Em 2004, quando viu seu longa-metragem “Cidade de Deus” receber quatro indicações ao Oscar – Diretor, Fotografia (César Charlone), Montagem (Daniel Rezende) e Roteiro Adaptado (Bráulio Mantovani) –, Fernando Meirelles já se dava por satisfeito. Até então, apenas “O beijo da mulher-aranha” (1985), de Hector Babenco, havia concorrido nesse mesmo número de categorias. Tratava-se, porém, de uma coprodução entre Brasil e Estados Unidos.


“Cidade de Deus” foi, portanto, o primeiro filme essencialmente brasileiro a disputar as categorias principais do prêmio da Academia de Hollywood. No contexto do início dos anos 2000, a indicação já tinha sabor de vitória. As chances de um filme brasileiro sair vitorioso do Oscar naquele momento pareciam nulas e, de fato, “Cidade de Deus” deixou Los Angeles sem nenhuma estatueta.


O estrondoso sucesso do longa de Fernando Meirelles e Kátia Lund era fruto do movimento de retomada do cinema brasileiro, que havia sofrido um de seus maiores golpes com a extinção da Embrafilme pelo governo Collor de Mello (1990-1992).


Chances de vitória

Agora, “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, repete o feito de “Cidade de Deus”, mas em um contexto diferente e com chances reais de vitória. Indicado a Melhor Filme, Filme Internacional, Ator (Wagner Moura) e Direção de Elenco nesta quinta-feira (22/1), o longa pernambucano figura entre as principais apostas da crítica norte-americana para levar a estatueta de Filme Internacional na cerimônia marcada para 15 de março, em Los Angeles.


Essa seria a segunda vitória consecutiva do Brasil na categoria, já que em 2025 Walter Salles conquistou o primeiro Oscar para o Brasil, com “Ainda estou aqui”. Parte da crítica estrangeira aposta também no Oscar para Wagner Moura, embora ele esteja competindo com astros americanos como Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet.


A mudança de contexto entre “Cidade de Deus” e “O agente secreto” se explica por dois fatores decisivos: a consolidação do cinema brasileiro enquanto indústria e, a transformação na mentalidade dos membros votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Desde 2020, quando o sul-coreano “Parasita”, de Bong Joon-ho, venceu o Oscar de Melhor Filme, a instituição vem ampliando seu quadro de associados fora dos Estados Unidos e abandonando, ainda que gradualmente, uma visão autocentrada nas produções norte-americanas.


Desmonte

No âmbito doméstico, o Brasil de 2026 também é muito diferente daquele de 22 anos atrás. “Cidade de Deus” era um filme fora da curva em sua época, quando a produção nacional ainda tentava se reerguer depois do desmantelamento do setor audiovisual. Antes da criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2001, não tinha havido políticas públicas substitutivas para o incentivo do cinema brasileiro.


A queda da produção foi monumental quando comparada aos anos 1960 e 1970, quando cerca de 100 obras eram produzidas anualmente. As duas décadas anteriores, aliás, foram marcadas por grande inventividade. Surgiu o Cinema Novo de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues e Leon Hirszman, ao lado das comédias populares, que tiveram em “Os Trapalhões” fenômeno de bilheteria.


Em 1976, “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto, levou cerca de 10 milhões de espectadores às salas, tornando-se um dos filmes mais bem-sucedidos da história do cinema nacional. Dois anos depois, o total de ingressos vendidos no país chegou a 61 milhões.


Os filmes brasileiros também circulavam no exterior. Glauber Rocha, por exemplo, recebeu o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 1969 por “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” – o mesmo reconhecimento conquistado por Kleber Mendonça Filho no ano passado com “O agente secreto”, diga-se.


Após o impeachment de Collor, com a posse de Itamar Franco e, posteriormente, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, novos mecanismos de incentivo foram implementados, como as leis Rouanet e do Audiovisual. Iniciava-se, então, o período conhecido como Retomada do Cinema Brasileiro. Vieram obras como “Carlota Joaquina”, de Carla Camurati; “O quatrilho”, de Fábio Barreto; “Central do Brasil”, de Walter Salles; e “Cidade de Deus”.


