O dia em que minha mãe passou a dizer não
O envelhecimento pode nos ensinar que não é preciso agradar a todos se isso nos desagradar
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Durante muito tempo da sua vida minha mãe foi uma mulher bastante razoável. Confesso que até demais. Sempre foi cordata, nunca se recusava a nada e suas palavras de conforto eram cirúrgicas e, claro, politicamente corretas. Podemos dizer que ela foi a típica mulher que fez exatamente o que se esperava dela: cuidou do marido, dos filhos e dos netos com muita dedicação.
No entanto, com o avançar da idade, sem que tenha tido qualquer problema mental ou de saúde relevante, ela começou a atuar de maneira diferente: está mais falante, aprendeu a dizer não quando lhe desagrada dizer sim e seus conselhos hoje em dia parecem muito mais rebeldes do que aqueles com os quais me acostumei durante a vida.
Ela não se tornou uma pessoa de difícil convivência, de modo algum, ela segue sendo alguém incrível. Creio que o que todos nós estranhamos foi que, pela primeira vez em todo nosso tempo de vida, passamos a ouvir a voz dela, que sempre foi quase inaudível, tamanho o desejo que tinha de agradar a todos. Para termos certeza que estava tudo bem, levamos no psiquiatra, no geriatra e, por fim, para uma psicóloga, e todos foram unânimes: não há qualquer problema, o que está acontecendo é que ela está se libertando das antigas amarras que a sociedade e ela mesma se impuseram durante toda a vida.
Os médicos nos disseram que era muito normal que as pessoas em processo de envelhecimento se libertassem do peso de corresponder às expectativas alheias, e passassem a viver segundo aquilo que lhes toca a alma de modo genuíno. Segundo eles, na maturidade, é frequente que as pessoas percebam que não é mais necessário agradar a todos e passem a agradar também a si mesmas. Ela não deixou de nos cuidar, mas o faz hoje em dia conciliando isso com o cuidado que tem que ter consigo mesma.
No livro “A velhice”, de Simone de Beauvoir, ela nos ensina que a vida adulta é atravessada por uma pedagogia da adaptação, que nos ensina a viver em sociedade e a corresponder às expectativas alheias como se fossem próprias. Aprendemos que devemos ser razoáveis, adaptáveis, não causar incômodo e manter a harmonia nas relações, ainda que isso signifique passar por cima daquilo que verdadeiramente corresponderia àquilo que desejamos.
Esse aprendizado, segundo ela, é tão arraigado em nós que, à medida que o tempo passa, passamos a experimentá-lo não como uma imposição social, mas como algo natural. No caso das mulheres, para Beauvoir, esse processo de domesticação da vontade em prol dos outros costuma ser ainda mais intenso, pois socialmente é dado a elas o papel de cuidadoras e mediadoras dos conflitos, nunca causadoras.
Creio que, com a maturidade, muitas das pressões sociais que antes direcionavam nossas condutas, começam a perder força. A carreira já não é mais tão importante, os filhos já estão criados e as obrigações, antes inadiáveis, passam a perder sua força. Talvez seja esse o tempo em que percebemos que essa vida é breve, única e irrepetível, e que viver apenas para agradar a todos é uma grande tolice.
O olhar dos outros passa a ter um peso menor. Não é que com o envelhecimento nos tornamos mais egoístas, isso pode soar assim para as pessoas que acostumaram a nos ver sempre fazendo o que elas queriam. Mas não é bem isso, creio que esse é apenas o momento em que conseguimos conciliar o que se espera de nós com aquilo que verdadeiramente queremos fazer com nossas vidas.
Nesse sentido, a velhice, que costuma sempre vir atrelada à ideia de perdas, ganha um contorno novo e reconfortante, que é o da possibilidade de se viver de forma mais autônoma. Depois de uma vida inteira sendo convocados a cumprir papéis e a corresponder às expectativas, alguns de nós descobrem, talvez pela primeira vez na vida, a liberdade de não se ajustar completamente ao que os outros esperam de nós.
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E isso, como aconteceu na minha família, pode ser assustador em um primeiro momento, pois nos obriga a aprender a lidar com uma nova pessoa, no entanto, ao lado do susto, no nosso caso, veio a indescritível oportunidade de conviver verdadeiramente com quem nossa mãe é, e isso, para além do desafio, está sendo uma experiência inspiradora.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
