O brasileiro “O agente secreto” e o norueguês “Valor sentimental” voltam a se encontrar na corrida pelos principais prêmios do cinema, agora na 98ª edição do Oscar. O filme de Kleber Mendonça Filho conquistou quatro indicações, enquanto o longa dirigido por Joachim Trier disputa nove estatuetas – número que o coloca empatado com as produções norte-americanas “Marty supreme” e “Frankenstein”. O brasileiro e o norueguês estão atualmente em cartaz nos cinemas de Belo Horizonte.


Antes do Oscar, os dois longas já haviam se enfrentado em competição pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio do ano passado, onde estrearam. “O agente secreto” saiu da Croisette com os prêmios de Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho), Melhor Ator (Wagner Moura) e o de Melhor Filme segundo a Fipresci, associação da crítica internacional.


Já “Valor Sentimental” conquistou o Grande Prêmio do Júri, considerado o segundo prêmio mais importante do festival, atrás apenas da Palma de Ouro.


Embora o Brasil tenha deixado a França com mais prêmios na bagagem, o volume de indicações de “Valor sentimental” (mais que o dobro do brasileiro) indica que, até o momento, a Academia de Hollywood tem mais apreço pelo norueguês.


Disputa acirrada

A disputa é acirrada na recepção da crítica. Nos sites agregadores, “O agente secreto” soma 92 pontos no Metacritic, enquanto “Valor sentimental” aparece com 86. Já no Rotten Tomatoes, a diferença é mínima, com 98% de aprovação para o filme brasileiro, contra 97% para o norueguês.


São produções bem diferentes. “O agente secreto”, de viés mais político, é ambientado no Recife de 1977, durante a ditadura militar brasileira. A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que retorna à cidade natal para escapar de um passado violento em São Paulo. Ao longo da história, ele tenta se reaproximar do filho pequeno, que vive com os avós.


Já “Valor sentimental” tem um tom mais íntimo e aborda o trauma geracional no reencontro das irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) com o pai ausente, Gustav (Stellan Skarsgård), cineasta que oferece à filha mais velha um papel em seu novo filme, no qual tenta elaborar artisticamente a relação familiar.


Apesar dos contrastes, os dois filmes também têm pontos em comum, como a relação com a paternidade e a defesa do cinema. Em “Valor sentimental”, o protagonista se opõe ao streaming em substituição à experiência das salas de exibição, além de compreender a sétima arte como um meio de dar significado à existência.


“O agente secreto”, por sua vez, faz uma ode aos cinemas de rua e à experiência coletiva de assistir a fenômenos cinematográficos como “Tubarão”. No título norueguês, a paternidade é o motor central da trama. O filme ainda flerta de forma discreta com a política, ao mencionar a barbárie do Holocausto e a resistência antinazista, mas sem o peso do retrato da ditadura militar presente no longa brasileiro.


Os dois concorrem diretamente nas categorias de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, que também incluem outros títulos fortes da temporada. A Noruega nunca venceu o Oscar. O Brasil conquistou sua primeira estatueta no ano passado, quando “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, foi escolhido o Melhor Filme Internacional.


Este é o sexto longa-metragem de Joachim Trier, e o país já soma seis indicações anteriores na categoria de Filme Internacional, a mais recente com “A pior pessoa do mundo” (2002), também dirigido por Trier e protagonizado por Renate Reinsve.


Wagner Moura se tornou o primeiro ator brasileiro indicado ao Oscar; até então, a marca havia sido alcançada apenas no lado feminino, com Fernanda Torres e Fernanda Montenegro. Com as indicações de Inga Ibsdotter Lilleaas (Melhor Atriz Coadjuvante), Renate Reinsve (Melhor Atriz), Stellan Skarsgård (Melhor Ator Coadjuvante) e Wagner Moura, a edição deste ano estabelece um recorde de quatro atuações indicadas em filmes falados em línguas que não o inglês. O recorde anterior, de três, havia sido registrado em 1976.


A indicação de Stellan Skarsgård a Melhor Ator Coadjuvante, aliás, foi vista como surpresa. Aos 74 anos, o ator sueco recebeu sua primeira nomeação ao Oscar. Com extensa filmografia, Skarsgård já participou de produções populares, como o musical “Mamma Mia!”, no papel de Bill, um dos possíveis pais de Sophie (Amanda Seyfried).


Apontado no início da temporada como um dos principais rivais de “O agente secreto”, o iraniano “Foi apenas um acidente” acabou parcialmente esnobado pela Academia, ficando restrito a apenas duas indicações – Filme Internacional e Melhor Roteiro.


A ausência do longa de Jafar Panahi entre as principais categorias surpreende após a Palma de Ouro em Cannes e ao atual contexto de repressão no Irã, tema do filme. A Coreia do Sul, por sua vez, ficou fora da disputa nesta edição. O aspirante do país, “No other choice”, de Park Chan-wook, não recebeu nenhuma indicação.

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“O agente secreto” e “Valor sentimental” entraram para um grupo seleto ao se tornarem o 12º e o 13º filmes em língua não inglesa a concorrerem, no mesmo ano, às categorias de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. Até hoje, “Parasita” (Bong Joon-ho) segue como o único título a conquistar as duas estatuetas.

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