O melhor bar do mundo para quem?
Existe algo que não se mede em rankings: a capacidade de um lugar fazer parte da vida das pessoas
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Todos os anos, a divulgação da lista dos 50 melhores bares do mundo movimenta a coquetelaria. Profissionais comemoram, turistas planejam viagens e estabelecimentos passam a ostentar posições no ranking como quem exibe uma estrela Michelin. É um reconhecimento importante, sem dúvida. Mas toda vez que vejo essas listas, uma pergunta me acompanha: o que faz um bar ser realmente extraordinário?
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Não tenho nenhuma dificuldade em reconhecer o mérito dos premiados. Conheço a complexidade de manter uma operação de excelência, a dedicação necessária para desenvolver uma carta de coquetéis e o trabalho de formar uma equipe capaz de entregar uma experiência impecável. Tudo isso merece aplausos. Mas tenho pensado que talvez estejamos confundindo excelência com importância.
Um bar pode ser tecnicamente perfeito e não significar absolutamente nada para quem o visita. Pode servir o melhor Martini da cidade, ter uma arquitetura impressionante e um serviço ensaiado nos mínimos detalhes. Ainda assim, podemos sair de lá sem qualquer vontade de voltar. Porque existe algo que não se mede em rankings: a capacidade de um lugar fazer parte da vida das pessoas.
Penso nisso especialmente quando olho para Belo Horizonte. Carregamos com orgulho o título de capital dos bares. Temos uma relação histórica com a mesa, com a conversa e com a vida que acontece nas calçadas. Mas sinto que estamos perdendo, aos poucos, uma das coisas mais bonitas dessa cultura: o sentimento de pertencimento.
Falta ao belo-horizontino, ou pelo menos a uma parte de nós, aquele bar que é quase uma extensão de casa. O lugar em que se bate ponto faça chuva ou faça sol. Não porque tem uma novidade no cardápio, um evento especial ou alguém famoso frequentando. Simplesmente porque é ali que se quer estar.
O bar onde o garçom conhece seu nome, percebe quando você não está num bom dia e sabe quando conversar ou quando deixar você quieto. Onde os frequentadores vão deixando de ser desconhecidos, depois viram conhecidos e, eventualmente, amigos. Onde a vida acontece sem precisar ser programada.
Existe uma diferença enorme entre frequentar um estabelecimento e construir uma relação com ele. A primeira experiência pode ser comprada. A segunda exige tempo. E talvez seja justamente o tempo que estejamos deixando de oferecer aos lugares.
Vivemos numa lógica de novidade permanente. O bar inaugurou? Precisamos conhecer. Ficou famoso? Precisamos fotografar. Apareceu outro mais interessante? Seguimos adiante. Não há nada de errado em descobrir novos endereços, mas alguma coisa se perde quando nossa relação com a cidade se resume a uma sucessão de primeiras visitas.
O bar deixa de ser um lugar de convivência e passa a ser um produto a ser experimentado. O cliente deixa de ser frequentador e vira consumidor de experiências. Parece uma diferença pequena, mas não é.
Um bom bar tem uma função social que ultrapassa, e muito, a venda de bebidas. É um dos poucos espaços em que pessoas de histórias diferentes podem compartilhar uma mesa sem precisar justificar a própria presença. É onde amizades começam, amores terminam, notícias chegam e problemas parecem, por algumas horas, um pouco menores.
E há uma beleza especial naquilo que se repete. No mesmo balcão, no mesmo pedido, nas mesmas pessoas. A repetição, tão desprezada numa época obcecada por novidades, é justamente o que transforma um endereço em referência afetiva.
Claro que nós, empresários, também temos responsabilidade nisso. Não adianta querer clientes fiéis oferecendo relações descartáveis. Pertencimento exige presença, consistência, respeito e hospitalidade verdadeira. Não nasce de campanhas de marketing ou programas de fidelidade. Nasce quando alguém percebe que faz diferença estar ali.
Talvez a maior conquista de um bar não seja entrar numa lista internacional, mas fazer falta quando fecha para férias. Ser lembrado, não pelo drink mais elaborado que já serviu, mas pelas histórias que ajudou a abrigar.
Os rankings continuarão importantes. Precisamos deles para reconhecer talento, estimular a evolução do setor e celebrar quem faz coisas extraordinárias. Mas não podemos permitir que a busca pelo excepcional nos faça desprezar o essencial. Porque, no fim, o melhor bar do mundo não é necessariamente aquele que oferece a experiência mais impressionante.
É aquele onde você não precisa impressionar ninguém. Onde pode chegar sozinho, sentar no seu lugar de sempre e perceber, sem que ninguém precise dizer, que pertence um pouquinho àquele lugar.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Talvez Belo Horizonte não precise de mais um bar. Talvez precise apenas que a gente volte a chamar algum de nosso.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.