Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
VITALidade

A autenticidade é narrativa

A autenticidade exige encontrar o fio que atravessa nossas mudanças

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Outro dia, uma leitora me chamou no Instagram e questionou como ela poderia viver uma vida autêntica. Procurei entender um pouco melhor a pergunta, já que ela tem muitas nuances. Afinal, o que significa ser fiel a nós mesmos se nós mesmos mudamos ao longo do tempo? Aquilo que quando tínhamos 20 anos nos parecia essencial, pode não ter mais nenhum sentido aos 50.
Do mesmo modo, aquelas escolhas que antes eram vistas como incontornáveis tornam-se, mais tarde, apenas mais um episódio dentro de uma história maior. O problema da autenticidade é que ela esbarra na questão essencial sobre saber quem se é e como descobrir isso se não existe um “eu” completamente pronto e estável esperando para ser descoberto.

Assim, como descobrir em si mesmo se estamos sempre em movimento e em processo de transformação? Como é possível que a mesma pessoa que aos 25 fazia escolhas irreversíveis seja, décadas depois, irreconhecível para si mesma e, ainda assim, siga sendo ela mesma? É exatamente essa tensão que o filósofo Paul Ricoeur tenta resolver. Ele começa distinguindo dois modos de desenvolvimento da identidade pessoal.
O primeiro, que ele chama de Idem, reúne aquelas características verificáveis e que tendem a se estabilizar ao longo da vida, tais como traços psicológicos ou hábitos. Já o segundo, chamado por ele de Ipse, é mais sutil, e se refere àquilo que atravessa o tempo e, apesar das mudanças, mantém uma fidelidade àquilo que de mais genuíno há em nós. Ele aparece como uma promessa: a promessa de sermos nós mesmos, mesmo sabendo que vamos mudar.

Nesse segundo caso, entende o autor, a construção, manutenção e reconstrução da nossa personalidade acontece de maneira narrativa, ou seja, só conseguimos compreender esse fio de continuidade em nossas vidas quando falamos sobre nossa vida vivida. Quando narramos nossa própria história, acontecimentos antes dispersos passam a adquirir forma dentro de uma narrativa inteligível que chamamos de “minha vida”.
É por meio da fala que conseguimos organizar situações que antes pareciam obscuras, criar conexões entre passado e presente, reinterpretar acontecimentos, redimensionar a dor e, por fim, estabelecer uma unidade de sentido na existência. Para Ricoeur, ao narrarmos nossa vida organizamos o tempo da experiência.
Nesse sentido, voltando à pergunta da minha leitora, para ser autêntico é preciso saber (em algum nível) quem se é, e isso envolve um processo constante de contar, recontar e reinterpretar a própria história, identificando aquilo que, de algum modo, é perene e, portanto, essencial. Isso significa que a autenticidade não é um ponto de chegada, mas uma prática cotidiana que nos conduz rumo a nós mesmos.

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