ARTES CÊNICAS

A despedida de Teuda Bara, nossa pasionaria da liberdade e da anarquia

Eduardo Moreira, fundador do Grupo Galpão, rememora a luminosa trajetória da atriz mineira que morreu no dia de Natal e faria 85 anos nesta quinta-feira (1º/1)

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EDUARDO MOREIRA*

Este artigo é dedicado a João Santos, que, além de artista e biógrafo da atriz Teuda Bara, foi seu anjo da guarda nos últimos tempos. Teuda deixou-nos no último 25 de dezembro, em pleno Natal, festa que, aliás, ela adorava e sempre celebrava, invariavelmente, com uma farta bacalhoada generosamente oferecida em sua casa para muitos familiares e amigos.

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O mundo certamente tornou-se mais entediado e sombrio com sua partida. Ela completaria 85 anos hoje, 1º de janeiro. Só nos resta seguir, ainda que desprovidos de sua luminosa presença, marcada por sua desmedida simpatia e estrondosa gargalhada.

Tudo em Teuda era intenso, catártico, anarquista e espontâneo. Profundamente libertária, menos por convicção do que por pura natureza, encontrou na arte e no teatro o lugar propício para a expressão desmedida de seu espírito vulcânico, livre e indomável. Sem levantar bandeiras, foi mulher que rompeu barreiras, dando uma solene banana para as caretices e os convencionalismos de um país sempre tão marcado por autoritarismos, injustiça e violência.

Teuda, nascida Teuda Magalhães Fernandes, foi batizada Teuda Bara em homenagem à grande atriz americana de cinema mudo, Theda Bara, pelas mãos do também indomável e irrequieto diretor Eid Ribeiro, que lhe abriu as portas do teatro.

Duplo registro: Sônia e Teuda

Filha do seu Augusto, trompetista da banda da Polícia Militar de Minas Gerais, e de dona Helena, mulher fervorosamente católica, mas que gostava de soltar a voz em rodas de música. Gostava, também, de compor paródias, em que discorria sobre fatos corriqueiros do quotidiano e não perdia a chance de criticar o comportamento boêmio e mulherengo do marido.

Dona Helena Magalhães abraçada com a filha Teuda Bara, em 2003, quando a atriz recebeu convite para trabalhar no Cirque du Soleil, no Canadá
Dona Helena Magalhães com a filha Teuda Bara, em 2003, quando a atriz recebeu convite para trabalhar no Cirque du Soleil, no Canadá Juarez Rodrigues/EM/11/10/2003

As desavenças do casal deram a Teuda um duplo registro de nascimento: o de Sônia, registrada pelo pai; e o de Teuda, pela mãe, que não queria que ela tivesse o nome de uma antiga namorada do marido.

Dupla identidade, que, aliás, poderia bem vir a calhar naqueles tempos bicudos em que pessoas eram presas e sequestradas por qualquer motivo. Foi nesse contexto de resistência contra os desmandos da censura, da tortura e do silenciamento brutal, promovidos pela bandalheira cívico-militar implantada no país a partir do golpe de 1964, que cruzamos pelas primeiras vezes pelas rampas, corredores e murinhos da antiga Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, a Fafich, em seu emblemático prédio da Rua Carangola, no Bairro Santo Antônio.

Éramos militantes do movimento estudantil, que, a duras penas e sob um risco grande, tentava respirar num país submetido ao sufocamento absoluto. Eu, jovem calouro do curso de direito que logo migraria para a filosofia e o teatro, tentando encontrar alguma válvula de escape no mundo tomado de baionetas e pregação moral e cívica. Teuda, já figura pública e manjada, circulava de maneira espalhafatosa (usava um cincerro de vaca preso aos pés!) pela rampa dos corredores da Fafich, desfilando nua numa banheira na peça “Triptoleno 17”, dirigida pelo mesmo Eid, que tinha no elenco Adyr Assumpção e Antonio Grassi.

