Túlio D'angelo
Túlio D'angelo
Túlio D’angelo é advogado e empresário. Já ocupou relevantes cargos na administração pública e privada. Optou pelo ramo da coquetelaria e alimentação e hoje está à frente do Bar Palito e do Chopp Bolacha. Também é o curador da Galeria São Vicente, na Praç
PAPO DE BALCÃO

O preço de um drink

No fim, o ingrediente mais caro de um bom coquetel dificilmente é o destilado

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Existe uma pergunta que todo bartender já ouviu, normalmente acompanhada de uma sobrancelha levantada: “Cinquenta reais num drink?” É uma dúvida legítima. Mas quase sempre ela parte da conta errada.

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Quem olha para um coquetel costuma enxergar apenas o líquido. Faz uma soma rápida: um pouco de gim, um pouco de vermute, uma casca de limão e gelo. Parece simples. Parece barato. Mas um bom drink nunca custou apenas o que está dentro da taça.


O que realmente está sendo servido começa muito antes de a garrafa ser aberta. Está nas centenas de receitas testadas para que apenas uma chegue ao cardápio. Está nas frutas descartadas porque não atingiram o ponto ideal. Está no gelo produzido corretamente, na taça escolhida, na temperatura exata, na equipe treinada para repetir o mesmo resultado na primeira ou na centésima execução da noite.


Há também o que ninguém vê. O bartender que chega cedo para preparar xaropes, infusões e guarnições. O controle de estoque para evitar perdas. A pesquisa de novos ingredientes. O treinamento constante. A limpeza do bar. A manutenção dos equipamentos. Os impostos, que nunca deixam de comparecer.


No fim, o ingrediente mais caro de um bom coquetel dificilmente é o destilado. É o conhecimento.


Curiosamente, ninguém estranha pagar caro por uma garrafa de vinho, cuja maior parte do valor está na história do produtor, na origem da uva e no tempo de amadurecimento. O mesmo acontece com um bom café ou um azeite de qualidade. Mas, quando chega a vez do drink, ainda existe quem tente resumir tudo ao volume de álcool servido.


Talvez isso aconteça porque a coquetelaria sofre de um problema curioso: quando é bem executada, parece fácil. Um Daiquiri leva menos de um minuto para ficar pronto. Um Martini pode ser preparado em poucos movimentos. O cliente vê sessenta segundos. Não vê os anos necessários para que aqueles sessenta segundos pareçam naturais.


Existe uma frase atribuída ao chef francês Auguste Gusteau, personagem do filme “Ratatouille”, que gosto bastante: “Qualquer um pode cozinhar.” Eu faria apenas uma pequena adaptação para o balcão: qualquer um pode misturar bebidas. Fazer um grande coquetel é outra conversa.


É justamente essa aparente simplicidade que engana. Quanto menos ingredientes uma receita possui, menor é a margem para erro. Um Old Fashioned não permite esconder um uísque ruim. Um Dry Martini não perdoa uma diluição mal feita. Um Daiquiri revela imediatamente um limão fora do ponto ou uma proporção equivocada.


Os grandes clássicos sobreviveram por mais de um século justamente porque provaram que técnica vale mais do que espetáculo.


Também existe uma comparação curiosa. Pouca gente reclama de pagar dezenas de reais por um combo de cinema, por uma cerveja em um estádio ou por um café em uma cafeteria famosa. O drink, porém, ainda precisa justificar sua existência. Talvez porque seu valor seja menos visível. Ele não ocupa muito espaço na mesa. Ocupa espaço no conhecimento de quem o preparou.


Isso não significa que todo drink caro seja bom. Assim como nem todo vinho caro merece o preço que cobra. Há exageros, modismos e marketing em qualquer mercado. O preço, sozinho, nunca foi certificado de qualidade. Mas um coquetel bem executado dificilmente será barato. E talvez nem devesse.


Da próxima vez que um bartender colocar uma taça à sua frente, experimente fazer outra conta. Em vez de calcular quantos mililitros existem ali, tente imaginar quantas decisões precisaram ser tomadas para que aquele equilíbrio chegasse ao copo. Talvez você descubra que o álcool foi, na verdade, a parte mais barata da experiência.

Receita da semana: Old Fashioned

Ingredientes

  • 60ml de bourbon
  • 10ml de xarope de açúcar
  • 2 a 3 gotas de Angostura Bitters

Modo de fazer

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  • Adicione todos os ingredientes a um copo baixo com um grande cubo de gelo.
  • Mexa delicadamente por cerca de 20 segundos.
  • Finalize com uma casca de laranja, exprimindo seus óleos sobre a bebida antes de colocá-la no copo.

Poucos ingredientes. Mais de duzentos anos de história. E uma prova de que o verdadeiro luxo nunca esteve na quantidade, mas na precisão.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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