Escala 6x1: descanso não é privilégio
Não existe palestra motivacional, treinamento corporativo ou discurso inspirador que compense um trabalhador cronicamente cansado
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Nos últimos meses, o Congresso voltou a discutir a escala de trabalho 6x1. O tema reaparece sempre cercado de polêmica, previsões catastróficas e um certo pânico no setor produtivo. No meio desse barulho todo, talvez valha olhar para a questão com um pouco mais de honestidade.
A escala 6x1 é, há décadas, praticamente um padrão em bares e restaurantes. Trabalha-se seis dias, descansa-se um. E assim segue a rotina. No papel, parece apenas uma forma de organizar a jornada. Na prática, muitas vezes significa viver permanentemente cansado.
Quem já trabalhou em bar ou cozinha sabe exatamente como isso funciona. Noites longas, fins de semana ocupados e feriados que simplesmente deixam de existir. Enquanto boa parte da cidade celebra, alguém está atrás do balcão, na cozinha ou carregando bandejas. Isso sempre fez parte da hospitalidade. O problema começa quando dedicação passa a ser confundida com exaustão.
Curiosamente, o mesmo mercado que hoje fala tanto em saúde mental muitas vezes ignora a base mais simples dessa conversa: descanso. Não existe palestra motivacional, treinamento corporativo ou discurso inspirador que compense um trabalhador cronicamente cansado.
A realidade da escala 6x1 é simples. Um único dia para tentar recuperar o corpo, resolver a vida pessoal, cuidar da casa, ver a família e, se sobrar tempo, descansar de verdade. Muitas vezes nem isso acontece. O resultado é um ciclo contínuo de fadiga que vai se acumulando semana após semana.
Esse modelo sempre foi defendido com o argumento da necessidade operacional. Bares e restaurantes precisam funcionar justamente quando as outras pessoas estão de folga. Isso é verdade. Mas também é verdade que tratar o desgaste da equipe como um custo inevitável nunca foi exatamente uma grande estratégia de gestão.
No Bar Palito, por exemplo, a escala adotada é 4x3. Quatro dias de trabalho e três dias de descanso. Para muitos empresários do setor, a primeira reação é de incredulidade. Parece impossível manter uma operação funcionando dessa maneira. Mas funciona.
E o resultado tem sido justamente o oposto do que o pessimismo costuma prever. Equipes mais descansadas trabalham melhor, atendem melhor e permanecem mais tempo na casa. A rotatividade diminui, o ambiente melhora e o serviço ganha consistência. Descanso, ao que parece, não destrói negócios. Pelo contrário.
Existe também um ponto que raramente aparece nas planilhas. O setor de hospitalidade depende diretamente de pessoas. Não existe bar sem bartender, não existe cozinha sem cozinheiro, não existe serviço sem equipe. Ainda assim, muitas operações continuam estruturadas como se o desgaste dessas pessoas fosse apenas um detalhe.
Quando o debate sobre a redução da jornada aparece, ele costuma ser tratado como uma ameaça ao empresário. Talvez seja o contrário. Talvez seja uma oportunidade de repensar um modelo que há muito tempo se sustenta mais pelo costume do que pela eficiência.
Trabalhar muito nunca foi exatamente o problema. O problema é trabalhar sempre cansado.
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Se a viabilidade financeira de um negócio depende do esforço sobre-humano de quem está na operação, algo definitivamente não está certo. Pode ser o planejamento, pode ser o modelo de gestão ou até o próprio desenho do setor. Infelizmente, discussões mais profundas, como a diminuição da carga tributária sobre a folha ou sobre o próprio setor de hospitalidade, avançam muito pouco.
É preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre a saúde financeira das empresas e a saúde de quem trabalha nelas. Mas uma coisa deveria ser inegociável. Pessoas sempre vêm antes dos negócios.
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Descanso não é privilégio. É condição básica para qualquer trabalho digno.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
