HBO anuncia releitura de ‘Dona Beja’ como ‘novela incômoda’
Com Grazi Massafera no papel-título, produção estreia na próxima segunda (2/2) e abordará questões como racismo, machismo, homofobia e desigualdade social
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Ana Jacinta de São José, nome real da lendária Dona Beja, se tornou um mito ainda viva no século 19. Com o tempo, ela atravessou romances, novelas e lendas por viver fora das normas de seu tempo – mãe solo, independente, alvo de boatos e julgamentos.
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Quarenta anos depois da versão protagonizada por Maitê Proença na Rede Manchete, a personagem retorna em uma releitura da HBO Max que usa o passado para falar do presente, sem a ambição de repetir a história original.
“A gente enfia o dedo na ferida da sociedade”, disse Grazi Massafera, que assume o papel da protagonista na nova versão. O projeto, que estreia em 2 de fevereiro, se propõe a ser uma releitura – e não um remake – e usa uma trama de época para tratar de conflitos que seguem atuais.
Na nova versão, Beja volta a ser a mulher considerada escandalosa por desafiar convenções morais. Mas o foco não está apenas no romance ou na fama de cortesã. “A novela original já mostrava uma mulher à frente do seu tempo. Mas hoje o horizonte dela é muito mais longe. A sociedade mudou menos do que a gente gostaria, mas a nossa consciência sobre essas questões se ampliou”, disse o autor Daniel Berlinsky, em conversa com a imprensa, na manhã de ontem (27/1).
A proposta é incluir temas como racismo, machismo, homofobia, transfobia e desigualdade social, sem deslocá-los do contexto histórico. Para o autor, o incômodo é parte central da dramaturgia. Berlinsky afirma que se trata de uma “novela incômoda” e que a história convida o público a se manter em movimento. “A única coisa que eu peço é: pense, ache o que você quiser, mas se permita sentir.”
Independência feminina
Grazi deixou claro que não espera consenso. “Os mais conservadores vão dizer que é lacração. E isso é bom também. A gente quer isso”, afirmou. “Porque quando você mexe, quando você provoca, você obriga a sociedade a se olhar no espelho.”
Para a atriz, Beja surge menos como símbolo erótico e mais como uma figura de empoderamento e independência feminina. “É a primeira vez que eu sinto que estou realmente encarnada em um personagem com toda a minha potência. Ela me ensinou a confiar mais no instinto, na intuição, na coragem de ser quem se é, mesmo quando o mundo inteiro aponta o dedo.”
Outro eixo central da nova versão é a reconstrução histórica. Ao pesquisar a mulher real que inspirou a personagem, Berlinsky descobriu o quanto sua trajetória foi distorcida ao longo do tempo. “O que se sabe de verdade sobre ela cabe em meia página. Ela era uma mulher solteira, com duas filhas, que se sustentava sozinha. Só isso já bastava para virar escândalo”, explicou.
Foco ampliado
A partir desse ponto, a novela amplia o foco e ilumina personagens e experiências apagados pela historiografia oficial. “Descobri que, em 1872, três em cada quatro negros no Brasil já não estavam mais no cativeiro. Ninguém aprende isso na escola”, disse o autor. “Existiram negros com posses, com terras, com poder político. Eles sempre estiveram aqui. A gente só não foi autorizado a ver.”
O elenco, composto por nomes como André Luiz Miranda, David Júnior, Deborah Evelyn, Erika Januza e Indira Nascimento, também destacou como a diversidade aparece como tema central na trama e atravessa a trajetória pessoal de cada personagem.
“Me sinto muito honrado de poder representar um personagem que tinha posses, que tinha terras, herança, que tinha o poder de existir, de sonhar e não só de sobreviver”, aponta David Júnior, que interpreta Antônio, o grande amor da protagonista.
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“Essa história não é só sobre o passado. É sobre agora. Sobre todas as mulheres e pessoas que foram julgadas, apagadas, silenciadas e que continuam aqui”, afirma Grazi. (Ana Clara Cottecco)