Políticas públicas

“‘O agente secreto’ é fruto de políticas públicas, que são uma maneira inteligente de investir na identidade do próprio país”, afirmou Kleber Mendonça Filho, em vídeo publicado no Instagram, após o anúncio dos indicados ao Oscar. “O Brasil é um dos países que utiliza de maneira inteligente o investimento público em produtos culturais”, completou.


Outro fator que fortalece o filme na disputa deste ano é o processo de diversificação promovido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Em 2020, 819 novos integrantes foram convidados a se juntar à instituição. Desse total, 45% eram mulheres, 36% pessoas não brancas e 49% estrangeiros.

Desde 1961 — quando usou o tapete vermelho pela primeira vez —, o Oscar ajudou a transformar objeto em um espetáculo à parte, com transmissões televisivas focadas nos figurinos, entrevistas e chegada dos artistas. Reprodução/YouTube
A ligação direta com o entretenimento começou em 1922, quando um tapete vermelho foi usado na estreia do filme "Robin Hood", no Egyptian Theatre, em Hollywood, para guiar as estrelas até seus assentos. Freepik/rawpixel.com
Nos Estados Unidos, há registros do uso do tapete vermelho já no século 19, especialmente em recepções oficiais e eventos políticos. Flickr - G20 Argentina
Séculos depois, o simbolismo continuou a ser usado em cerimônias reais e diplomáticas. Moshe Harosh/Pixabay
No texto, o rei Agamemnon retorna vitorioso da Guerra de Troia. Sua esposa, Clitemnestra, ordena que um caminho carmesim (vermelho escuro) seja estendido para ele. Sandra Filipe/Unsplash
A primeira menção histórica a um tapete vermelho aparece na literatura da Grécia Antiga, especificamente na peça Agamemnon (458 a.C.), de Ésquilo. Freepik
Muito antes de se tornar um elemento do glamour de Hollywood, o tapete vermelho nas premiações tem uma origem antiga e simbólica, ligada à ideia de honra e poder. Flickr - Steve Collis
Um dos grandes destaques em premiações como o Globo de Ouro, o tapete vermelho é sempre um momento que desperta atenção da audiência. Mas você sabe como surgiu essa tradição? Veja a seguir! Reprodução
Entre os filmes, “Uma Batalha Após a Outra” também se destacou, vencendo quatro categorias, entre elas Melhor Filme de Comédia ou Musical e Melhor Direção para Paul Thomas Anderson. Divulgação/Warner Bros. Pictures
Destaque para Owen Cooper, de 16 anos, que se tornou o mais jovem vencedor da categoria de Melhor Ator Coadjuvante em Televisão. Reprodução
Nas categorias de TV, a série “Adolescência” foi a mais premiada da noite, levando quatro troféus, incluindo Melhor Série Limitada. Divulgação
Ao receber o troféu de Melhor Ator, Wagner Moura fez um discurso emocionado, agradeceu aos colegas indicados e ao diretor. Ele ainda encerrou falando em português, exaltando o Brasil e a cultura brasileira. Reprodução/TV Globo
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, "O Agente Secreto" marcou o retorno do Brasil à lista de vencedores do Globo de Ouro após 27 anos, desde o triunfo de “Central do Brasil”. Divulgação
O longa também concorreu a Melhor Filme de Drama, mas o prêmio ficou com “Hamnet”, adaptação do livro de Maggie O’Farrell que narra a história do filho de William Shakespeare e o amor que inspirou a criação de “Hamlet”. Divulgac?a?o/Agata Grzybowska/Focus Features
A produção conquistou dois prêmios: Melhor Filme de Língua Não Inglesa e — pela 1ª vez na história — Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura. Divulgação
O filme brasileiro “O Agente Secreto” foi um dos grandes destaques do Globo de Ouro 2026, realizado neste dia 12 de janeiro, em Los Angeles. Divulgac?a?o/Globo


Nada, no entanto, está garantido. O jogo começa agora e tudo pode acontecer. Quem não se lembra, afinal, das polêmicas que levaram à derrocada do então favorito “Emilia Pérez”, que obteve 13 indicações no ano passado?

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As quatro indicações de “O agente secreto”, contudo, permitem afirmar que de 2004 para cá, o cinema brasileiro andou para a frente.

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