Os tempos eram tão bicudos que, depois de terem vários trechos e palavras da peça censurados na estreia em Brasília, decidiram desafiar o censor e apresentar a peça na íntegra. Resultado: a peça acabou embargada e a temporada, cancelada.

Tempos sombrios, que, paradoxalmente, levavam pessoas e artistas a viverem profunda experiência de exercício de liberdade. Como Sartre, que dizia que nunca os franceses tinham desfrutado de um sentido tão radical de liberdade quanto no período da dominação nazista, também artistas como Teuda, Eid e tantos outros viveram naquele período uma corajosa e inigualável aventura de liberdade.

A experiência de luta e resistência segue com sua posterior mudança para São Paulo, a fim de se juntar a outros artistas mineiros (o grupo Kuzala, de Adyr e Helinho), seguindo os passos do diretor Zé Celso Martinez Corrêa, que levava o teatro para as praças e ruas com a montagem de “Carnaval do povo brasileiro”. Sem lenço e sem documento, Teuda vai viver intensamente a experiência do Teatro Oficina, mergulho radical na contracultura anárquica de contestação hippie dos valores burgueses.

É nesse período de falta absoluta de dinheiro e de perspectivas econômicas que vai nascer Admar, seu segundo filho. Teuda gostava de contar a história de que, diante dos olhares desaprovadores que viam naquela maternidade solo, em condições tão desfavoráveis, uma loucura, o bruxo José Celso agarrou-se a seu ventre e saudou efusivamente a chegada de um novo ser, que fazia com que a roda da vida se renovasse.

Teatro Livre de Munique

Em 1982, Teuda está de volta a Belo Horizonte, mãe solteira, criando dois filhos, quando mais uma vez será arrastada pelo furor dionisíaco do teatro. É quando desembarcaram na cidade os diretores da companhia alemã Teatro Livre de Munique, para ministrar oficina de duas semanas no Teatro Marília.

Uma verdadeira maratona física, com jogos e exercícios extenuantes, que começou com quase 90 inscritos e acabou com menos de 20 sobreviventes. Desses, nove foram recrutados para outra oficina, dessa feita de teatro de rua, dentro da programação do Festival de Inverno da UFMG, em Diamantina. O trabalho tem continuidade em Belo Horizonte, com o mesmo grupo de atores, que montam a peça “A alma boa de Setsuan”, de Brecht.

O espetáculo teve vida muito curta. Depois de duas semanas de temporada no Teatro Francisco Nunes, os alemães vão embora e o grupo se dissolve. Mas a intensidade daquele processo acabou criando um vínculo tão forte que, logo na sequência, nos reunimos diante de uma mala de figurinos e decidimos montar a peça de teatro de rua “E a noiva não quer casar…”.

Das cinzas daquela experiência tão intensa e efêmera, como uma fênix, ressurgiu a forte chama de um coletivo moldado no trabalho, no comprometimento e na amizade, que dura há 43 anos: o Grupo Galpão.

Quatro atores do Grupo Galpão estão ajoelhados num parque com os braços para o alto
Teuda Bara (terceira da esquerda para a direita) nos primórdios do Grupo Galpão Galpão/reprodução

De origem simples, Teuda era mulher do povo, fazia lembrar as cholas bolivianas, com seus traços marcantes e sua constituição corpulenta. Sua presença trazia uma forte diversidade ao coletivo do Galpão, contrapondo-se, com sua estranheza, a um certo traço pequeno burguês predominante no grupo.

Pacha mama

Mais velha do que nós, era uma espécie de Pacha Mama, a grande mãe que abraçava e protegia a todos. Circulando entre métodos de trabalho e estéticas que iam do experimentalismo de Eid Ribeiro e a anarquia festiva de Zé Celso e do Teatro Oficina até a disciplina e precisão milimétrica dos alemães, ela se atirava sem rede de proteção nos riscos do ofício.

