazia. Sua determinação é recompensada – ele falará com Vichinski.
Regimes ditatoriais
Daqui por diante, a convenção impede de prosseguir com a narrativa, sob pena de cometer “spoiler”, embora todos saibam que Sergei Loznitsa, autor do filme, seja um ucraniano dedicado ao estudo dos regimes ditatoriais.
Mas é certo que estaremos diante de uma espécie de duelo entre Korniev, homem sem pretensão, exceto a de servir a um sistema de justiça, e Vichinski, que encarna esse sistema. Duelo que reúne dois atores extraordinários – Alexander Kuznetsov e Anatoliy Beliy.
No filme, em todo caso, há certos aspectos bem desenvolvidos. Se as leis são desconhecidas, como elas funcionam? Quem as faz funcionar? Vichinski, o procurador-geral, é certamente peça central. Mas está longe de ser a única.
Os guardas da prisão e seus comandantes também são fundamentais. Eles contemplam o sofrimento dos prisioneiros com satisfação. Mas talvez não sejam sádicos de origem. Talvez intuam que esse sofrimento poderia muito bem ser seu. Eles não acreditam no sistema, mas apenas que devem seguir as ordens para não acabarem que nem os prisioneiros.
Leis desconhecidas
Eles conhecem as leis desconhecidas e a ordem que representam. O procurador Kirev, não – ele conhece as leis escritas, vai até as leis romanas e acredita que são partilhadas por todos. É isso que, afinal, o levará à porta da Justiça de que falou Kafka – a tal porta que existia só para ele.
É claro que “Dois procuradores” terá provocado na Europa, infalivelmente, a associação entre o regime stalinista e o atual domínio de Vladimir Putin. Faz sentido. A morte de Vichinski teve como causa oficial uma parada cardíaca e ocorreu em Nova York, em 1954. Mas, em paralelo, no mesmo período, Nikita Kruschov se afirmava no poder, tendo já eliminado seus dois rivais mais imediatos. Isso sugere a ideia de que a lógica stalinista permaneceu viva sem Stálin.
Loznitsa é um tanto reticente. Afirma que fez seu filme como se ele fosse os olhos de Georgi Demidov, dono do relato que deu origem à obra. Ao mesmo tempo, lembra que reverenciar a memória não é só se referir ao passado.
No período em que o filme se detém, a perseguição principal foi a líderes bolcheviques. Mas, pelo que Loznitsa nos mostra, não era preciso pertencer ao partido para acabar no gulag.
Se o longa ilustra e atualiza essa brutalidade, é porque o mundo atual também é pontuado por violências inomináveis contra inimigos em geral, praticadas por tiranias. A elas responde com imagens rigorosas, retomando a estranha coloração dos filmes da Europa do Leste nos tempos em que se rodava com negativo.
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“DOIS PROCURADORES”
(França, Alemanha, Holanda, Letônia, Romênia, Lituânia, 2025, 117 min.) Direção: Sergei Loznitsa. Com Aleksandr Kuznetsov, Aleksandr Filippenko, Anatoliy Beliy. Classificação: 12 anos. Em cartaz no UNA Cine Belas Artes (Sala 3, 20h45).