Dona Beja, novela de Daniel Berlinsky, moderniza mito da poderosa de Araxá
Entre ficção, história e lenda, o novo folhetim da HBO Max é feminista, tem negros bem-sucedidos e homem 'dissidente de gênero', com roupas de mulher
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A memória registra; a imaginação completa. Desse pacto nasce o mito. E é nele que Dona Beja se sustenta há pouco mais de 150 anos. Natural de Formiga (MG), Ana Jacinta de São José, nome de batismo de Beja, mudou-se com a mãe e o avô para Araxá por volta de 1805, quando tinha 5 anos. Ao chegar à juventude, destacou-se pela beleza – daí o apelido Beja, dado pelo avô em referência à flor-do-beijo.
Aos 15 anos, ela foi raptada por Joaquim Ignácio Silveira da Motta, ouvidor do rei Dom João VI. Durante dois anos, viveu como amante do magistrado em Paracatu, até ser abandonada quando ele foi chamado ao Rio de Janeiro. De volta a Araxá, encontrou um ambiente hostil. A sociedade não a enxergava como vítima, mas como promíscua e depravada. Sem ter a quem recorrer – já perdera mãe e avô –, usou recursos próprios para fundar a Chácara do Jatobá, um bordel frequentado pela elite.
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Reza a lenda que Beja não se colocava disponível a qualquer interessado, escolhia se entregar ao homem que mais lhe agradasse. Quase sempre, homem casado. Teve duas filhas, acumulou bens, comprou propriedades e, mais tarde, mudou-se para Estrela do Sul, no Triângulo Mineiro. Investiu no garimpo de ouro e diamantes, foi próspera economicamente.
Revolução Liberal
Há controvérsias, contudo. Na década de 1990, o jornalista Pedro Divino Rosa publicou a biografia “Dona Beija”. Com base em documentos originais e entrevistas com descendentes – entre eles, a única bisneta viva da biografada –, ele contesta a ideia de que ela tenha morado em Paracatu, relativiza a imagem de excessos associada à Chácara do Jatobá e defende que Beja foi atuante na política do século 19, inclusive com apoio financeiro à Revolução Liberal de 1842.
Verdade ou mito, fato é que a personagem segue inspirando romances, enredos de escola de samba e produções televisivas. A mais recente é a novela “Dona Beja”, da HBO Max, escrita por Daniel Berlinsky.
Estrelado por Grazi Massafera, o folhetim é baseado na produção da Rede Manchete exibida em 1986. Não se trata de remake, mas de releitura. “Assisti aos capítulos disponíveis no YouTube e tive acesso à íntegra do roteiro. A partir dele, fomos aprofundando os personagens para que a novela não ficasse centrada apenas na Beja”, conta Berlinsky.
Os personagens e a essência da trama se mantêm. Beja está noiva do advogado Antônio Sampaio (David Junior), por quem é apaixonada, mas, pouco antes do casamento, é raptada pelo ouvidor. Vive como amante dele em Paracatu e depois retorna a Araxá, onde enfrenta o preconceito da sociedade e o rompimento com Antônio. Funda, então, a Chácara do Jatobá.
Coadjuvantes de fôlego
Personagens coadjuvantes dão fôlego à novela. Entre eles, destacam-se Antônio Sampaio, Josefa (Thalma de Freitas), Carminha (Catharina Caiado) e Severina (Pedro Fasanaro).
Antônio Sampaio é um homem negro, nascido em família miscigenada, na qual ex-cativos ascenderam socialmente. Sua atuação no direito dialoga com questões raciais, sobretudo por ele próprio ser alvo de preconceito. Josefa também é negra. Casada com um advogado negro, é uma das poucas mulheres instruídas de Araxá, mas, em meio ao conservadorismo local, precisa se posicionar à sombra do marido.
Carminha pertence à elite, mas foge dos padrões de beleza e comportamento. Oprimida pela mãe, descobre uma nova identidade ao longo da trama.
Já Severina protagoniza uma das subtramas mais instigantes. Inicialmente apresentada como Severo, é copeiro do ouvidor e está prestes a ser morto sob acusação de heresia por se vestir de mulher. Escapa graças à intervenção de Beja, que pede ao ouvidor que ele se torne sua dama de companhia.
“Algumas pessoas estão achando que se trata de mulher trans. Mas não é isso”, afirma Berlinsky. “Severina é uma pessoa dissidente de gênero, alguém cuja identidade não segue as normas binárias e a cisgeneridade impostas socialmente”, explica.
Panfleto
Houve cuidado para que a novela, com tantas novidades, não se transformasse em panfleto político. “Fizemos pesquisa muito grande para saber se essas modificações seriam coerentes com o contexto histórico”, diz o autor, lembrando as críticas à presença de personagens negros socialmente ascendidos.
“Em documentos pesquisados, consta que, naquela época, três em cada quatro pessoas negras não eram escravizadas no Brasil. Em Araxá, especificamente, metade da população negra era livre. Então, não vejo por que não retratar um personagem negro que tenha ascendido socialmente”, diz.
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Berlinsky acrescenta: “A militância tem o papel dela. O que estamos fazendo é arte, entretenimento e história com o objetivo de fazer as pessoas refletirem e se emocionarem”.