Com sua simpatia desmesurada, seus peitos transbordantes, um corpo desmedido, que parecia querer abraçar o mundo, Teuda trazia em si a ancestralidade da grande mãe protetora, aquela que abarca, protege e sustenta o mundo inteiro. Não foi à toa que criou personagens marcantes de amas, que acalentavam os desprotegidos e defendiam alguma justiça para os desamparados.

Rodolfo Vaz e Teuda Bara usam roupas e maquiagem que remetem ao circo em cena da peça Romeu e Julieta, do Grupo Galpão
Rodolfo Vaz e Teuda Bara, a Ama de 'Romeu e Julieta', o espetáculo que projetou o Grupo Galpão internacionalmente Eugênio Sávio e Gustavo Campos/divulgação

Foi assim na inesquecível criação da Ama de Julieta, em “Romeu e Julieta”; da ama da casa dos Medardo, em “Partido”, da fábula do visconde partido ao meio de Italo Calvino; e da Mãe que, ao mesmo tempo, queria se livrar, mas não conseguia deixar de amar o filho, em “Till, a saga de um herói torto”.

Eduardo Moreira e Teuda Bara em "Tio Vânia". Nesta peça, atriz interpretou personagem rara em sua carreira: a hostil e antipática Maria Vassiliev
Eduardo Moreira e Teuda Bara em "Tio Vânia". Nesta peça, atriz interpretou personagem rara em sua carreira: a hostil e antipática Maria Vassiliev Eugênio Gurgel/Esp.EM.D.A Press/2011

Dona de biotipo marcante e irresistível, Teuda Bara entrava em cena e imediatamente magnetizava a atenção e o carinho do público. Foi assim com Vesúvia, a mulher muda e submissa que se transformava num vulcão falante em “A comédia da esposa muda”; com Nieta, a criada espevitada e crítica de “O doente imaginário”, de Molière; e também c0om a atrapalhada secretária de Educação de província em “O inspetor-geral”, de Gogol.

Em sua galeria de personagens um tanto fora da curva, Teuda fez a ressentida Tia Rute de “Álbum de família”, de Nelson Rodrigues, e a autoritária e decadente aristocrata russa Maria Vassilievna, de “Tio Vânia”, de Tchékhov. Aliás, só mesmo Yara de Novaes para, com muito jeito e tato, fazê-la encarnar uma personagem antipática e hostil.


Nossa Senhora do baseado

 

Ela ainda encarnou, com certa dose de sarcasmo e devoção, a Virgem Maria em “A rua da amargura”, e uma Nossa Senhora em “Triunfo, um delírio barroco”, chamada carinhosamente pelos músicos do coro de “Nossa Senhora do baseado”.

Houve, ainda, o capítulo da parceria com Marcio Abreu, com os espetáculos “Nós” e “Outros”, em que a encenação tinha como centro a figura emblemática de Teuda, em torno de quem gravitava toda a dramaturgia de um coletivo de atores/performers, que espelhava muito a estrutura do Galpão.

O carisma da máscara de Teuda Bara acabou por levá-la a atuar no espetáculo “Ka”, do Cirque du Soleil, com direção de Robert Lepage. A história do convite que a levou a ficar mais de três anos, primeiro em Montreal e depois nos estúdios da MGM, em Las Vegas, é uma prova de sua personalidade marcante.

Teuda Bra sorri, com rosto fortemente maquiado e peruca loura, caracterizada como personagem do Cirque du Soleil
Teuda Bara no Cirque du Soleil Rafa Marques/Reprodução

Numa reunião entre Lepage e os produtores do Cirque du Soleil para a definição do elenco, o diretor perguntou se os atores teriam que ser obrigatoriamente canadenses e americanos. Diante da declaração de que poderia escolher quem bem entendesse, Lepage não titubeou: quero a atriz brasileira que fazia parte de uma montagem de “Romeu e Julieta” no palco do Globe Theater, em Londres. Ele nem se lembrava do nome do grupo, mas a figura de Teuda tinha ficado tão marcada em sua retina, que o papel tinha que ser dela.

