Um amor impossível
O sofrimento não é decorrente da não satisfação do desejo, mas da recusa em aceitar os limites para atingi-lo
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Vocês já perceberam como no mundo contemporâneo, direcionado pela lógica do consumo, inclusive afetivo, o desejo foi transformado em urgência? A ideia é que, se eu sinto algo, devo imediatamente reagir e qualquer limite imposto, seja pela vida, seja pela sociedade, é percebido como algo inaceitável. Vivemos na cultura da satisfação imediata, que nos ensina que conter ou renunciar a algo que se deseja é um desperdício.
Somos todos convidados à satisfação plena daquilo que queremos, ainda que, para isso, algumas pessoas sejam machucadas no caminho. Uma história que ouvi outro dia parece ir na contramão desse cenário, pois me mostrou que o sofrimento não é decorrente da não satisfação do desejo, mas da recusa em aceitar os limites para atingi-lo.
Uma conhecida me chamou para um café e me contou que, não sabe se por descuido ou vontade própria, acabou se apaixonando por uma pessoa bem mais jovem que ela, e que havia notado certa correspondência. Apesar do brilho nos olhos dela, que, diga-se de passagem, não via há muito tempo, ela me relatou que não avançaria nem um milímetro na relação de amizade que mantinham há algum tempo. Incrédula, questionei como aquilo seria possível, já que, segundo me disse, eles se encontravam com frequência e trocavam mensagens quase todos os dias.
Com um jeito calmo, próprio de quem sabia exatamente o que estava fazendo, me narrou que não renunciaria aos encontros ou às mensagens, mas que entendia genuinamente que nem todo amor precisava ser satisfeito, sob pena de que aquilo que se perderia fosse maior do que aquilo que se ganharia.
A discrição pede que eu não avance na descrição do caso, mas decidir que aquele amor era impossível pareceu mesmo, diante do contexto que me foi apresentado, a solução mais eticamente orientada. Amores impossíveis não são incomuns e a literatura é farta deles. Vejam como seus protagonistas sofrem! Mas no caso que compartilho agora com vocês, o que me chamou atenção foi exatamente a recusa da narradora em sofrer ou de submeter aquele amor à lógica da urgência. Em um mundo no qual aprendemos que querer é poder (e esse poder é quase um dever), a decisão de sustentar um sentimento sem exigir sua realização é algo quase contracultural. Não foi impotência, foi escolha.
Como me disse, foi proteção. Em momento algum minha narradora lamentou o amor que não poderia viver ou queixou-se ressentida da vida. Muito pelo contrário, ela falava com alegria do fato de estar se sentindo apaixonada naquela altura da vida, como se o próprio sentimento já fosse, por si só, ganho suficiente.
Foi exatamente essa expectativa frustrada que me obrigou a rever uma crença quase universal: a de que o sofrimento decorre automaticamente da não realização do desejo. Como popularmente se fala “amar é sofrer”. A história acima mostra que, muitas vezes, o sofrimento decorre da não aceitação de um limite ético insuperável que se apresenta. O sofrimento nasce quando transformamos todo desejo em direito e vemos nos limites uma injustiça. Minha conhecida aceitou com resiliência o limite ético intransponível que a realidade impôs e decidiu viver plenamente aquele amor como algo que não foi feito para ser realizado. E quando ela fez isso, ela mudou a perspectiva e aquilo que era impossível deixou de ser experimentado como ferida para ser vivido como algo que lhe passou a encher a realidade dela de cor.
André Comte-Sponville, filósofo francês, afirma que amar é não reivindicar do outro ou da vida aquilo que eles não podem nos dar. Quem ama se alegra com a existência do outro, sem reivindicá-la para si. Amamos com sofrimento quando queremos que o mundo se dobre ao nosso desejo e amamos sem sofrimento quando acolhemos os limites do outro e da vida.
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Isso é muito exigente para a maioria de nós, pois implica aceitar os obstáculos, sem nos tornarmos infelizes por isso. A minha narradora pareceu compreender verdadeiramente o significado de amar e, em meio a toda urgência do mundo, decidiu seguir amando, mas certa de que há desejos que, se forçados à realização, destroem mais do que constroem.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
