A primeira polêmica do Oscar não demorou a surgir. E veio da Espanha. Oliver Laxe, diretor de “Sirât”, um dos cinco indicados a Melhor Filme Internacional, criticou a presença do brasileiro “O agente secreto” na disputa, no dia seguinte ao anúncio dos indicados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, feito na última quinta-feira (22/1).


Em entrevista ao programa espanhol “La revuelta”, Laxe afirmou: “Há muitos brasileiros na Academia, e nós os adoramos, mas eles são ultranacionalistas. Acho que se o Brasil submetesse um sapato ao Oscar, todos votariam nele”. A frase rapidamente viralizou e foi considerada desrespeitosa com o filme de Kleber Mendonça Filho, que obteve quatro indicações à estatueta. Além de Melhor Filme Internacional, “O agente secreto” concorre a Melhor Filme, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco (Gabriel Domingues).


“Sirât” foi indicado a Melhor Filme Internacional, categoria para a qual também foram selecionados o iraniano “Foi apenas um acidente”, o norueguês “Valor sentimental” e o tunisiano “A voz de Hind Rajab”, e a Melhor Som.


A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tem aproximadamente 11 mil integrantes. Os brasileiros representam 0,7% dos integrantes que decidem as indicações e vitórias no Oscar.


Assim como “O agente secreto”, “Sirât” competiu no Festival de Cannes, em maio do ano passado. O longa de Kleber Mendonça Filho deixou a Croisette com os prêmios de direção e ator (Wagner Moura). O filme de Oliver Laxe dividiu o Prêmio do Júri com o alemão “O som da queda”, de Mascha Schilinski.


Previsto para estrear no Brasil no dia 26 de fevereiro, “Sirât” é o quarto longa-metragem de Oliver Laxe e, segundo o diretor, aborda o “confronto com a morte”.


“Experiência sensorial”

Na tela, isso se traduz no que parte da crítica presente no Festival de Cannes descreveu como uma “experiência sensorial” de um “road movie musical”.


Rodado em 16mm pelo diretor de fotografia Mauro Herce, o longa acompanha a jornada de Luis (Sergi López), seu filho pequeno Esteban (Bruno Núñez) e seu cachorro pelo deserto do Saara, no Marrocos, em busca da filha Mar, que desapareceu meses antes.


Sergi López é o único ator profissional do elenco. Os demais papéis são desempenhados por frequentadores de raves e outras pessoas que têm familiaridade com esse universo.


Inteiramente filmado no deserto, no Marrocos, o filme acompanha os protagonistas atravessando paisagens áridas ao lado de um grupo de frequentadores de raves, enquanto distribuem fotos de Mar em festas eletrônicas.


Pai e filho lidam com a decepção do insucesso de suas buscas, mas mantêm a esperança de encontrar Mar numa última rave, ao Sul do deserto.


A crítica especializada apontou que o filme começa de maneira eufórica e se encerra de forma desesperadora, como uma “travessia rumo ao nada”. “Sirât” é um drama que retrata as facetas do luto e a dificuldade de encarar as complexidades desse sentimento.


O título do filme remete ao conceito islâmico “As-Sirat”, ponte fina e afiada que todos devem atravessar no dia do juízo final, para alcançar o paraíso. Essa metáfora estrutura o filme, traduzida num teste moral e físico contínuo.


Pedro Almodóvar

Filho de imigrantes galegos, Oliver Laxe nasceu em Paris, em 1982. Cresceu na Galícia, na Espanha, e se mudou para o Marrocos. Atualmente, é um dos nomes de maior destaque no cinema espanhol. Seus filmes anteriores – “Todos vós sodes capitáns” (2010), “Mimosas” (2016) e “O que arde” (2019) – também apresentam as características de experiências sensoriais, narrativas de deslocamento e personagens submetidos a provas físicas e espirituais. “Sirât” tem produção assinada pela El Deseo, dos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar.


A declaração desdenhosa de Oliver Laxe em relação ao concorrente brasileiro fez lembrar a polêmica que marcou a edição do Oscar no ano passado. O francês “Emilia Pérez”, de Jacques Audiard, começou a corrida pelo Oscar como favorito, com o maior número de indicações – 13.


No entanto, a recirculação de tuítes xenófobos e racistas de Karla Sofía Gascón, a intérprete da personagem-título, mergulhou o filme numa espiral de críticas e rechaço, praticamente anulando suas chances de vitória.


Escanteada pela própria equipe e “cancelada” nas redes sociais, Karla Sofía Gascón acabou por envolver o brasileiro “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, na controvérsia, ao sugerir que a divulgação de seus tuítes antigos tinha sido uma estratégia da equipe de Fernanda Torres para neutralizar a rival espanhola na disputa pelo Oscar de Melhor Atriz.


“Ainda estou aqui” obteve três indicações – além da nomeação de Fernanda Torres, o longa sobre a história de Eunice Paiva também disputou as categorias Melhor Filme e Melhor Filme Internacional.


“Emilia Pérez” concluiu a saga com apenas duas estatuetas – Melhor Atriz Coadjuvante, para Zoe Saldaña, e Melhor Canção Original. O Oscar de Melhor Atriz foi para Mikey Madison, a protagonista de “Anora”, de Sean Baker.

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*Estagiária sob supervisão da editora Silvana Arantes

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