Teuda fez também muita televisão e cinema. Estava sempre pronta e entusiasmada para participar de projetos de curtas-metragens de jovens realizadores, muitas vezes sem nem saber o valor do cachê proposto.

Simpatia além das fronteiras

Apesar de péssima aprendiz de línguas (morou no Canadá e nos Estados Unidos, mas só conseguia falar umas poucas palavras e frases em inglês), era exímia comunicadora. Excelente contadora de estórias, sua simpatia não encontrava barreiras por onde passava.

Certa feita, quando o Galpão fazia uma turnê de grupos latino-americanos pela Itália, ficamos hospedados num albergue na sede do grupo Potlach, na cidade de Fara Sabina. No mesmo espaço, estava hospedado um grupo de alemães, que faziam na cidade residência para um curso intensivo de italiano.

Para comemorar nossa chegada, saímos para comprar ingredientes, a fim de preparar uma macarronada. Ao voltarmos, deparamos com a inusitada cena de Teuda, rodeada pelos alemães, gesticulando às gargalhadas na companhia de todo o grupo. Todos se entendiam perfeitamente na improvável língua universal que unia toda a humanidade. Essa era a Teuda, que, sem falar outra língua que o brasileiro, tinha enorme capacidade de se comunicar com todo o mundo que cruzasse o seu caminho.

Como Molière, Teuda viveu seu último ato em cena, celebrando essa arte festiva e arriscada chamada teatro. Nos últimos anos, com a saúde cada vez mais debilitada, especialmente com a dificuldade muito grande de locomoção, ela renascia e se renovava sempre que vestia o figurino, se maquiava e subia ao palco. Era como se um sopro de vida se alastrasse por seu corpo cada vez mais abatido pelo peso terrível do tempo, que nos faz pender para a terra. O teatro renascia em seus olhos um frescor de infância e entusiasmo.

Último suspiro

No último dia 13 de dezembro, Teuda subiu aos palcos pela última vez, apresentando em BH o espetáculo “Doida”, baseado no conto de Carlos Drummond de Andrade, com direção de Inês Peixoto. Ela o fez no sacrifício, com a perna fraturada e com a dedicação e a entrega que os grandes atores sempre dedicam a seu ofício. Ainda teria uma segunda apresentação no domingo, dia 14, que não pôde ser realizada por conta de suas dores.

Teuda Bara gargalha em cena de 'Doida', a última peça que encenou, sob direção de Inês Peixoto
Teuda Bara em 'Doida', a última peça que encenou, sob direção de Inês Peixoto Adalberto Lima/divulgação

Onze dias depois de internada, viria a falecer. Mas, sem dúvida, seu último suspiro de consciência plena foi dado no único lugar em que ela se sentia verdadeiramente plena e feliz: o palco.

O Galpão perdeu uma de suas vigas mestras. Assim como havia perdido com a partida de Wanda Fernandes, em 1994.

A pergunta que fica é como recolher os cacos e continuar. Porque é preciso seguir em frente. Mais do que tudo, para celebrar a memória desta mulher extraordinária, que sempre rompeu limites, tabus, preconceitos, uma mulher guerreira, que segurou a barra da vida, criando dois filhos e ajudando a família, fazendo dignamente o teatro em que acreditava e queria, mais que tudo, continuar fazendo.

Sua dignidade e sua integridade como criatura humana e no exercício de seu ofício, junto à desconcertante capacidade de acreditar na vida e de superar obstáculos, são um legado definitivo, não só para o coletivo do Galpão, como para todos nós.

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* Eduardo Moreira é ator, diretor e um dos fundadores do Grupo Galpão

NOTA: Dolores Ibárruri Gomez (1895-1985) era La Pasionaria, líder comunista republicana que, durante
a guerra civil espanhola, criou o famoso bordão “No pasarán”, tornando-se ícone da luta antifascista.

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