Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
COLUNA VITALidade

A indiferença como o mal contemporâneo

Talvez o risco da modernidade não esteja no aumento da brutalidade, mas sim na perda da capacidade de ficarmos perplexos diante dela

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Não é incomum vermos pessoas afirmando que o mundo está mais cruel. Pode ser que ele esteja mesmo, mas, ao lado dessa crueldade há algo ainda mais preocupante, que é a nossa apatia diante dela. Podemos falar em guerras, dores ou sofrimentos alheios sem, de fato, nos deixarmos afetar minimamente por tais realidades. A mim parece mais problemático não um aumento da crueldade explícita, afinal, a história nunca foi isenta dela, mas sim a forma como o mal passou a não causar mais estranhamento. Já perceberam que poucos de nós interrompem as tarefas cotidianas em razão da dor alheia, a não ser que seja uma pessoa muito próxima? Seguimos trabalhando, divertindo e consumindo, deixando, quando muito, que a dor do outro seja um pano de fundo bem distante da nossa realidade.

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Talvez o risco moderno não esteja propriamente no aumento da brutalidade, mas sim na perda da capacidade de julgarmos e de ficarmos perplexos diante dela. Hannah Arendt, ao analisar o julgamento de um oficial nazista alemão, formula a ideia de “banalidade do mal”. Com isso ela nos apresenta um estado de coisas no qual o mal deixa de ser percebido como monstruoso ou chocante e passa a operar de modo integrado à normalidade da vida social. Segundo ela, isso é proveniente da suspensão da nossa capacidade crítica e do pensamento.


Para a filósofa, quando a violência se torna rotina e a injustiça é tratada de modo estatístico, o mal deixa de parecer mal. Ele não desaparece, obviamente, mas, se torna rotineiro e, portanto, vai nos parecendo cada vez mais administrável. É possível pensar que essa indiferença ao mal é oriunda somente da nossa falta de sensibilidade, mas isso é pouco para explicar o fenômeno. O que parece é que fazemos uma adesão a essa normalidade, às vezes brutal, que permite que tudo siga funcionando, ainda que não devesse mais estar em operação.


Se olharmos para as nossas sociedades modernas, veremos que a indiferença à barbárie não é somente um desvio moral individual, mas sim, resultado de uma sociedade voltada para a eficiência e para a produtividade. O modelo de convivência que estamos construindo não tolera quem se deixa afetar pela barbárie, ela prefere aqueles que se adaptam e cumprem tarefas de maneira automática, sem questionar. O mais espantoso de se perceber é que a indiferença, concebida pela Filosofia Moral como falha ética, passou a ser considerada por muitos de nós como pragmatismo, equilíbrio e, pasmem, até mesmo maturidade.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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